Carta de Aminetu Haidar

04 de janeiro 2010 - 16:47
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Aminetu Haidar escreveu uma carta aberta de agradecimentoDe regresso ao Sara Ocidental, a defensora dos direitos humanos agradece ao movimento de solidariedade que a apoiou e apela à libertação dos presos políticos.

 

Finalmente acabou a batalha como nós esperávamos e atracou o navio da solidariedade no território da pátria saráui. Durante essa rota, Aminetu não foi mais do que uma pessoa a pedir ajuda, alguém a quem mãos traidoras que executavam ordens injustas lançaram para o meio do desconhecido, para um mar agitado de ingratidão, insídia e conspiração ou, simplesmente, onde os sentimentos humanos são reduzidos ao viveiro dos piores instintos animais. Uma mulher como eu, esgotada pela tortura das masmorras secretas, pelo sadismo dos carrascos e pela insolência de pessoas desagradecidas, não teve outro caminho para enfrentar a vingança cega que não fosse empurrar com as suas forças reunidas, ou melhor, com o que sobrava delas, para dizer não; não à continuidade da repressão dos inocentes, não à confabulação contra os defensores dos direitos humanos saráuis e seu julgamento por um tribunal militar; não a que se lhes endosse a acusação da “inteligência com o inimigo”, não a que sejam atirados para dentro das paredes duma cadeia e que sofram um letal isolamento do resto do mundo; não ao abandono dos presos políticos saráuis que morrem no silêncio nas cadeias marroquinas por graves doenças crónicas. Não e já basta! São mais de trinta anos de uma tragédia que converteu os sonhos do meu povo em pesadelos, pesadelos entre a diáspora e o paradeiro desconhecido de centenas de desaparecidos.



É verdade que as expressões do meu corpo seco acenam enfermidades, contudo quando o avião, comigo expulsa, aterrou no aeroporto de Lançarote, o meu amor à vida não me subjugou a escolher outro caminho que não fosse o caminho da dignidade e da permanência na postura e na fidelidade para com todos aqueles que conservam a recordação de momentos que nos juntaram sob a tortura, nas celas ou durante os julgamentos, momentos transbordantes de nobres significados humanos que inculcaram em nós os valores da generosidade, da cordialidade e da abnegação. E são esses mesmos momentos que, mal se comunicou a minha entrada em greve de fome indefinida no aeroporto e se formou a plataforma de solidariedade com Aminetu Haidar para apoiar a batalha do regresso, se quiseram repetir em imagens carregadas do que é novo, do que diz que não há fronteiras capazes de travar o imenso fluxo de emoções humanas sublimes e belas que atravessam países e continentes para dignificar, em Aminetu, o humano; para dignificar nela a maternidade e os princípios e valores dum povo chamado povo saráui. Quão poderosos foram esses momentos com os seus signos e sinais, com o seu calor de nostalgia e de ternura maternal, que aglutinaram as mais formosas imagens com que os dicionários do mundo definiram o significado da vida. Vós, que me recebestes no meu refúgio e me acolhestes na minha adversidade, destes-me as razões para a firmeza, fortalecestes em mim a esperança da constância e em nenhum momento senti que sofria sozinha. Abristes-me os horizontes dum novo olhar para o significado da humanidade, a humanidade que está de mal com toda a espécie de toldamento e de fanatismo e que não reconhece a relevância de nenhuma especificidade a não ser na sua capacidade de beneficiar o património colectivo dos seres humanos; pois apesar da diversidade de culturas e de religiões, estas sempre se poderão pôr ao serviço da tolerância, da harmonia e da convivência entre os povos. E quem olhe bem para o tamanho do alarme mundial que impusestes a um ritmo constante para conseguir o meu vitorioso retorno sem condições à minha pátria, o Sara Ocidental, descobre que o seu fruto plasmado numa resposta incomparável é a prova, uma vez mais, de que os povos que crêem na sublimação do ser humano e consagram os valores da justiça e dos direitos humanos são capazes de impor as suas alternativas.



Por ocasião do novo ano de 2010 e com as minhas melhores felicitações e os meus mais sinceros desejos de felicidade, boa saúde e tranquilidade, dirijo-me a todos vós um a um, a toda a equipa de solidários da Plataforma de Solidariedade, do Centro Robert Kennedy de Justiça e Direitos Humanos, das Associações de Amizade com o Povo Saráui na Europa, Estados Unidos, África, Austrália, América Latina e Ásia; às personalidades premiadas com o Prémio Nobel da Paz, aos advogados, médicos, artistas e cineastas; aos escritores, professores e alunos das universidades; às organizações internacionais como Amnistia Internacional, Human Rights Watch e Front Line; às instituições internacionais como as Nações Unidas, o Alto Comissariado para os Direitos Humanos, o Alto Comissariado para os Refugiados e o Parlamento Europeu; ao Parlamento Espanhol e ao Parlamento Português, aos movimentos feministas, aos sindicatos e aos partidos políticos e Câmaras Municipais espanholas, italianas e de outros países; aos meios de comunicação espanhóis e argelinos e a todas as penas livres em todo o mundo que conseguiram abrir uma luz no véu de obscuridade tecido pela grotesca propaganda do Majzén [oligarquia marroquina]; à comunidade saráui e de maneira especial à comunidade saráui de Lançarote e ao povo de Lançarote; a todos vós e a quem esqueci mencionar, pelo que peço desculpa, felicito-vos pelo êxito da épica batalha do regresso e exprimo-vos o meu agradecimento e o meu reconhecimento em meu próprio nome e no de todo o povo saráui que, hoje em dia, se orgulha pelo aumento do círculo dos seus defensores e a quem a esperança acompanha para continuar exercendo mais pressão com o fim de libertar o grupo dos sete aprisionados na cidade marroquina de Salé e a todos os presos políticos saráuis das demais prisões marroquinas, assim como para descobrir o paradeiro dos desaparecidos saráuis, enquanto espera que se satisfaça a sua exigência de desfrutar do seu legítimo direito à autodeterminação com a celebração dum referendo livre, justo e transparente.

E por último, desejo com todo o coração que o novo ano de 2010 seja um ano de paz e de respeito pelos valores humanos assim como o ano do triunfo da justiça internacional.



A defensora dos direitos humanos Aminetu Haidar




(Carta divulgada por Pepe Castellano e traduzida por Paula Sequeiros)

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