J. Galbraith: Em 1929, as autoridades tinham o mesmo discurso tranquilizador

27 de setembro 2007 - 16:09
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James GalbraithEntrevista ao economista americano James Galbraith[1], publicada no jornal "Libération" de 24 de Setembro de 2007 e realizada por Florent Latrive e Christian Losson.

As imagens das filas de espera do banco Northern Rock no Reino Unido fazem pairar o espectro de uma repetição de 1929?

A crise era inevitável, assim como o contágio real. Viram-se cenas de pânico na Grã-Bretanha, num fundo de irracionalidade, de crise de confiança, de desconfiança enraizada. É apenas o início de uma crise bancária, que pode relembrar 1929, mas que estava invisível. 

Os efeitos na economia real verificam-se já com a queda livre do mercado da habitação, assim como no consumo e talvez no emprego.Isto afectará os países que exportam para os Estados Unidos. Baixando as taxas de juro, a Reserva Federal (Fed), o banco central americano, utiliza a única alavanca que lhe resta e isso pode preservar os Estados Unidos de uma crise maior. Mas se acontecerem as previsões do "pior cenário", em que as taxas de juro já não sejam suficientes para travar a crise, então, aí...

Mas os oráculos da economia dizem-nos que "os fundamentais são bons", que "as empresas são prósperas", que o "crescimento mundial é sólido" ...

Sim, mas dizia-se precisamente a mesma coisa antes da crise de 1929. Os anos 20 conheceram o pleno emprego, num fundo de crescimento insolente e de especulação bolsista, à semelhança dos anos 90... Nos Estados Unidos, entre 1921 e 1929, a produção industrial tinha aumentado 50%. Entre 1926 e 1929, o curso das acções tinha subido 120%. As autoridades políticas e financeiras martelavam então o mesmo discurso da confiança, do crescimento, da prosperidade durável. O ciclo actual é similar. Desde 1995, os Estados Unidos conhecem um período de crescimento a crédito, financiado pelas dívidas privadas dos particulares e das empresas a favor em primeiro lugar da bolha Internet, engrossada por "business plans" ("planos de negócios") assentes no vento, depois esta bolha imobiliária financiada em créditos assentes nas nuvens.  Hoje está a acontecer a mesma pantomina.

Dito de outra forma, os pilotos já não controlam os comandos?

O pânico bancário leva a agir de emergência, não a reflectir sobre a forma de como se poderia impedir as crises sistémicas. São os grandes especuladores que levaram o banco central americano a injectar muito dinheiro e por conseguinte a se negar a si próprio. O drama é que os bancos centrais, desempenhando este papel de "emprestadores de último recurso", encorajaram os bancos comerciais a multiplicar as operações aventureiras. Os sucessos deram-lhe lucro e os desastres serão assumidos pela colectividade. Portanto, absolvem-se os bancos de todos os pecados. No caso Northern Rock, o governo voou em socorro do banco, assegurando que o Estado britânico garantiria a poupança dos clientes. Como na crise de 1998, em que se voou em socorro do fundo LCTM, que tinha devorado 110 mil milhões de dólares... Nos dois casos, era necessário, mesmo que isso não resolvesse o problema de centenas de milhares de famílias que vão ser expulsas da sua casa e mesmo que isso não garanta em nada a perenidade do crescimento da economia.

Finalmente, o sistema financeiro não aprende com os seus erros?

É a verdadeira natureza do sistema capitalista que revela esta crise. Ou seja a privatização dos lucros e a socialização das perdas. Para evitar passar o nosso tempo a cuidar dos sintomas (e não das causas), a passar da euforia à depressão, é necessária uma reforma aprofundada do mercado de capitais. Porque a instabilidade não sempre assim! Dos anos 50 aos anos 70, por exemplo, quase não tivemos este tipo de problemas. Existia um sistema público de regulação que era bastante forte. Desde os anos 90, voltou-se aos anos 20, à regulação pelo mercado, e vê-se o que isto dá: vai-se de bolhas em bolhas, de crash em crash.

Como se pode regular hoje este sistema?

Reformar, hoje, é um pouco como aplicar criminologia à economia: é preciso em primeiro lugar dissecar as provas, os índices de fraudes, as numerosas cumplicidades, punir os culpados. O mais difícil é subir na cadeia. Descobrir, como no dinheiro sujo da droga, quais são os bancos que reciclaram ou injectaram fundos em instituições duvidosas. Inquirir as agências de notação de risco, que uma vez mais, não viram nada antes e validaram o estado financeiro de instrumentos especulativos fraudulentos. Criar uma autoridade independente, uma espécie de agência sanitária aplicada aos bancos e aos créditos, para evitar que se repitam tais armadilhas.

Pode-se punir os crimes financeiros sem mudar o meio em que operam?

Sim, viu-se isso na crise das caixas de poupança americanas, há mais de quinze anos. As autoridades perseguiram mais de um milhar de pessoas. Mas a verdadeira alternativa passa por um reequilíbrio em que o interesse privado deixe de primar sobre o interesse público. Em que a regulação se faça a favor dos particulares, dos pequenos consumidores de produtos financeiros e não dos grandes actores do mercado.

Alan Greenspan, o ex-patrão da Fed, prognosticou uma crise económica virulenta. É espantoso da parte de um homem que alimentou as sucessivas bolhas?

Disse a verdade. Já não está constrangido, já não disfarça as palavras.



[1] James Galbraith, economista e professor na Lyndon B. Johnson School of Public Affairs, Universidade do Texas, Austin, é filho de John Kenneth Galbraith (1908-2006), conhecido economista keynesiano.