Entre 2001 e 2006, durante os governos de Sílvio Berlusconi, mais de 200 magistrados europeus e também alguns militares, políticos e jornalistas, foram investigados pela polícia secreta italiana. A denúncia foi feita há quatro dias pelo Conselho de Magistratura Italiano, que, numa das buscas a um escritório clandestino da secreta italiana, encontrou vários dossiês relacionados com a investigação de juízes "definidos como portadores de pensamentos e estratégias desestabilizadores e próximos de partidos de esquerda". Entre os visados encontram-se vários portugueses (António Cluny, Mouraz Lopes, Orlando Afonso e António Martins) mas o Ministro da Justiça "não faz comentários".
Entre os cerca 200 magistrados "devassados" pela secreta italiana, além dos portugueses, encontram-se 47 italianos, nomeadamente o ex-presidente da Associação Nacional de Magistrados de Itália, Bruti Liberati, e vários espanhóis, incluindo o conhecido juiz Baltazar Garzòn.
Grande parte das espionagens foram feitas "vasculhando" o correio electrónico que circulava entre os membros da Medel (Magistrados Europeus pela Democracia e Liberdade), na altura presidida pelo português Orlando Afonso. O método passava por vasculhar a correspondência electrónica dos magistrados que constam na lista da associação e, pontualmente, por escutas telefónicas e perseguições.
A denúncia foi feita dia 7 pelo Conselho Superior da Magistratura (CSM) de Itália, entidade que dirigiu as investigações ao Sismi. Numa das buscas a um escritório clandestino da secreta, o CSM encontrou vários dossiers, um deles relacionado com a observação de juízes "definidos como portadores de pensamentos e estratégias desestabilizadores e próximos de partidos de esquerda". Neste dossier constavam alguns nomes conhecidos, como o ex-chefe do MP de Milão Francesco Saverio Norrelii, ou a procuradora Ilda Bocassi, conhecida por ter conduzido as investigações contra Silvio Berlusconi. "A intenção era atingir a credibilidade de quem (referindo-se aos juízes) trabalhava em processos particularmente delicados", explica o CSM italiano no relatório a que o Diário de Notícias teve acesso.
Tanto o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) como a Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP) anunciaram que vão participar ao Parlamento, Conselho Superior do Ministério Público e ministro da Justiça da conduta da secreta italiana. Questionado pela Lusa sobre se iria pedir explicações ao Governo italiano, o gabinete de imprensa do Ministério da Justiça foi lacónico: «O Ministério da Justiça não faz comentários».