25 de Abril de 1974 e hoje: avanços, impasses e ameaças de retrocesso

28 de abril 2024 - 18:59
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Pairam no horizonte ameaças de retrocesso, pelo que, comemorando o “25 de Abril sempre”, importa reinventar, a médio-longo prazo, um novo 25 de Abril, mas esse ecossocialista! Por Manuel Carlos Silva.

Cartaz do 25 de Abril.
Foto de Ana Mendes.

Ao comemorar os 50 anos do 25 de Abril de 1974 importa sublinhar que o fim do longo pesadelo de 48 anos de fascismo e a conquista da democracia e das liberdades (individuais, associativas, sindicais e partidárias) deveram-se à conjugação de vários fatores – lutas das classes trabalhadoras e movimentos estudantis no país, combates dos movimentos de libertação em África e Timor contra o colonialismo e a decisiva ação do Movimento das Forças Armadas (MFA). Não obstante haver classes-apoio do regime ditatorial, este interessava basicamente ao latifúndio, à burguesia colonial e compradore, rentista e financeira, sendo vítimas principais os povos colonizados, trabalhadores/as rurais e urbanos, pequenos camponeses/as, soldados, migrantes e refugiados/as, antifascistas sob prisão, tortura, desterro, bastantes dos quais assassinados/as.

Em termos de ratio entre capital e trabalho, enquanto em 1970 o ratio era de 58% vs 42%, no pós-25 de Abril-1974 esse ratio inverteu-se, embora desde 1980 voltasse a ser favorável ao capital, cifrando-se hoje em 63% para o capital e 37% para o trabalho. Com o 25 de Abril foram conseguidas, graças aos movimentos sindicais e outros, algumas conquistas sociais – salário mínimo e outras condições de vida. Porém, Portugal, sendo um país com assimetrias regionais e enorme desequilíbrio entre litoral e interior, conhece desemprego e precariedade laboral estrutural, baixos salários (57% da média da UE) com produtividade (80% da média da UE); é um dos países mais desiguais na UE (10% mais ricos detêm 27% do PIB, 50 famílias detêm 16,5% do PIB, ou seja, 40.000 milhões de euros, metade dos quais possuídos por 10 famílias).

Quanto à segurança social, enquanto antes do 25 de Abril os mais pobres passavam fome e dependiam de esmolas de ‘patronos’/caciques civis ou eclesiásticos, no pós 25 de Abril os sistemas de segurança social (subsídio de desemprego, doença, RSI, pensões) permitiriam um mínimo de segurança, embora com prestações baixas e abaixo da média europeia, havendo ainda cerca de 10.000 pessoas sem abrigo e 300.000 pessoas em habitação precária, 20% de famílias em pobreza relativa e até absoluta, entre os quais muitos imigrantes, ciganos/as, idosos/as abandonados/as e crianças desprotegidas.

Em termos de saúde e bem-estar, os serviços de saúde que, antes do 25 de Abril, além de não universais e deficitários, estavam entregues a misericórdias e instituições eclesiásticas, só com o 25 de Abril se institucionalizou o SNS (Lei 56/79 de 15/9); entre 1970 e 2023 descida de mortalidade infantil de 55%o para 2,6%o e aumento da esperança de vida de 67 para 81 anos. Apesar dos avanços, os serviços de saúde, concentrados em grandes e médias cidades e menos presentes no interior, estão a ser objeto de negócio por privados, mais caucionados ainda pelo atual governo do PSD/CDS.

Relativamente à educação, houve avanços consideráveis entre 1960 e 2023: descida de analfabetismo de 33,1% para 3,7%; aumento substancial de estabelecimentos de rede pre-escolar (159 para 5.774) e escolarização no ensino básico e secundário; diminuição do abandono escolar (50% em 1992 para 8%); acesso mais alargado à formação superior que passou de 0,8% em 1970 para 23,2%. Além de aumento de doutoramentos, constata-se, segundo a CIG, progressiva feminização em cursos superiores (59% vs 41%); mestrados integrados (54,1% vs 45,9%), 2.o ciclo (61% vs 39%), doutoramentos (52,5% vs 47,5%); mas despesa com investigação é apenas de 1,7% do PIB, aquém da média europeia em 2,3%.

Por último, em relação às mulheres, enquanto antes do 25 de Abril a mulher não tinha os mesmos direitos jurídico-políticos que o homem, era dependente do marido como ‘chefe de família’, não podia exercer certas atividades (vg. magistratura), dispor dos seus bens próprios nem ausentar-se sem autorização do marido, o direito constitucional e o direito de família pós-1974 tratam homem e mulher em paridade. Não obstante os avanços graças aos movimentos feministas, persistem desigualdades salariais no setor privado (-16%) e no trabalho doméstico (2/3 de horas do total), situações de maus tratos e violência contra mulheres, desiguais oportunidades na promoção nas carreiras e sobretudo nas chefias organizacionais.

Com a provável interferência na política (lawfare) por parte do Ministério Público e eventuais mentores – a confirmar – com o parágrafo de suspeição sobre o 1º Ministro, a demissão deste e nova correlação de forças na Assembleia da República decorrente das eleições de 10 de Março, mais favorável à direita e extremadireita, pairam no horizonte ameaças de retrocesso, pelo que, comemorando o “25 de Abril sempre”, importa reinventar, a médio-longo prazo, um novo 25 de Abril, mas esse ecossocialista!

*dados obtidos do INE, Pordata e CIG=Comissão para Cidadania e Igualdade de Género; 

Manuel Carlos Silva - sociólogo, professor universitário.

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