Abusos sexuais na Igreja espanhola: relatório indica número chocante de vítimas

01 de novembro 2023 - 10:10

O documento da Provedoria de Justiça indica que 1,13% da população poderia ter sido vítima de abuso em contexto religioso quando era menor. A Conferência Episcopal nega o número e diz que focar nas vítimas da Igreja seria fazer outras vítimas de abuso “vítimas de segunda”.

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Ángel Gabilondo na entrega do relatório sobre abusos sexuais de menores na Igreja Católica
Ángel Gabilondo na entrega do relatório sobre abusos sexuais de menores na Igreja Católica. Foto da Provedoria.

Um relatório sobre os abusos sexuais perpetrados por elementos da Igreja Católica em Espanha contém um inquérito que indica que 1,13% do total da população foi vítima de abuso em contexto religioso quando era menor, o que corresponderia a 450.000 vítimas e que 0,6%, 240.000 pessoas, foram vítimas de um sacerdote.

O documento de 777 páginas, intitulado “Uma resposta necessária”, foi apresentado no Parlamento espanhol esta sexta-feira por Ángel Gabilondo, que tem o cargo de Defensor del Pueblo, correspondente a um Provedor de Justiça. Nele se identificam “dinâmicas de ocultação e encobrimento” em muitas instituições católicas e propõe-se a criação de um “órgão misto entre Igreja e Estado” para analisar os casos e com um fundo público para pagar indemnizações às vítimas que inclua contribuições “na totalidade ou em parte substancial” da Igreja, como sucedeu na Bélgica, já que muitos destes crimes terão prescrito.

A investigação independente aos casos de abuso sexual de menores na Igreja Católica tinha sido encomendada pelo parlamento em março do ano passado com voto favorável de todos os partidos exceto o Vox. Da decisão fazia parte a criação de uma comissão de peritos, de um fórum de diálogo com as associações de vítimas e uma unidade de cuidado às vítimas que, nos primeiros meses de atividade, já atendeu 201 pessoas.

A parte mais chocante do estudo tem origem numa sondagem da empresa GAD3 com uma amostra de 8.013 pessoas. É dela que se retiram os números totais de pessoas que teriam sido vítimas de abusos sexuais no contexto religioso da Igreja Católica. Gabilondo faz questão de vincar que são “dados muito significativos” mas que “não é necessário extrapolá-los e por isso não o fizemos no relatório”.

O provedor não deixou de notar que a hierarquia da Igreja Católica não quis contribuir para o estudo e de criticar uma “certa vontade de ocultação” que tem predominado “com a conseguinte desconsideração das vítimas”, criticando “condutas como a transferência de abusadores para outras paróquias ou centros escolares” como “exemplo de más práticas”.

Conferência Episcopal diz que focar nas vítimas da Igreja é discriminar a maioria das vítimas de abusos

A resposta da Igreja Católica chegou esta segunda-feira com a Conferência Episcopal a dizer que os números “não correspondem à verdade” e que “pôr o foco na reparação das vítimas da Igreja discriminaria a maioria” das vítimas de abusos, que reclamam não serem vítimas de elementos religiosos, “o que as converteria em vítimas de segunda”.

De acordo com o El Diário a reunião durou mais de cinco horas e ficou marcada por uma “grande divisão interna”. A nota final regista tanto que “os abusos cometidos na Igreja doem” e que se perde “perdão” quanto que “surpreende a extrapolação que se faz dos dados obtidos num inquérito adjunto ao relatório”.

A instituição garante considerar “valiosas” as recomendações que são propostas sem se comprometer diretamente com a questão das indemnizações. Para além disso, escreve que “deixar de ter em conta a magnitude do problema e a sua dimensão maioritamente extra-Igreja, supõe não enfrentar as causas do problema e perpetuá-lo no tempo”. É neste contexto que escreve que “os abusos sexuais a menores são um problema social a que todas as instituições públicas e privadas têm de dar resposta”.