A tensão entre a Turquia e os curdos no norte do Iraque aumenta rapidamente. Depois dos confrontos na zona da fronteira que provocaram a morte de 16 soldados turcos e 23 curdos, o exército da Turquia iniciou bombardeamentos no norte do Iraque, naquela que é a primeira operação militar depois do parlamento turco ter dado luz verde a uma ofensiva na região. O primeiro-ministro turco convocou uma reunião de emergência com altos responsáveis civis e militares, para decidir os próximos passos. Entretanto, o parlamento iraquiano condenou a ameaça de uma incursão militar turca e o presidente da região do Curdistão iraquiano advertiu que os curdos defenderão o seu território "contra qualquer ataque".
A Turquia bombardeou este domingo o norte do Iraque, na província de Dahuk, Curdistão iraquiano. A artilharia "bombardeou 63 alvos" na região, segundo um comunicado colocado no site do Estado-Maior do Exército turco, acrescentando que terão já abatido 32 curdos do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). Os curdos confirmaram que há combates intensos em redor das localidades de Suke, Ertis, Shatunis, Sate e de Sutune e que o "exército turco está a bombardeá-las com artilharia".
Por seu turno, a agência curda Firat afirmou que o exército turco já começou a cruzar a fronteira com o Iraque a partir da localidade de Oremar, na província de Hakkari, mas esta informação não foi ainda confirmada pelas autoridades de Ancara.
Os bombardeamentos ocorreram depois de violentos confrontos entre membros do PKK e o exército turco na região fronteiriça que terão causado a morte a 16 militares turcos e 22 curdos. O Partido dos Trabalhadores do Curdistão reivindicou a captura de soldados turcos, em resposta à "inflitração de tropas turcas no Curdistão iraquiano". "Houve combates intensos e matámos um grande número de soldados. Fizemos alguns prisioneiros, que apresentaremos oportunamente", disse o responsável do PKK.
O primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, face aos últimos desenvolvimentos, convocou para hoje em Ancara uma reunião de emergência com responsáveis civis e militares para decidir os próximos passos. Erdogan estabeleceu a data de 05 de Novembro próximo, altura em que se encontrará com o presidente dos Estados Unidos, como data para decidir sobre uma operação transfronteiriça contra as bases curdas no Iraque. "Se nada conseguirmos dos Estados Unidos, seguiremos a nossa própria via", garantiu o primeiro-ministro turco, dando a entender que se não houver acordo com os norte-americanos a operação no Iraque poderá ser iniciada após a sua visita a Washington.
Entretanto, o parlamento iraquiano condenou hoje a ameaça de uma incursão militar turca na região do Curdistão iraquiano para eliminar as bases do PKK, numa moção aprovada por 184 dos 275 deputados. O documento adianta que "a decisão do Parlamento turco [de autorizar incursões militares no Norte do Iraque] não favorece as relações de boa vizinhança com o Iraque" e denuncia os recentes bombardeamentos de cidades iraquianas pela artilharia turca, não deixando contudo de apelar ao Governo iraquiano para tomar "as medidas apropriadas" para pôr fim às operações do PKK.
Em Erbil, no Curdistão iraquiano, o presidente do Iraque, Jalal Talabani, considerou ser impossível entregar a Ancara os chefes do PKK abrigados nas montanhas do norte do país, uma exigência das autoridades turcas. "Apesar da sua preponderância, o exército turco não consegue aniquilar ou prender esses homens. Como poderíamos detê-los e fazer a entrega deles à Turquia?", questionou o chefe de Estado iraquiano.
Mais incisivo ainda foi Massud Barzani, o presidente da região do Curdistão iraquiano que goza de uma larga autonomia face ao governo central. Barzani advertiu, durante uma conferência de imprensa, que os curdos iraquianos defenderão o seu território "contra qualquer ataque". "Se a região do Curdistão for atacada, então teremos de defender os nossos cidadãos"
Barzani sublinhou, contudo, que "se os turcos propuserem uma solução política aceitável que o PKK recuse, então consideraremos o PKK como uma organização terrorista".