África: No setor digital, exploração sem moderação

06 de agosto 2023 - 15:15

Embora desprezados pelos grandes grupos das redes sociais, os moderadores desempenham um papel vital contra o ódio online. Em alguns países africanos estes trabalhadores começam a organizar-se e já criaram mesmo o primeiro sindicato africano de moderadores de conteúdo. Por Paul Martial.

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As multinacionais não se contentam apenas em pilhar os recursos naturais de África, essenciais para o fabrico de material informático, também exploram os trabalhadores do continente em condições extremas.
O advento da inteligência artificial (IA) exige a identificação a jusante de uma enorme massa de dados para que os algoritmos possam melhorar a sua eficácia. Para realizar estas tarefas, cerca de 90% das empresas de alta tecnologia recorrem à externalização.

Identificação dos conteúdos

No espaço francófono, as economias de custos são avaliadas em mais de 30% para as empresas localizadas em Marrocos, Tunísia ou Ilhas Maurícias e 50% em Madagascar. Este último país possui cerca de 250 agências de BPO (Business Process Outsourcing), que no jargão da moda significa empresas de sub-contratação.

As condições de trabalho aí são deploráveis. A rádio francesa RFI deu conta de depoimentos de trabalhadores: “Os formadores passam atrás de nós. Se acharem que estás a demorar muito para processar uma imagem simples, emitem um aviso. Se acontecer uma segunda vez, mandam-te diretamente embora. Quando não terminamos, por exemplo, as 200 tarefas que tínhamos que fazer durante o dia temos de continuar. E isso não é contado como horas extras.”

Quanto aos salários, começam por volta dos 90 euros por mês e podem ir até aos 500 euros para os trabalhadores altamente qualificados. Além desse fastidioso trabalho de identificação de dados, outros BPOs oferecem serviços de moderação. Eles são usados ​​por grandes empresas de redes sociais, como o Facebook, o TikTok, o Instagram, o Twitter e outros.

Perigo para a saúde mental

A Sama é uma destas empresas de terceirização com sede no Quénia. Os seus trabalhadores passam dias inteiros a lidar com conteúdo ultra-violento, assassinato, tortura, violência sexual contra mulheres e crianças. Eles marcam-nos, permitindo alimentar os algoritmos dos filtros das redes sociais ou da inteligência artificial. As consequências para a sua saúde mental são graves e equivalentes a perturbações devidas ao stress pós-traumático. A empresa queniana em nenhum momento montou estruturas de apoio psicológico de apoio aos trabalhadores.

Pior ainda, para fazer as moderações nas línguas locais, a Sama recrutou jovens licenciados, muitas vezes pobres, em vários países da África Oriental e Austral. Trouxe-os para o Quénia sem os avisar sobre a real natureza do cargo. A empresa dizia apenas que eram trabalhos administrativos, omitindo a questão do confronto quotidiano com o ódio online que teriam de sofrer. Uma vez no Quénia, estes jovens trabalhadores ficaram presos numa armadilha.

Resistir e organizar-se

Uma primeira queixa, em maio de 2022, contra a Meta, sociedade-mãe do Facebook, e a sua subcontratada Sama, foi apresentada por um ex-funcionário, Daniel Motaung. Esta dizia respeito às condições de trabalho, questões de remuneração e falta de apoio psicológico. Outras queixas se seguiram quando a Sama encerrou a sua atividade de moderação e despediu os trabalhadores. A justiça queniana suspendeu os despedimentos até ao julgamento.

Ao mesmo tempo, 150 trabalhadores criaram o primeiro sindicato africano de moderadores de conteúdo, apesar das políticas de intimidação dos empregadores. Outros trabalhadores, como os da Majorel, que assumiu as atividades de moderação do TikTok, anunciaram a sua decisão de aderir ao sindicato.

Embora desprezados pelos grandes grupos das redes sociais, os moderadores desempenham um papel vital contra o ódio online. Falhas podem ter consequências dramáticas. Outro processo está a decorrer na Etiópia contra a Meta. Aquando da guerra no Tigray, durante vários dias circularam no Facebook apelos de assassinato contra um professor universitário que vivia na capital Addis Abeba. Apesar das suas abordagens à rede social, as mensagens continuaram a circular. Ele caiu sob as balas dos seus assassinos.


Paul Martial é editor do Afriques en Lutte.

Texto publicado originalmente no Afriques en Lutte. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.