Peru: o terramoto e os abutres

21 de agosto 2007 - 18:14
PARTILHAR

h_blanco.jpgNo terramoto de 1950 em Cusco, colaborei como voluntário no sistema de ajuda. A minha tarefa era listar todos os desalojados e as suas necessidades. No início éramos recebidos com carinho, mas quanto mais avançávamos no trabalho ia crescendo a hostilidade, as pessoas explodiam: "Já nos registaram dez vezes e não nos chega nada!" Isso era verdade, a ajuda nacional e internacional foi devorada pelos abutres da burocracia oficial.

Quando correu o terramoto de Ancash de 1970 estava preso, mas soube que aconteceu a mesma coisa.

Agora parece que é tudo igual, os abutres da burocracia oficial estão a engordar com a dor das vítimas, felizes pelas grandes quantidades de ajuda nacional e internacional que chega.



Por Hugo Blanco O saldo do último terramoto, além dos 500 mortos e mais de 1.500 feridos: 45 mil casas afectadas, 250 mil desalojados.

 

Em primeiro lugar, assinalemos que não é verdade que os desastres naturais afectem por igual ricos e pobres. Os ricos não vivem em habitações precárias de adobe, que foram as que desmoronaram. Os ricos têm dinheiro suficiente para sair da zona, e têm para onde ir.

É a população pobre da zona afectada, mais a dos vilarejos isolados, quem sofre, sem casa, sem água, sem electricidade, com mortos por enterrar, com feridos sem cuidados, sem dinheiro para comprar alimentos que decuplicaram de preço.

É verdade que receberam a promessa do presidente da República de que "ninguém vai morrer de fome!", mas, como sabemos, em todos os aspectos, Alán Garcia continua a fazer as promessas de campanha eleitoral que não se cumprem. A mais de três dias do terramoto, apesar das grandes quantidades de ajuda que chegaram do país e do exterior, a maior parte das pessoas continua sem receber nada.

As vítimas desesperadas pelo pranto de fome e de sede das crianças, iniciaram o assalto de armazéns que quadruplicaram os preços dos produtos, de veículos que transitam a abarrotar de comida diante dos seus olhares famintos.

Vemos na imagem publicada no diário El Comercio de Lima um pai com cinco peixes retirados de um caminhão frigorífico de uma grande empresa, o diário qualifica de "injustificável" o esforço para alimentar os seus filhos. (Clique aqui para ver).

Os membros da polícia encarregados de "manter a ordem" intervieram em muitas oportunidades. Noutras, realmente "mantiveram a ordem", isto é, organizaram a distribuição que eles mesmo executaram. Felicitamo-los calorosamente, sabemos, como eles, que vão ser castigados pelos superiores, admiramos o florescimento da solidariedade humana nos seus corações.

Em vez de agilizar a entrega da ajuda, a medida que o governo tomou foi enviar forças repressivas para evitar o ataque aos camiões das empresas que transportam alimentos.

Recomendamos aos doadores que vigiem directamente o destino das suas doações, os que puderem usar a via de alguma ONG que o façam, em geral são rotas garantidas. O que é certo é que a via governamental está cheia de abutres que vão devorar a maior parte da ajuda.

De passagem, mencionemos que os serviços da empresa telefónica cujo súbdito é o governo de Alán García entrou em colapso, de forma criminosa, quando ocorreu o sismo, e naturalmente fica impune.

Cusco, 19/8/2007

 

Hugo Blanco é um dirigente histórico da esquerda revolucionária e da Conferederación Campesina del Perú (CCP). Artigo publicado originalmente em Sin Permiso.