11-M: As lágrimas de crocodilo dos jornalistas-surfistas da onda oficial

11 de março 2024 - 15:57

Os atentados de Madrid fazem hoje 20 anos. Em 2022, um em cada cinco espanhóis ainda pensava que tinha sido a ETA. Uma teoria da conspiração encorajada por certos partidos e meios de comunicação social. Por Oskar Bañuelos.

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Manifestação em frente à sede do PP contra a mentira do 11M
Manifestação em frente à sede do PP em Madrid contra a mentira sobre os atentados de 11 de março de 2004. Foto de Dani Gago/El Salto

Admito-o: gosto de títulos chamativos. Abruptos. Quase disruptivos. Aprendi no El Mundo com os melhores. Era um mundo diferente, embora já soubesse o que fazer. Aprendi a teoria no início dos anos 80, na UPV de Leioa, com velhos professores que nos alertavam para as versões oficiais e nos pediam para verificar as fontes. Não se deixem enganar! E a prática no Egin. Sim, esse jornal "maldito" que, apesar do que possam dizer, foi uma grande escola para os jornalistas e sobre o qual Aznar disse um dia: "Ai não me atrevo a fechá-lo?" E fechou-o. A teoria do tudo é ETA foi aperfeiçoada por Garzón (Baltasar) e chegámos a esse ponto. Para a rua. O último que feche a porta. A solidariedade, escassa, mas autêntica. Os não solidários, uma legião. Nada de novo. Um colega de outro órgão de comunicação social disse-me: "Talvez não sejas tu, mas tenho a certeza que alguém deve ter feito alguma coisa". Lembra-lhe alguma coisa? Ainda me faz lembrar. Mas isso é outra história. Ou a mesma. Afinal de contas, estamos a falar de bons e maus jornalistas.

Escolhi este título, mas também considerei outro bastante aceitável: #2011M. O dia em que o jornalismo espanhol foi pelo cano. E outro que descartei porque, sim, poderia ser (ainda mais) ofensivo para os pais jornalistas da Transição: #2011M. "Como queira, Sr. Presidente. Foi a ETA". E afinal não foi a ETA que assassinou quase duzentas pessoas a 11 de março de 2004, nos atentados aos comboios suburbanos de Madrid, em vésperas das eleições gerais, que atingiram brutalmente a sociedade espanhola. Faz hoje vinte anos. Em 2022, um em cada cinco espanhóis ainda pensava que tinha sido a ETA. Uma teoria da conspiração encorajada por certos partidos e pelos meios de comunicação social.

O revisionismo histórico sempre teve má fama, mas se esse revisionismo for corporativo e partilhado e oferecer uma saída para a má consciência, então também não vamos ter uma epiderme tão fina. Ironia. Além disso, quem estiver isento de culpa que atire a primeira pedra. É assim que as coisas são. Quando Aznar convocou meia dúzia de diretores de meios de comunicação social, ao meio-dia do dia 11 de março, todos obedeceram. Diz-se que, à exceção do diretor de La Voz de Galicia, todos disseram ámen. Nesse momento, o grande jornalismo espanhol (de esquerda e de direita), que se gabava de ter sido a pedra angular da Transição, foi por água abaixo. Quando se veste a camisola do poder... Sabe-se como começa, mas não como acaba. Daquele pó, esta lama. Nesse dia perdeu-se o mais sagrado que o jornalismo independente tem (não reconheço outro): a busca da verdade. Para alguns pode parecer um conceito antiquado, mas aqui resgato uma frase de Vicenç Navarro: "A lei da gravidade é muito antiga, mas não é antiquada".

A legião de soldados comandada por centuriões que se calou, vinte anos depois, pega agora no pincel grosso e começa a branquear. Um mea culpa a sotto voce; uma demão de tinta e para vender livros e difundir documentários. Tudo centrado na mentira de Aznar e do PP, mas sem esquecer a sua contribuição para a difusão dessa mentira durante as primeiras horas. Centrando-se no outro, ignorando a sua responsabilidade. Fazendo perguntas sobre o acessório e respondendo com o irrelevante. Historietas - não serei eu a renegar uma boa historieta - sobre onde estava fulano... e fulano disse não sei o quê... Tudo em grupo e partilhado. São obrigados a este revisionismo. Sem culpa, não há penitência.

Lembro-me perfeitamente daquele dia. Foi angustiante. Recusei-me a admitir que a ETA tivesse cometido tal selvajaria, mas todos os meios de comunicação social diziam que era a ETA. Arnaldo Otegi, que tinha marcado uma entrevista com Mariano Ferrer no El Kiosko de la Rosi, de Herri Irratia, em Donostia, foi o único que defendeu que os atentados de Madrid estavam relacionados com a participação de Espanha na guerra do Iraque e que os autores eram grupos jihadistas. Mesmo assim, todos insistiam que se tratava da ETA. Telefonei a uma pessoa que estava envolvida na luta contra o terrorismo e a sua impressão foi a mesma que a do líder da esquerda abertzale: não foi a ETA. Outros jornalistas bascos, que certamente tinham contactos semelhantes ou melhores, insistiram publicamente em dar crédito absoluto à versão oficial. Todos eles estavam a surfar a onda boa, embora alguns já pressentissem que era a onda má.

O lehendakari Juan José Ibarretxe, um bom ponto de referência para muitas outras coisas, apressou-se (utilizo este verbo para sublinhar a urgência) a aparecer e, na sua declaração pública, culpou a ETA pelo massacre e classificou os seus militantes como vermes. Outros partidos juntaram-se a ele. Ninguém quis abrir a possibilidade de haver outros autores. Todos cerraram fileiras e contribuíram para a difusão da mentira que poderia ter provocado um verdadeiro drama na sociedade basca. A tensão que se viveu após o assassinato de Miguel Ángel Blanco passou-me muitas vezes pela cabeça.

Às 13 horas, Otegi compareceu numa conferência de imprensa para dissociar a organização armada basca dos atentados. Foi uma reviravolta de 180 graus e os cidadãos bascos, que tinham estado mergulhados na incerteza durante seis intermináveis horas, começaram a respirar de alívio. No momento em que uma nova linha de investigação começava a abrir-se seriamente, foi nessa altura que Aznar fez a sua vergonhosa ronda por meia dúzia de diretores de meios de comunicação espanhóis para insistir na versão de responsabilidade da ETA. E o grande jornalismo espanhol disse ámen. Ámen à mentira.


Oskar Bañuelos é jornalista, argumentista, realizador e produtor. Artigo pubkicado em El Salto. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.

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