Agressão militar da Rússia à Ucrânia foi mote de debate organizado pelo Bloco

06 de março 2022 - 9:48

Na sexta-feira, o Bloco de Esquerda promoveu um debate sobre a agressão militar da Rússia à Ucrânia com a dirigente bloquista Isabel Pires, o professor Marcos Farias Ferreira e o major general Carlos Branco.

PARTILHAR
Foto do Bloco de Esquerda de Lisboa.

Isabel Pires foi perentória ao afirmar que a Rússia “tem de respeitar totalmente a integridade territorial da Ucrânia e a soberania do seu povo” e que “a condenação desta invasão tem de ser inequívoca”.

Por outro lado, a dirigente bloquista, referiu que “esta agressão vem na sequência de uma série de acontecimentos que remontam, pelo menos, a 2004, se quisermos ir apenas à história mais recente”.

E acrescentou que “também é um facto que a expansão da Nato a leste contribuiu para esta escalada de tensão”.

Para Isabel Pires, “o principal a reter é que o povo da Ucrânia está no meio da disputa entre duas potências militares imperialistas e, por muito que existam partidários internos de um e outro lado, é a disputa das potências o que desestabiliza internamente a Ucrânia”.

De acordo com a dirigente do Bloco, a par da “guerra propriamente dita, há também uma guerra de desinformação que afeta todos os países”, incluindo Portugal. A esse respeito, referiu o editorial do Diário de Notícias, baseado em três mentiras sobre a posição do Bloco de Esquerda relativamente a este conflito, e que mais tarde foi desmentido, bem como as falsas acusações contra Mariana Mortágua.

Condenações claras

05 de março 2022

“Esta forma de atuação por parte das empresas que detêm os órgãos de comunicação não beneficia o debate público”, lamentou.

“Estamos na presença de uma luta dos EUA para afirmarem o seu projeto hegemónico”

O major general Carlos Branco realçou que aquilo a que estamos a assistir é “power politics”: “Estamos na presença de uma luta dos Estados Unidos para afirmarem o seu projeto hegemónico global”, frisou.

Segundo o especialista em assuntos político-militares e relações internacionais, “o pensamento geoestratégico tem influenciado a política externa dos Estados Unidos de uma forma absolutamente concreta”, sendo que, desde Spykman a Brzezinski, “tudo está escrito sobre essa matéria”.

O major general Carlos Branco lembrou que, em 1997, Brzezinski “identificou dois conceitos importantíssimos: os atores geopolíticos e os pivots geopolíticos”. “Estes últimos são os Estados cuja importância deriva não do seu poder e motivação, mas da sua localização sensível e das consequências da sua condição potencialmente vulnerável para o comportamento dos atores geopolíticos”, explicou.

Na lista de Estados pivot elencados por Brzezinski encontram-se a Ucrânia, o Azerbaijão, a Coreia do Sul, a Turquia e o Irão.

“Isto para explicar que existe um projeto, com uma construção teórica, perfeitamente concetualizado, do que é a intervenção dos Estados Unidos e qual é a sua prioridade de intervenção”, frisou o militar.

No caso concreto da Ucrânia, o major general Carlos Branco convocou a Revolução Laranja de 2004, que pôs no poder “um presidente favorável aos desígnios dos Estados Unidos”, num processo em tudo “orientado para a adesão à NATO”. Já em 2008, na Conferência de Bucareste, o presidente George W. Bush convidou a Ucrânia e a Geórgia para aderirem à NATO.

O especialista em assuntos político-militares recordou que este processo foi revertido em 2010, com a eleição do presidente Yanukovych e a consequente “inflexão na política externa da Ucrânia”. À época, “em vez de um alinhamento para a NATO, definiu-se uma política de neutralidade em relação às grandes potências”. O major general Carlos Branco ressalvou que, “ainda assim, nunca a cooperação com a NATO foi tão intensiva como foi durante o período Yanukovych”, com a Ucrânia a participar em todas as atividades abertas aos parceiros da NATO e, inclusivamente, em várias operações conjuntas.

Este processo “termina com o golpe de estado de 2014 patrocinado pelos Estados Unidos”. “Até essa data, as relações entre os diferentes grupos étnicos eram de coexistência pacífica. Tudo se alterou em 2014, porque é instaurado um novo regime apoiado em grupos de extrema-direita, que seguiam as ideias do Stepan Bandera. Esse grupo infiltrou-se massivamente no aparelho de segurança e no aparelho militar e começou a fazer uma perseguição à população russa”, assinalou o militar.

Desde o golpe de 2014 até agora, terão sido “chacinados cerca de 14 mil russos”.

“Autoridades de Kiev nunca demonstraram interesse em cumprir acordos de Minsk”

“O catalisador específico do que nos traz aqui é a questão nacional russa na Ucrânia. E a questão nacional russa na Ucrânia, quando começou a ser martirizada, era, no fundo, um estatuto de autonomia. Depois de uma série de confrontos militares, chegamos aos acordos de Minsk, que pretendiam configurar esta relação da comunidade russa na Ucrânia”, continuou o major general.

Carlos Branco apontou que “os acordos de Minsk nunca foram cumpridos e, declaradamente, as autoridades de Kiev nunca demonstraram interesse em cumpri-los”.

Quando Zelensky foi eleito, “tinha um discurso de conciliação e, inicialmente, vontade de discutir a questão da autonomia”. O especialista em assuntos político-militares esclarece, no entanto, que o problema passa por as elites políticas da Ucrânia estarem muito fraturadas, e a relação entre as elites políticas e as forças militares também não ser fácil. Acresce que, “dentro dos militares, existe o alto comando e depois estes grupos neonazis – que não são só o regimento Azov”.

“Podemos estabelecer alguma analogia com que o que se passou na Síria relativamente aos jihadistas. Enquanto a Síria se transformou num magneto de jihadistas e num campo de treino, isso está a acontecer agora na Ucrânia relativamente à extrema-direita”, vincou.

O major general Carlos Branco denunciou que, ao longo destes anos, “foi-se sistematicamente montando um dispositivo militar à volta da linha que separa os russo-ucranianos dos ucranianos, leia-se, na região de Donbass”.

“Isto contrariando o acordo de Minsk, que estipulava a existência de uma buffer zone [zona tampão], e que, em determinado número de quilómetros dessa zona de confronto, não era permitido mais equipamento pesado. Bem como definia o número de soldados. Tudo isso foi violado. Os ucranianos cada vez se aproximavam mais, e com maior número de armamento pesado, dessa linha de confrontação”, acrescentou.

O militar explicou que esta situação representava “um perigo iminente para a população russa que se encontrava do outro lado de Donbass” e que a Rússia deixou claro que tinha um dever de solidariedade para com os cidadãos russos da Ucrânia, alguns dos quais tinham, inclusive, o passaporte russo.

Se for criada “uma força expedicionária” será o “princípio do fim”

De acordo com o major general Carlos Branco, o objetivo das movimentações russas passava por “procurar, através de uma demonstração de força, persuadir os Estados Unidos ao cumprimento dos acordos de Minsk e, eventualmente, mais à frente, retirar a pretensão da Ucrânia de pertencer à NATO”.

O militar recordou que, em dezembro, a Rússia enviou duas cartas, uma para Washington e outra para Bruxelas, “para procurar definir novos termos de relacionamento da Rússia com os Estados Unidos e, depois, da Rússia com a NATO”. Contudo, “nenhuma das pretensões da Rússia foi atendida”. Acresce que, durante apenas o ano passado, “os Estados Unidos transportaram 1.3 biliões de dólares de equipamento para a Ucrânia” e foram feitos inúmeros investimentos da National Endowment for Democracy (NED) na Ucrânia “no sentido de subverter a sociedade Ucrânia através de organizações não governamentais que não são mais do que antenas políticas”.

Entretanto, em novembro passado, foi reiterado o acordo de parceria estratégica dos EUA com a Ucrânia.

No meio deste contexto, “entraram na liça” Macron e Scholz e a sua diplomacia, e Zelensky veio a afirmar a intenção de fazer um projeto de lei sobre a autonomia da minoria russa para que o Parlamento se pronunciasse.

O major general Carlos Branco apontou que a situação ia-se agravando e a concentração de forças aumentava, existindo o risco da população ser “passada a ferros”. Em Mariupol, os militares de extrema-direita da Azov muitas vezes não cumpriam ordens do alto comando, e recusaram-se a honrar compromissos assumidos com os russos para corredores humanitários.

O “catalisador específico” do atual conflito está bem identificado pelo especialista: trata-se do momento em que Zelensky vai para a Conferência de Munique, a 19 de fevereiro, dizer que quer prescindir do acordo de Budapeste de 1994 e dá a entender que está interessado no rearmamento nuclear.

Passados dois dias, Putin reconheceu a independência das duas Repúblicas.

O major general Carlos Branco considera que os russos encontram-se “numa situação existencial”, alertando que nestas situações “a moral escoa-se rapidamente pelo cano de esgoto”.

Do lado russo, restavam “duas más soluções: deixar a Ucrânia entrar na NATO e deixar a população russa ser chacinada, ou fazer o que fez”.

O militar está convencido de que “quando a Ucrânia entrar na NATO teremos a terceira guerra mundial”

Se a comunidade internacional sucumbir aos apelos permanentes de Zelensky, seja sobre a zona de exclusão aérea ou a entrada de tropas internacionais, e cometer a “loucura de criar uma força expedicionária”, será o “princípio do fim”, defendeu o major general Carlos Branco.

Estamos perante “questões de cidadania”

O docente universitário na área de Relações Internacionais Marcos Farias Ferreira enfatizou que estamos perante “questões de cidadania”.

“As consequências da guerra são, em primeiro lugar, para quem a vive, para os corpos de quem faz essa guerra, de quem sofre essa guerra, mas as consequências desta guerra estão a recair sobre todos nós”, apontou.

“Estão a recair a propósito das sanções económicas e financeiras, mas há outro tipo de consequências que já estamos a começar a sentir”, e que diz respeito ao facto de “estamos a observar que os frágeis consensos que sobreviveram da pandemia estão a fragilizar-se ainda mais”, explicou.

Marcos Farias Ferreira alertou que esta questão, a pouco e pouco, “vai tornar-se mais evidente”. Em Portugal já o é, com “o aproveitamento político”, e “a forma como as pessoas se colocam nesta questão, como se fosse um jogo de futebol”.

“O entrincheiramento, que é sempre pouco saudável, é, neste caso, ainda mais preocupante”, vincou, chamando a atenção para o extremar de posições no Estado Espanhol.

“Quanto mais tempo durar esta guerra, quanto mais difícil for encontrar soluções amplas, não só o cessar fogo, mas as questões que estão por trás, mais há a possibilidade de se abrirem feridas que estão relativamente fechadas”, acrescentou.

A seu ver, é preciso “precaução em termos de discurso público”, sendo que “o fundamental é encontrar soluções para acabar com a guerra, para conseguir chegar a um cessar fogo, não alimentar a guerra”.

De qualquer forma, Marcos Farias Ferreira acredita que “há bons sinais no meio disto tudo”, já que, por exemplo, “as declarações do secretário geral da NATO serviram para desescalar a situação”, ao ser sublinhado que não haverá intervenção direta e que é necessário existir um compromisso diplomático.

“Apesar de tudo, há alguma diferença de discurso face aos dias anteriores e face às declarações de Zelensky na Conferência de Munique no sentido da opção nuclear”, apontou.

O docente universitário advertiu, ainda assim, para a “posição moral insustentável” de “lançar os ucranianos para a guerra sem os ajudar no fundamental”, na medida em que enviar armas não altera correlação de forças no terreno”.

Marcos Farias Ferreira exprimiu a sua preocupação relativamente à relação entre as populações ucraniana e russa: “A maior parte das sociedades europeias receberam populações ucranianas e russas, e não podemos correr o risco de estar a criar problemas contra russos, ou entre russos e ucranianos”, frisou, avançando que é importante que “o ambiente não se contamine com estas questões” e que não haja “entrincheiramento e intimidação”.

Reforçando que “não podemos entrar na culpabilização coletiva”, o especialista em Relações Internacionais salientou que as populações russas “estão perante o problema moral” de não apoiarem as ações de Putin mas, ao mesmo tempo, não conseguirem encontrar maneiras de mostrar a sua posição ou saberem que a mesma tem consequências sobre os seus familiares na Rússia.

Marcos Farias Ferreira lembrou que têm existido manifestações de russos contra a guerra todos os dias. Mas alertou que “temos de ter em conta que, nesta altura, qualquer movimento mais contundente de tentativa de derrube do regime russo pode provocar uma crise humana muito maior do que aquela que está já a acontecer na Ucrânia”.

Putin “é o denominador comum de um conjunto de interesses” e, se pode haver uma tentativa, por parte dos seus parceiros, de o substituir, “de sobreviver a partir do sacrifício do líder, isso não significa que seja higiénico e rápido”. “Os interesses que se condensam em torno dos oligarcas e dos setores de segurança estão bem enraizados nos territórios russos, e o seu poder destrutivo pode criar a médio prazo problemas grandes”, afirmou o docente universitário.

Marcos Farias Ferreira realçou que, quanto mais tempo esta guerra se prolongar, mais essas contradições políticas se vão agravar, as contradições do sistema internacional, mas também as contradições do sistema russo e as nossas próprias contradições: políticas, económicas…”.

O especialista em Relações internacionais referiu que “as sanções têm capacidade para destruir o próprio sistema. São históricas nesse sentido, porque podem fazer alterações sistémicas, estruturais”.

“Estamos a mexer com questões estruturais do capitalismo, do modo de produção. Os dirigentes ocidentais estão a tentar desconectar a Rússia – que é a 12ª economia do mundo - do capitalismo. Essa desconexão, e as respostas a essa desconexão, não deixam o sistema imune. Por outro lado, os esforços que a Rússia tem feito, e está a fazer, para encontrar formas alternativas de conexão, de pagamentos, de reorientar as suas exportações de energia, tudo isto, em conjunto, pode dar origem a transformações fundamentais, profundas do sistema económico, e também do sistema político. Esta desconexão pode ser mais profunda do que durante a Guerra Fria”, clarificou.

Marcos Farias Ferreira fez ainda referência a “reações empoladas”, como a do antigo presidente e primeiro ministro da Rússia, Medvedev, que afirmou que a Rússia não precisa do Ocidente, pode construir um sistema alternativo de relações e questionou inclusive: “Se a Rússia não pode estar no mundo, para é que precisamos do mundo?”.

“Este conflito não tem solução militar”

O docente considera que “este conflito não tem solução militar” e que a via pacifista é a solução.

E, nesse sentido, afirmou-se preocupado com “narrativas públicas muito preocupantes que partem para a análise do problema como se ele fosse técnico”. “Recusamo-nos a compreender a situação e remetemos a questão para o domínio do irracional, do mítico e da doença”, o que “acaba por infetar e afetar a própria possibilidade da negociação”, lamentou.

Marcos Farias Ferreira teceu críticas à “opção dos pactos militares”, que criam a “ilusão de segurança” ao mesmo tempo que “distribuem insegurança”.

Sobre os interesses dos Estados Unidos, o especialista em Direito Internacional confirmou que está em causa a expansão da NATO, e assinalou que os EUA construiram a sua noção de poder através de ideias clássicas do século XX, de que o poder está na Eurásia.

Nesse sentido, os dirigentes norte-americanos querem “protagonizar uma aliança militar que lhes permita ter uma palavra a dizer sobre o que se passa na Eurásia”.

Marcos Farias Ferreira pôs ainda em cima da mesa outra debate que pensa ser crucial, e que que concerne à política europeia de segurança e defesa. Condenando o “furor militarista” que “pode gerar confluências estranhas”, o docente enfatizou que é preciso fazer escolhas “de forma muito explícita”.

Uma das suas “preocupações imediatas” diz respeito ao envio de armas para a Ucrânia, que “não altera a correlação de forças no terreno, pode prejudicar a solução atual e alimentar novas inseguranças e conflitos nas próximas décadas.