Militares egípcios preparam dissolução da Irmandade Muçulmana

19 de agosto 2013 - 15:26

O governo provisório do Egito pretende ilegalizar e dissolver a Irmandade Muçulmana declarando que a proposta de “reconciliação é apenas para aqueles cujas mãos não estejam manchadas de sangue”. Em 21 de Março passado, a Irmandade registou-se como entidade de âmbito social e caritativo, precavendo-se contra as ameaças de ilegalização então já latentes nas forças armadas.

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A equipa de personalidades políticas colocadas no poder com o apoio dos militares e a compreensão dos Estados Unidos, NATO e União Europeia prepara-se assim para seguir o caminho das anteriores autoridades turcas, que ilegalizaram sucessivamente vários partidos islamitas não os impedindo, não entanto, de se instalarem no poder, como agora acontece através da autocracia de Erdogan.



“O governo está a estudar a ideia” da dissolução da irmandade Muçulmana, declarou Sharif Shauki, porta-voz do primeiro ministro interino, Hazem Beblaui. Posteriormente, o assessor estratégico da presidência interina, Mustafá Hegazy, declarou que agora o Egito “está unido frente a um inimigo comum”, o islamismo político, que “criou um eixo de terror instigando à violência”. Hegazy definiu as operações policiais e militares contra as manifestações islamitas como “uma guerra iniciada por extremistas que cometem actos de terrorismo diariamente”.



O assessor da presidência definiu os objectivos em relação à Irmandade Muçulmana “não como uma dissolução mas uma legalização segundo as leis egípcias”, não esclarecendo se a declaração se aplica às leis do regime de Mubarak para manter as forças do islamismo político na clandestinidade.



No período a seguir ao derrube de Mubarak, a Irmandade Muçulmana criou o seu braço político, o Partido Liberdade e Justiça, que venceu todas as eleições realizadas desde então. Em 21 de Março passado, a Irmandade registou-se como entidade de âmbito social e caritativo, precavendo-se contra as ameaças de ilegalização então já latentes nas forças armadas. O assessor presidencial afirmou que esta iniciativa não assegura que a Irmandade Muçulmana escape “à ilegalização”.



Depois dos continuados massacres policiais e militares, que provocaram já cerca de mil mortos sem que as manifestações se dissolvam, a União Europeia e os Estados Unidos defendem agora, em termos públicos, a restauração da democracia através de eleições.



O regime com apoio militar, por seu turno, prepara aparentemente as próximas eleições de maneira a excluir aquele que tem sido o maior partido, o que poderá suscitar uma situação muito semelhante a “um mubarakismo sem Mubarak”, como declarou um diplomata nos bastidores da reunião de ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia dedicada ao Egipto.



“A União Europeia terá de clarificar se ao defender o regresso à democracia através da realização de eleições significa democracia plena ou uma consulta amputada de forças que, em passado muito recente, receberam o apoio da maioria da população egípcia”, acrescentou.

Artigo publicado originalmente no portal do Bloco de Esquerda no Parlamento Europeu