Deixem Gaza viver

03 de julho 2007 - 19:27
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Checkpoint na PalestinaEis uma história de sucesso: Israel e o Ocidente impuseram um boicote à Autoridade palestiniana com o objectivo de enfraquecer o Hamas, e, um ano e meio depois, esta política brilhante deu os seus frutos: o Hamas ficou mais forte. Se há uma lição a ser tirada do fiasco em Gaza, aqui está: fome, sede e o bloqueio de ajuda humanitária não prejudicam a consciência política e não enfraquecem os movimentos políticos. Antes pelo contrário.

Artigo de Gideon Levy, publicado no jornal israelita Haaretz a 24 Junho 2007

 

A realidade refutou o coro de peritos e comentadores que pregavam a política de bloqueio. Esta noção desastrada, de que é possível derrubar um governo eleito aplicando pressão sobre uma população indefesa, sofreu um fracasso completo. O mundo boicotou o governo de unidade, que talvez pudesse ter evitado as cenas violentas em Gaza se lhe tivesse sido permitido governar, e, consequentemente, tivemos a alternativa: a tomada total de Gaza pelo Hamas num golpe militar, separando Gaza da Cisjordânia. São más notícias.

É possível fazer uma lista dos erros fatais cometidos por Israel, os EUA e a Fatah, que levaram ao que aconteceu, mas a questão que se nos depara agora é qual o caminho que seguimos a partir daqui.

Continuaremos a política de boicote até que um governo ainda mais extremista e perigoso suba ao poder em Gaza, como a jihad global ou a Al-Qaeda? Ou vamos interiorizar que a força não resulta, que é impossível regressar ao status quo ante às costas da população enfraquecida, que precisamos de uma mudança de direcção?

Israel e o EUA estão a apoiar, agora, Mahmoud Abbas. Há uma grande hipocrisia e um falso ar de santidade nisto. Não há muito tempo, ele foi considerado um líder "depenado". Todos os seus pedidos e exigências foram recusados, um após o outro, e todos os esforços foram feitos para retirar poder ao seu governo. Então, o que mudou?

Não há bases para a conversa sobre a necessidade de dar força a Abbas com o objectivo de enfraquecer o Hamas. Gaza está perdida. A Fatah não vai organizar o seu regresso a Gaza depois de os seus líderes terem fugido para Ramalah, abandonando a sua gente à mercê do Hamas. É muito mau que o Hamas tenha tomado Gaza, e Abbas devia ser apoiado, mas as limitações desta visão devem ser reconhecidas: nada será como dantes.

Temos, agora, duas Coreias: a Cisjordânia como a Coreia do Sul e Gaza como a Coreia do Norte. Apesar da demonização do Hamas e da glorificação da Fatah, os dois movimentos são muito problemáticos. Gaza caiu como um fruto maduro nas mãos do Hamas devido principalmente às diferenças socioeconómicas entre Gaza e a Cisjordânia. Gaza ficou mais pobre, e esta diferença aumentou. A ideia de que exacerbar a fome entre os seus residentes os levaria a mudar de ideias e transformá-los em amigos do sionismo e da América é errada: só os fará tornarem-se cada vez mais extremistas. Não há alternativa à adopção de uma abordagem quase igualitária em relação às duas entidades que surgiram: precisamos de ajudar ambas. Com ou sem Hamas, só uma Gaza próspera mudará o seu destino.

O Hamas tenta agora estabilizar a sua governação depois do golpe brutal que efectuou. Jornalistas estrangeiros que visitaram Gaza nos últimos dias relatam que as ruas estão calmas, há muito poucos homens armados e postos de controlo, e até uma directiva que proíbe os homens de andar por aí com as caras tapadas. Até as guerras de clãs, que retalharam Gaza nos últimos meses, acalmaram um pouco. O novo comandante da polícia em Jabaliya, nomeado pelo Hamas, Mohamed Abu Sisi, disse no final desta semana que as suas forças são capazes, mais do que outras, de acabar com a anarquia. Aparentemente, isto é verdade.

Agora devemos exigir também que a nova liderança ponha um fim ao lançamento de rockets Qassam para Israel e que liberte Alan Johnston e Gilad Shalit. Se fizerem isto, Israel devia levantar o bloqueio e começar a deixar Gaza viver. Na Cisjordânia, claro, uma série de passos largos devia ser dada sem demora: um cessar-fogo total, remoção de todos os postos de controlo internos, e a libertação em massa de prisioneiros. Talvez nada que sai de Gaza esteja coberto de açúcar, mas todos os esforços deviam ser feitos para adoçar a pílula. Israel tem interesse em deixar Gaza viver, mesmo se a liderança do território não é do nosso agrado.