10 razões para a relutância de Washington em cortar ajuda ao Egito

23 de agosto 2013 - 1:04

As centenas e mortes e a agitação contínua fizeram crescer a pressão sobre a administração Obama para que corte a ajuda militar ao Egito. Essa é a única coisa legal e ética a ser feita. Mas aqui estão algumas razões que dificultam Washington a tomar essa decisão. Artigo de Juan Cole.

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O presidente norte-americano faz as contas ao que a indústria militar tem a perder com o fim da "ajuda" ao Egito.

Mais 80 pessoas morreram no Egito na última sexta-feira (dia 16) durante as manifestações de grupos ligados à Irmandade Muçulmana contra o golpe militar que já custou centenas de vidas. Parte da violência foi causada pela truculência da polícia, outra parte foi causada por um ataque armado da Irmandade contra um posto policial. Esta agitação contínua fez crescer a pressão sobre a administração Obama para que corte a ajuda militar ao Egito. É a única coisa legal e ética a fazer, mas aqui ficam algumas razões que dificultam Washington a tomar essa decisão.



1. Os EUA não dão grande ajuda ao povo do Egito. Apenas 250 milhões de dólares por ano, de um total de 1,55 mil milhões, são para civis. A ajuda serve na verdade para consolidar um relacionamento entre os oficiais do exército egípcio e o Pentágono.



2. A ajuda militar de 1,3 mil milhões de dólares ao ano é dada em boa parte em espécie, uma doação de armamentos. Ela deve ser gasta com armas fabricadas nos EUA. São fabricantes de armas como a Lockheed-Martin e a General Dynamics (e todos os seus funcionários) que sofreriam as consequências de um corte na ajuda ao Egito.



3. O Congresso deu aos generais do Egito um cartão de crédito para a compra de armamento, e eles o estouraram em 3 mil milhões de dólares na compra de F-16s e tanques M1A1. Se os EUA cancelarem a ajuda, ainda terão de pagar essa conta.



4. Até mesmo a ajuda dada aos civis deve ser quase toda gasta com bens e materiais norte-americanos. Ela é na verdade um crédito corporativo para os EUA.



5. A ajuda foi dada como um suborno para que a elite egípcia fosse gentil com Israel. Dado o caos no Sinai e a instabilidade do Egito, o Congresso está mais preocupado com essa questão do que em qualquer um dos últimos 40 anos.



6. Os israelitas pediram aos EUA que não suspendessem a ajuda.



7. O Congresso até estruturou a ajuda económica de forma que parte dela auxiliasse iniciativas conjuntas entre empresas de Israel e Egito no próprio Egito. Então, parte dessa ajuda vai de facto para Israel.



8. Isso geralmente não é reconhecido, mas o exército egípcio oferece um guarda-chuva de segurança à Arábia Saudita, ao Kuwait e aos Emirados Árabes Unidos contra o Irão (e às vezes contra o Iraque). Os estados petrolíferos do Golfo possuem poderosos lóbis de Washington e querem que o Egito continue a ser um aliado.



9. Muitos no Congresso dos EUA não discordam das ações dos generais egípcios para derrubar o Partido da Liberdade e da Justiça (apoiado pela Irmandade Muçulmana), pois concordam que ele é uma organização terrorista.



10. Por trás das cortinas, os serviços de inteligência militar egípcia ajudaram os EUA a perseguir extremistas muçulmanos. Durante a era Mubarak, havia locais secretos onde torturavam, ao serviço de Washington, pessoas suspeitas de pertencerem à Al-Qaeda. O aparelho de estado dos EUA gostaria de reconstruir esses laços com o Egito.

 


* Juan Cole é professor de história na Universidade de Michigan e especialista em Médio Oriente. Artigo publicado a 17/8/2013 no seu blogue Informed Comment

Tradução de Roberto Brilhante para o portal Carta Maior