Nápoles, a cidade das mil contradições

14 de julho 2007 - 15:14
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napoli1.jpgO crítico e escritor italiano Umberto Eco, autor de O Nome da Rosa, escreve sobre o Dicionário Apaixonado de Nápoles, de Jean-Noël Schifano, recentemente publicado em França, e compara-o com Gomorrhe, de Roberto Saviano lançado na Itália. O primeiro, um escritor apaixonado por Nápoles no sentido mais sensual e erótico do termo; o segundo, um relato violento sobre a capital da Camorra, território de uma criminalidade desenfreada. Quem terá razão? Saviano, que fala de um inferno, ou Schifano, que fala de um paraíso?

A cidade das mil contradições

UMBERTO ECO

Quando falamos de viajar pela Itália e de fazer o "grande percurso", certamente evocamos o gentleman inglês bem-educado que explorava o continente (europeu), encerrando o percurso na Itália, em geral em Nápoles.

Então vem-nos ao espírito o italienische Reise dos alemães cultos, pois, apesar de Goethe ter permanecido apenas quatro meses entre Nápoles e a Sicília, a sua descida para o sul da Itália ainda é memorável por um verso citado por todos: "Conheces o país onde florescem os limoeiros?"

O mito napolitano é um dos topos da literatura francesa, razão por que não deveria surpreender-nos o livro de outro amante de Nápoles, o último na ordem cronológica: Jean-Noël Schifano.

Só que Schifano é um apaixonado por Nápoles no sentido mais sensual e erótico do termo, um amante violento e ciumento, apaixonado, febril, embriagado.

E essa febre manifesta-se numa escrita inflamada e brilhante, que confere ao seu acto de amor uma sedução furiosa. O difícil na minha leitura deste livro é que Schifano é o meu tradutor francês, e nutro por ele e pelo seu estilo uma admiração sem limites.

Mas sou um italiano do Piemonte (região que, há séculos, é culturalmente mais francesa que italiana), e entre um piemontês e um napolitano existe bem mais diferença que entre um sueco e um brasileiro da Bahia.

Por essa razão, ver-me diante de um francês (mesmo que seja um francês de pai italiano) mais napolitano que qualquer outra pessoa é algo que me provoca um sentimento de mal-estar.

Naturalmente (mesmo que isso pareça o caso de um desses anti-semitas que iniciam o seu discurso com "alguns de meus melhores amigos são judeus"), também sinto o fascínio de Nápoles.

E falo não apenas da paisagem mas da extraordinária humanidade dos seus habitantes e da postura de cavalheiro de muitos de seus intelectuais.

Mas não posso esquecer que o Dictionnaire Amoureux [Dicionário Apaixonado] de Schifano está a sair na França pouco depois de Gomorrhe, de Roberto Saviano, ter sido lançado na Itália - um livro tão violento sobre Nápoles, capital da Camorra, território de uma criminalidade desenfreada, que obrigou o seu autor a viajar sob escolta policial para fugir da vingança desse mundo impiedosamente denunciado.quem acreditar? Saviano, que nos fala de um inferno, ou Schifano, que, com o seu olhar velado pela nostalgia, nos fala de um paraíso?

É verdade que Saviano vive nesse inferno, enquanto Schifano, no momento, fala dele à distância - mas ele viveu em Nápoles, e por muito tempo, como director do Instituto Francês, e outros dos seus livros também carregam a marca da cidade.

Seria fácil dizer que acontece com Nápoles o que ocorre com tantas outras cidades: no Rio de Janeiro é possível passar meses num dos melhores hotéis de Copacabana ou Ipanema sem saber que a alguns quilômetros de distância está o inferno das favelas; é possível desfrutar de Nova York, circulando entre o Village, a Quinta Avenida, ignorando o Bronx; pode-se viver esplendidamente em Paris, ignorando a periferia dos distúrbios.

 

Superstição e intelectuais

Mas Schifano não ignora a Nápoles sombria, e a prova disso, neste livro, está no capítulo sobre a Camorra, que retoma sem censura algumas das passagens mais terríveis do livro de Saviano.

Schifano assume a postura de todos os amantes de Nápoles: é a cidade de mil contradições, sede da superstição mais desenfreada e berço de alguns dos maiores filósofos, não apenas da Itália mas do mundo (para citar apenas quatro, Tomás de Aquino, Giordano Bruno, Giambattista Vico e Benedetto Croce), caldo de cultura de uma criminalidade difusa que se autocelebra nas suas canções, na sua comédia popular, no seu cinema licencioso e palco de uma queixa contínua feita à Itália, que critica nela exactamente os defeitos que os seus maiores artistas sempre exaltaram.

Como falar de uma realidade tão contraditória?

Schifano optou pela forma da lista alfabética: falar de Nápoles por meio de verbetes intitulados Averne, Caligula, Flaubert, Mozzarella, Murat, Pergolese, Pulcinella, San Severo, Sartre, Stendhal e Vesúvio permite-lhe girar diante dos olhos do leitor o caleidoscópio de uma cidade inapreensível sem, aparentemente, chegar a um veredicto.

E o charme da narrativa, das evocações, das lembranças pessoais e eruditas é tão grande que o leitor vai pouco a pouco cedendo a esse encantamento.

E ele faz mal. Porque há uma ideologia subjacente, e, como dizia no passado Mao, há um pensamento-Schifano, em harmonia completa com o espírito mais profundo da napolitaneidade, que Schifano celebra ao dizer-nos que "há mais de 3.000 anos os napolitanos são tudo menos revolucionários e (que) as aventuras de uma elite nobre distanciada do povo e da plebe não podem, aqui, ser mais que uma paródia desastrosa ou risível".

 

Nápoles x Roma

Vem daí a polémica (certamente justa, mesmo em termos históricos) em torno de um Piemonte que, para realizar a unidade da Itália, humilhou essa cidade e - no sonho de fazer do vilarejo miserável que era Roma, na época a capital do novo reino - degradou Nápoles de seu status de única capital verdadeira da Itália.

O que permite a Schifano - sem subtrair da Camorra e do rancor de Nápoles com relação ao Estado italiano as suas características mais repugnantes - ver essa queda progressiva na ilegalidade como reacção à insensibilidade de um poder que sempre lhe permaneceu exterior.

Argumento principal dos defensores e apaixonados de Nápoles, os quais, entretanto, evitam perguntar-se por que a cidade, no fim das contas, aceitou igualmente bem a opressão e a reacção criminosa contra a opressão.

De fato, não houve e não há algo de trágico e de fatal no inconsciente dessa cidade, algo que a impediu de fugir de seu destino? Mas talvez seja justamente esse destino trágico que faz o fascínio perturbador e luminoso de Nápoles.

Schifano sabe que o culto a são Genaro (aquele que a própria Igreja riscou da lista dos seus santos) e a fascinante cerimónia da liquefação de seu sangue são a apoteose da superstição e da mentira com a qual se consola um povo infeliz.

Não é por acaso que outro grande amante de Nápoles tenha sido o marquês de Sade, que escreveu: "Como fazer, entretanto, numa terra em que o clima, os alimentos e a corrupção geral convidam tão perpetuamente à devassidão... Que excitação! Que frenesi! Que fúria!"

E Schifano, mais adiante, comenta: "Não terá Sade encontrado seu paraíso infernal sobre a lava napolitana?" Não se julga a paixão dos amantes. E depois, para dizer de Schifano aquilo que ele próprio diz a respeito de Sade, em certo momento: "Merda! Que estilo!".

 

UMBERTO ECO (1932) é escritor e ensaísta, especialista em semiótica e estética medieval. É autor, entre outros livros, de O Nome da Rosa. Este texto foi publicado originalmente na revista francesa Nouvel Observateur. Versão condensada pela Folha de S.Paulo. Tradução de Clara Allain, adaptada para o português de Portugal pela redacção do Esquerda.net.