Quatro semanas antes da invasão do Iraque, o presidente dos EUA, George W. Bush, já tinha decidido lançar a acção militar, independentemente das decisões da ONU, e deu disso conta ao então presidente do governo espanhol, José Maria Aznar, numa reunião no seu rancho do Texas. Na acta desse encontro, que se mantinha secreta até hoje e foi divulgada pelo jornal El País, surge um Aznar preocupado e pedindo ajuda para convencer a opinião pública do seu país (uma semana antes da reunião, as manifestações antiguerra em Espanha juntaram 3 milhões de pessoas), e um Bush ameaçador para os restantes países do Conselho de Segurança, entre eles Chile, México e Angola, e referindo-se a Chirac como o Mister Arab.
"Saddam Hussein não vai mudar e vai continuar a jogar. Chegou o momento de se livrar dele. É isto", disse Bush. "A minha paciência está esgotada. Não vai passar de Março", teria dito Busha Aznar, quando este pediu "um pouco de paciência" para procurar mais apoios e uma eventual resolução das Nações Unidas.
Ameaçador, Bush listou então alguns países que, na sua opinião, deveriam apoiar os Estados Unidos ou pensar nas consequências de não o fazerem. "Países como México, Angola, Chile e Camarões devem saber que o que está em jogo é a segurança dos EUA e agir com sentido de amizade conosco", disse, e foi mais explícito em relação ao Chile: "Lagos (o então presidente chileno) deve saber que o acordo de livre-comércio com o Chile está pendente de confirmação no Senado, e que uma atitude negativa neste tema poderia pôr em risco a ratificação..."
Bush chegou a estabelecer a data de 10 de Março como limite, depois de Aznar dizer que "Tony (Blair, então primeiro-ministro britânico) queria fixar em 14 de Março". Explicou então a relação com Blair: "Isto é como o jogo do polícia bom e do polícia mau. Não me importo de ser o polícia mau e de que Blair seja o bom".
Aznar ressalta que o apoio à guerra vai causar "uma mudança muito profunda para a Espanha e para os espanhóis. Está a ser mudada a política que o país seguiu nos últimos 200 anos".
Os Estados Unidos invadiram o Iraque em 20 de março de 2003 sem conseguir que fosse votada uma resolução na ONU. O fracasso desta cobertura legal à guerra levou à realização da cimeira dos Açores, em que Bush se reuniu com Blair e Aznar para anunciar a guerra. Durão Barroso também estava na reunião, mas é sistematicamente esquecido quando ela é mencionada. O próprio El País não fala dele.
A Espanha retirou as tropas em 2004, depois da derrota de Aznar nas eleições de Março desse ano.