A líder do Partido do Povo do Paquistão, Benazir Bhutto, disse ontem numa entrevista ao El País que vai prosseguir a sua campanha eleitoral, apesar do atentado de quinta-feira dia 18 de Outubro, que provocou a morte de 143 pessoas. "Vamos modificar a forma de fazer a campanha, mas não vamos deixar de ter contacto com o povo. Os militares estão contra porque não estão interessados em que os moderados cheguem ao poder."
Leia abaixo o comentário de Tariq Ali sobre o atentado e o futuro do Paquistão.
O sangrento regresso de Bhutto
Tariq Alí, publicado originalmente em Sin Permiso
O massacre de Carachi era em tudo previsível. A própria Benazir Bhutto disse que estava consciente dos perigos. O governo pediu-lhe para adiar o regresso. Os dirigentes da Jihad, indignados pelo servil apoio de Bhutto à política externa dos EUA, tinham-na ameaçada publicamente de morte. Sobreviveu, mas umas quantas centenas foram assassinadas sem motivo. O marido de Benazir, que decidira não acompanhá-la, acusou os serviços de espionagem do Paquistão de cumplicidade nos ataques. Ela própria preferiu atacar os sequazes de um ditador militar morto.
Logo que ficou óbvio que alguma coisa estava a ser preparada, melhor teria sido um regresso discreto, mas Bhutto insistiu numa demonstração de força. A preparação durou um largo mês. Umas 130 mil pessoas foram recebê-la transportadas em caminhões e autocarros de todos os cantos da província; desconhece-se ainda quantos se deslocavam em troca de dinheiro. Além disso, foram mobilizados 20 mil polícias e pessoal paramilitar para a sua protecção. Tudo inútil. Acabou num banho de sangue, recordando-nos a volátil natureza da política no Paquistão.
Não faltam motivos de inquietação para o futuro. Benazir poderá ser a política preferida de Washington e da UE, mas o Tribunal Supremo do Paquistão está a avaliar cinco petições diferentes para rejeitar o decreto de perdão dos políticos corruptos. Se o Tribunal aceitar essas petições, a senhora Bhutto teria de ir para a cadeia. O que não desagradaria ao governo. Já dão sinais antecipados de que vão acatar a resolução judicial, ainda antes de ela ter sido tomada.
A tragédia do Paquistão é que nem o Partido do Povo de Bhutto nem os seus rivais oferecem alternativas reais às políticas actualmente em curso. O plano do Departamento de Estado de uma Bhutto encarrapitada nas costas de Musharraf soltando, como um papagaio, homilias pró-Washington foi sempre ridículo. Agora duvida-se até de que seja capaz de subir às costas do general.
Tradução de Luis Leiria