“Vou continuar o meu trabalho”

16 de dezembro 2010 - 20:25

Julian Assange sai da cadeia depois de pagar 200 mil libras de fiança. Em breve declaração, agradece a todos os que o apoiaram, e evoca os que, noutros locais do mundo, também estão presos em condições muito piores, numa alusão ao jovem Bradley Manning, alegada origem das fugas, preso em condições desumanas nos EUA.

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Assange fala à saída do tribunal. Foto EPA/PETER MACDIARMID / POOL 2010 Getty Images

"Ele já não vai voltar para aquela prisão vitoriana. Não vai voltar para aquela cela que já foi ocupada por Oscar Wilde", comemorou o advogado Mark Stephens no início da tarde.

O juiz Duncan Ouseley rejeitou o apelo da Procuradoria de Estocolmo à decisão judicial tomada há dois dias e confirmou a libertação de Assange mediante o pagamento de uma fiança de 200 mil libras, uso de pulseira electrónica e confinamento a uma casa onde deverá permanecer em prisão domiciliária.

As autoridades suecas argumentaram que “havia um risco real de que Assange aproveitasse a fiança para desaparecer”, descrevendo o jornalista e activista como uma espécie de nómada sem ligações com o Reino Unido. Disseram que as personalidades que garantem a fiança poderiam “considerar o seu dinheiro como perdido por uma causa”.

Mas o juiz não concordou e confirmou a decisão de libertar Assange sob fiança.

O julgamento durou 90 minutos e despertou grande mobilização de jornalistas que desta vez não puderam “twitar” da sala do tribunal.

É bom voltar a sentir de novo o ar fresco”

Às 18 horas, depois de ter preenchido as formalidades e pago a fiança, Assange saiu finalmente em liberdade. Eis a sua declaração na íntegra:

“É bom voltar a sentir de novo o ar fresco de Londres. Em primeiro lugar, alguns agradecimentos. Às pessoas no mundo inteiro que tiveram confiança em mim, que apoiaram a minha equipa, enquanto não estive presente. Aos meus advogados que litigaram de forma corajosa e com sucesso, às pessoas que garantiram a fiança e todos os que deram dinheiro no meio de grandes dificuldades e adversidade. E aos membros da imprensa que não se deixaram todos enganar e quiseram olhar com mais profundidade para o seu trabalho. E acho que finalmente ao próprio sistema judicial britânico, onde, se a justiça nem sempre é vitoriosa, pelo menos ainda não está morta.”

“Durante o tempo em que estive preso em solitária nos confins de uma prisão vitoriana, tive tempo de reflectir nas condições em que estão a viver muitas pessoas noutros locais do mundo, também em solitária, também em prisão preventiva, em condições muito piores do que as que eu enfrentei. Estas pessoas merecem a nossa atenção e apoio.”

“E com isto eu espero continuar o meu trabalho e alegar inocência nesta questão e revelar, logo que as receba, o que ainda não aconteceu, as provas desta alegação. Obrigado.”

O juiz exigiu que mais cinco pessoas se responsabilizassem por Assange, além das duas que já o tinham feito. Trata-se de, segundo o Guardian, o ex-jornalista e escritor Phillip Knightley, o editor Felix Dennis, o biólogo molecular (e galardoado com o Nobel) John Sulston, o ex-ministro trabalhista e membro da administração da casa editorial Faber & Faber Lord Matthew Evans e a professora Patricia David. Como duas destas pessoas estão ausentes de Londres, o juiz aceitou que fossem substituídos pelo solicitador Geoff Shears e pela baronesa e ambientalista Tracy Worcester.

O juiz Duncan Ouseley, que presidiu à sessão, dissera antes da decisão que "a história da forma como os procuradores suecos têm lidado com este [caso] daria ao senhor Assange algumas bases para ser absolvido se houver julgamento", descreveu o Guardian.

Assange ainda terá de voltar a tribunal a 11 de Janeiro, enquanto é avaliado o pedido de extradição para a Suécia, onde as autoridades querem que ele colabore no inquérito sobre as queixas de violência sexual apresentadas contra ele por duas mulheres. Não foi ainda formalizada qualquer acusação.