México

Afundar o México: a estratégia dos EUA e da direita mexicana

28 de agosto 2024 - 16:59

O presidente mexicano Obrador suspendeu relações com o embaixador dos EUA no país, após as suas críticas à proposta de reforma do sistema judicial. Sem força suficiente nas urnas, a direita socorre-se da desestabilização económica do México a partir de Washington.

por

Álvaro Verzi Rangel

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Embaixador Ken Salazar em julho, ladeado pelo próximo ministro dos Negócios Estrangeiros Juan Ramon de la Fuente (à esq. na foto) e pelo atual ministro da Agricultura Victor Manuel Villalobos (à dir. na foto).
Embaixador Ken Salazar em julho, ladeado pelo próximo ministro dos Negócios Estrangeiros Juan Ramon de la Fuente (à esq. na foto) e pelo atual ministro da Agricultura Victor Manuel Villalobos (à dir. na foto). Foto Embaixada dos EUA no México.

O presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador (AMLO) afirmou que as relações com a embaixada dos Estados Unidos no México estão suspensas na sequência das declarações do chefe dessa missão diplomática, Ken Salazar, relativamente à reforma do sistema judicial que está a ser tratada no Congresso mexicano.

Salazar assegurou que a iniciativa representa um risco para o funcionamento da democracia mexicana, apelou aos legisladores para que a modifiquem e ameaçou mesmo com contestação e ação por parte do seu país se for aprovada na sua forma atual. AMLO qualificou a declaração como uma atitude de ingerência grosseira, infeliz e imprudente, e considerou que não se tratava da opinião pessoal do embaixador, mas da posição do Departamento de Estado.

A ingerência nas palavras de Salazar levaram López Obrador a suspender as relações com esta missão diplomática e com a do Canadá: “Como podemos permitir que ele diga que o que estamos a fazer é errado?" Dois dias depois, a embaixada declarou que os EUA apoiam o conceito de reforma judicial no México, “mas estamos muito preocupados com o facto de a eleição popular de juízes não resolva o problema da corrupção judicial nem reforce o poder judicial do governo mexicano”.

Simultaneamente, o Wall Street Journal acusou o Presidente Andrés Manuel López Obrador (AMLO) de “flirtar com a ditadura” em relação à reforma do sistema judicial, num artigo em que expõe “três mentiras”, nomeadamente que a reforma do sistema judicial permitirá ao Presidente impor juízes, magistrados e ministros, que o Instituto Nacional Eleitoral perderá a sua independência e que AMLO pretende “aniquilar a divisão de poderes”.

O artigo do WSJ falava da necessidade de um “diálogo” entre López Obrador e o embaixador dos EUA no México. A resposta do presidente foi imediata: não há possibilidade de diálogo sobre a questão da reforma do sistema judicial.

“Deve haver sempre diálogo, a questão é que as questões relacionadas com o México, bem, dizem respeito a nós. Nenhum estrangeiro, nenhum governo estrangeiro, pode vir tratar de assuntos que só dizem respeito aos mexicanos, é um princípio básico de independência, de soberania”, disse López Obrador.

A ofensiva contra o governo mexicano inclui comentários de jornalistas mexicanos de direita, como Carlos Loret de Mola, que salientou, no seu programa noticioso no Latinus, que a grande preocupação internacional é que a reforma judicial de AMLO e a nova presidente Claudia Sheinbaum possam gerar uma crise económica.

A jornalista norte-americana Mary Anastasia O'Grady escreve “The Americas”, uma coluna semanal sobre política, economia e negócios na América Latina e no Canadá, publicada todas as segundas-feiras no Journal.

“Primeiro foram os bancos internacionais, depois o governo dos Estados Unidos, pela voz do embaixador Ken Salazar, e este fim de semana foram três dos jornais mais influentes do mundo, três jornais que os grandes investidores leem e que estão a levantar a voz sobre o desastre que está a ser o fim do mandato de seis anos de López Obrador e as perspetivas negras para o início do mandato de Claudia Sheinbaum”, diz Loret de Mola.

Os Estados Unidos alertaram principalmente para o facto de a reforma judicial “dinamitar” o Estado de direito e afetar a economia. Agora, alertam para os riscos da continuação da política energética de López Obrador, que supostamente aposta na energia suja, dificultando a concorrência e o investimento, e pretende continuar a atribuir dinheiro à empresa petrolífera estatal Pemex.

Mas o que é claro é que a oposição de direita, incapaz de mudar a interpretação constitucional a seu favor, procura desestabilizar a economia mexicana para afetar o governo.

Loret de Mola, um dos replicadores mexicanos da campanha, descreve a Pemex como um “barril sem fundo” e diz que é a empresa petrolífera mais endividada do mundo. A campanha tende a criar uma matriz de opinião a favor da privatização do petróleo mexicano, para a qual as transnacionais norte-americanas estão a trabalhar há anos.

A estratégia da oposição - ajudada pelos meios de comunicação social norte-americanos - inclui ações irresponsáveis que ameaçam a estabilidade do país, especulando contra o peso mexicano para enfraquecer a economia, na busca de um clima instável que lhes permita aproximar-se do poder, embora constitucionalmente tenham de esperar mais seis anos.

Sabendo que a oposição continuará a usar o seu poder financeiro para desestabilizar o governo, uma vez que não tem poder nas urnas, e para além do que o atual presidente possa dizer ou fazer, cabe também à sua sucessora, Claudia Sheinbaum, redobrar os esforços para tranquilizar os investidores de que as reformas não conduzirão a uma ditadura.

Da mesma forma, López Obrador rejeitou as ameaças de que esta reforma prejudicaria o T-MEC [tratado comercial entre México, EUA e Canadá] “e mesmo que fosse esse o caso: o México é um país livre, independente e soberano, que está acima de qualquer tratado”, afirmou. López Obrador salientou que não há raiva ou confronto com o embaixador Ken Salazar - que na semana passada expressou a sua clara rejeição da referida reforma e disse estar aberto ao diálogo sobre a questão - mas observou que Salazar não pode dar a sua opinião ou pedir uma discussão sobre o assunto.

“Não, não é um conflito, é apenas para esclarecer que somos países independentes e soberanos, muito respeitosos da nossa relação de amizade, de cooperação, mas não é possível que um embaixador estrangeiro dê a sua opinião sobre o que está certo ou errado no nosso país, essa não é a função de um embaixador (...) ele é muito boa pessoa, mas trata-se de uma política e nem sempre vamos estar de acordo”, acrescentou o Presidente.

“É como se eu fosse a Washington para debater a venda de armas para fazer a guerra no mundo, porque é que me devo meter? (...) Este assunto é dos mexicanos e está a ser resolvido nas instituições do nosso país”, disse.

AMLO afirmou que a utilização do T-MEC como uma espécie de ameaça contra a reforma do sistema judicial é uma forma de tentar inverter a situação. “O tratado não é para cedermos a nossa soberania; o tratado é comercial, é para termos uma relação económico-comercial muito boa que seja conveniente para ambas as nações, mas não é para o México se tornar um apêndice, uma colónia, um estado associado”, sublinhou.

Salientou ainda que mesmo que houvesse sanções contra o México, “nós, mexicanos, temos de colocar a nossa soberania em primeiro lugar, por outras palavras, não nos podemos submeter. É a história do México, é o sacrifício de muita gente para conseguir uma pátria livre, independente e soberana, que está acima de qualquer tratado”.

O Presidente defendeu que o T-MEC é do interesse das três nações da América do Norte (EUA, Canadá e México) para se tornar a zona económica e comercial mais forte do mundo, e que o resto do continente também deve ser incluído. Citando o “filósofo” Cantinflas (um famoso ator cómico mexicano), reafirmou que esta é a chave de tudo: aprendermos a respeitar-nos uns aos outros. Precisamos uns dos outros para crescer.

Claudia Sheinbaum e López Obrador, a futura e o atua chefe de Estado do México
Claudia Sheinbaum e López Obrador, a futura e o atual chefe de Estado do México. Foto publicada no perfil de AMLO no Facebook.

Afundar o barco

Enquanto Donald Trump ameaça mergulhar o México na recessão com tarifas aduaneiras devido à imigração ilegal, perante o fracasso da oposição em conseguir que os conselheiros do Instituto Nacional Eleitoral retirem a maioria qualificada ao Morena (o partido do governo, o grande vencedor das últimas eleições) pela força, ou seja, mudando a interpretação constitucional ao gosto da oposição, a sua próxima estratégia é afundar o barco todo. O país inteiro, observou a colunista Viri Ríos no Milenio.

A estratégia, delineada na sua versão mais radical pela colunista do Wall Street Journal, é “shortar o México”, ou seja, usar uma estratégia financeira agressiva para especular contra o peso que costuma levar economias inteiras à falência. O'Grady sugeriu afundar a economia mexicana porque, como Ciro Murayama comentou na UnoTV, o Morena obteve uma supermaioria no Congresso “através de fraude”.

Viri Ríos argumenta que esta é a prova de que a escalada retórica da oposição já atingiu pontos perigosos: “as suas mentiras já não são meras hipérboles repetidas nos seus meios de comunicação social e no Youtube. Agora, estão a ameaçar a estabilidade de todo o país. A sua irresponsabilidade é enorme”.

Explica que a irritação da oposição com a sua derrota é tão grande que preferem “atirar o país borda fora, infligir um sofrimento tremendo aos mexicanos e empobrecer-nos, em vez de permitir que o Morena continue a ganhar eleições”. Isto é grave e o Morena deve reagir de forma muito inteligente”.

A tarefa de Claudia Sheinbaum, que iniciará a sua presidência em 1 de outubro, é redobrar a sua campanha para realizar reuniões individuais com investidores de alto nível, a fim de comunicar os cenários que se seguem às reformas e o conteúdo explícito das mesmas.

É preciso deixar claro que o resultado não será uma ditadura, como vaticinam os arautos da catástrofe, diz a colunista. Quem se interessa pela estabilidade do país, incluindo muitos empresários, deve deixar de repetir, sem uma análise mais aprofundada, o que dizem os opositores catastrofistas, que não têm interesse na estabilidade porque não têm poder nas urnas.  Pelo contrário, a instabilidade ajudá-los-ia a ganhar as eleições. O seu único poder é o dinheiro e esse poder é suficiente para afundar o barco, alerta Viri Ríos.

Álvaro Verzi Rangel é sociólogo e analista internacional, codiretor do Observatório da Comunicação e da Democracia e analista sénior do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica. Artigo publicado no site do CLAE. Traduzido por luís Branco para o Esquerda.net.