Alemanha: Parlamento mantém tropas no Afeganistão

15 de outubro 2007 - 17:44
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Soldado alemão no AfeganistãoO Parlamento da Alemanha aprovou sexta-feira a continuidade das operações do Exército alemão no Afeganistão por mais um ano, com 454 votos a favor, 79 contra e 49 abstenções. Votaram a favor a coligação governamental e o Partido Liberal Democrático. O Partido da Esquerda votou contra e a maioria dos Verdes abstiveram-se. Leia a seguir o artigo "O Parlamento e a Guerra", de Flávio Aguiar, da Carta Maior, escrito na véspera da votação.

 

CARTA DE BERLIM

 

O Parlamento e a Guerra

Nesta sexta-feira o Parlamento alemão decidiu manter a presença de tropas germânicas no Afeganistão. Há dois anos atrás, quando do envio dos soldados, 60 % da população apoiou a medida. Agora, a maioria é contra.

Por Flávio Aguiar, 11/10/2007

Nesta sexta-feira, 12 de Outubro, o Parlamento alemão decidiu manter a presença das tropas do país no Afeganistão, mesmo contra a opinião pública. De todos os partidos, só o Die Linke, A Esquerda, votou maciçamente contra essa presença. Além de votar pela permanência, o Parlamento selou uma desigualdade brutal. Nos próximos tempos, a presença alemã no Afeganistão vai custar mais de 500 milhões de euros. Destes, só 100 milhões serão destinados a operações civis. O resto terá destino militar.

O Partido Verde, também importante, está dividido em todos os sentidos. A direcção do partido maioritariamente apoia a presença das tropas. A base, maioritariamente, é contra. Tanto que recente convenção do partido decidiu pela rejeição do mandato. Mas os membros do Parlamento, segundo comentários da imprensa, deveriam se dividir. O Partido Democrático Livre deve apoiar a presença. Contra mesmo, só votaram em peso os membros do novo Die Linke, A Esquerda, partido recém fundado por dissidentes do SPD e remanescentes do antigo Partido Comunista da Alemanha Oriental que não aderiram à louvação do capitalismo triunfante depois do fim da Guerra Fria.

Quando do envio das tropas, até dois anos atrás, 60 % da população apoiava a medida. Mas agora pesquisas mais recentes, de acordo com Der Spiegel, têm demonstrado que a maioria da população alemã prefere a retirada das tropas. São 3 mil soldados, encarregados de tarefas de defesa e de uma que fracassou redondamente, a formação de um sistema de segurança (Polícia e Exército) para o combalido Estado do Afeganistão.

As descrições do território afegão são devastadoras para os ocupantes. Elas dão conta de que a ocupação termina, na prática, nos muros e cercas que protegem os quartéis onde estão as tropas da OTAN. O resto do país é descrito como um país ocupado sim, mas pelos talibãs, que os norte-americanos derrubaram do governo, por bandos que agem por conta própria, entre algum tipo de resistência e o banditismo, ou por um Estado mal e mal posto de pé pelos ocupantes europeus e norte-americanos, tomado pela corrupção e pela ineficácia.

A violência campeia: só neste ano, de Janeiro a Setembro registaram-se cinco mil mortes, tanto em combate como por resultado indirecto deles. Aliás, os maciços bombardeamentos aéreos realizados pelos Estados Unidos quando da caçada a Osama Bin Laden e depois, espalhando o medo e o terror, foram decisivos para empurrar grande parte da população de volta ao apoio aos talibãs.

No começo, a acção dos alemães foi descrita como parte de um plano da OTAN para trazer o Afeganistão "de volta à civilização" (palavras do ex-primeiro ministro Wilhelm Schröder). Agora fala-se num objectivo mais pragmático, mas não menos ambicioso: impedir que o Afeganistão sirva de base para a preparação de ataques contra alvos estratégicos no Ocidente, como o de 11 de Setembro de 2003.

Vinte e um soldados alemães já perderam a vida por lá. A cifra é pesada para um país que desde o fim da Segunda Guerra Mundial não participava de qualquer acção militar fora das suas fronteiras. Além disso, a impossibilidade de chegar ao objectivo de formar um aparelho de segurança para o estado afegão é tão dramática que os norte-americanos, ainda segundo a Der Spiegel, resolveram agir por conta própria. Enviaram 2.500 especialistas para formar esses quadros afegãos, acompanhados por centenas de mercenários de uma empresa privada de segurança, a Dyon Corporation, que, como a Blackwater no Iraque, é encarregada de fazer a segurança da segurança...

A decisão desta sexta-feira ganhou ainda em dramaticidade devido à libertação do engenheiro Rudolf Blechschmidt, de 62 anos, que estava detido como refém pelos talibãs há alguns meses. Sequestrado com um de seus colegas alemães, Rüdiger Dietrich, Blechschmidt teve mais sorte do que ele. Dietrich foi morto alguns dias depois do sequestro, por razões ainda não de todo esclarecidas.

Se a libertação foi boa notícia para Rudolf, para os seus familiares e amigos, houve quem visse com preocupação o modo como se deu esse desenlace. Comenta-se que foi depois de negociações entre o governo alemão e os talibãs, através de autoridades do governo afegão. O preço pode ter sido a libertação de alguns talibãs prisioneiros, mas fala-se até em pagamento pecuniário. O processo levantou uma maior insegurança para a presença de alemães naquele país, uma vez que, se negociação houve, ela abriu um precedente aqui e ali descrito como perigoso.

De todo modo, esse desenvolvimento mostra os impasses que estão a criar-se para a presença alemã na missão da OTAN. Sempre se insistiu por aqui que a presença alemã se prenderia mais a aspectos de "reconstrução" de um país devastado pelo terrorismo, por uma ditadura fundamentalista e, embora nisto se insista menos por aqui, pela acção predatória das potências do Ocidente, uma vez que os talibãs deixaram de ser os desejáveis parceiros para combater os soviéticos e tornaram-se os perigosos aliados de gente que os próprios Estados Unidos alimentaram e prestigiaram, como o próprio Osama.

Essa verdadeira rusga entre a opinião pública maioritária (contra a permanência dos alemães na missão da OTAN) e a provável maioria no Parlamento (a favor) dá-se num contexto também difícil quanto à política "interna" da Europa. Nas últimas semanas e meses tem-se a impressão de se estar diante de um "renascimento", em novos termos e numa nova moldura internacional, de um fantasma que parecia pertencer ao passado: a Guerra Fria.

O Afeganistão é uma peça importante no jogo geopolítico para "murar" o Irão. Mas na última reunião do G-8 (EUA, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália, Rússia, Canadá e Japão), em Junho na Alemanha, ficou claro que subsiste uma tensão militar entre a OTAN e a Rússia. Também é impensável que uma força militar treinada durante 50 anos (pelo menos duas gerações de militares, tecnocratas e proximidades) para enfrentar e cercar um inimigo (a antiga União Soviética) se vá esquecer de repente de seus objectivos, e vice-versa.

Em Maio, a Rússia de Vladimir Putin reagiu energicamente, ainda que por debaixo do pano, contra a proposta dos Estados Unidos de construir novas bases de mísseis e de apoio a eles na Polónia e na República Checa. Disse o governo norte-americano que o objectivo das bases era o Irão. Mas elas estão, de qualquer modo, em face da Rússia. Ao mesmo tempo em que Putin manifestava o seu desagrado nos bastidores da reunião do G-8, em Rostok, ele propunha, em cima da mesa, que se utilizasse uma base da antiga USSR na Geórgia, em face do Afeganistão, para alocar tais mísseis.

A proposta choveu no molhado ou semeou no deserto, porque nada interessa menos aos Estados Unidos, sobretudo o de George Bush e Condoleeza Rice (que sobrevive nos escombros do governo norte-americano), do que uma base em comum com a Rússia. Mas ela serviu de sinal para mostrar que há divergências profundas que continuam a marcar as posições dos novos "donos do mundo", ou que assim se vêem.

As divergências mostram terreno fértil para os rearranjos. Da França, o conservador Sarkozy busca aproximação com Putin, cujo maior alvo no momento é sair do isolamento e garantir a continuidade de seu poder na Rússia. Tal movimento não agrada à Alemanha da também conservadora Merckel (embora, para uma conservadora, ela mostre um discurso ambientalista e social um pouco mais livre do que seria de se esperar), que se vê espremida entre o neo-nacionalismo de direita do governo francês e o neo-czarismo de Putin...

Enfim, a Europa vê-se diante de um tabuleiro que lembra mais o que antecedeu a Primeira Guerra do que o campo ideológico onde se batalhou a Segunda. É nesse quadro que se dá a crise da presença da OTAN no Afeganistão.

Uma retirada da Alemanha, é verdade, como dizem os conservadores, seria uma derrota política de tal monta, que poderia fazer ruir a nesta altura frágil moldura da aliança que garante a sensação, pelos grandes do G-8, de que eles continuam de fato não só grandes, mas participantes de uma grandeza comum e compartilhada, e não são os recobertos por uma colcha de retalhos, ou decididamente em frangalhos.