"Risco de contágio real e profundo" é a opinião de dois economistas franceses, sobre a crise do crédito imobiliário norte-americano. Na passada semana, a crise alastrou ao sistema financeiro europeu, ganhando impacto público com a suspensão de três fundos do banco francês BNP Paribas, gerou quedas nas bolsas a nível mundial e obrigou a forte intervenção dos bancos centrais.
Jean-Paul Fitoussi, presidente do Conselho Científico de Ciências Políticas (Instituto de Estudos Políticos) - Paris, e Dominique Plihon, presidente do Conselho Científico de Attac, falam da intervenção do Banco Central Europeu, dos riscos de contágio e sobre as crises financeiras, em entrevista realizada por Christian Losson e publicada pelo jornal francês Libération, na passada 6ª feira.
A intervenção do Banco Central Europeu (BCE) marca uma viragem na crise dos empréstimos imobiliários?
Jean-Paul Fitoussi (JPF): Os bancos intervêm para apagar o incêndio que eles próprios atearam. Conduzidos pela sua primeira missão - a estabilização da inflação - eles próprios fragilizaram o mercado aumentando as taxas de juro, o que favoreceu a crise do imobiliário. Instala-se uma tragédia grega: a inflação regressa pela subida dos preços do petróleo e das matérias-primas agrícolas, os bancos reagem aumentando as taxas, e os operadores financeiros, que contavam com a estabilidade, ficam fragilizados.
Dominique Plihon (DP): Tivemos uma injecção de liquidez de urgência, do emprestador de último recurso. É um sinal muito claro: há um início de incêndio no sistema bancário. O BCE quer que os pagamentos prossigam para que os bancos não afundem o sistema. Tenta evitar o efeito dominó: bancos em dificuldade arrastam com eles outros bancos dos quais são devedores...
Quais são os risco de contágio?
DP: O risco é real e profundo, mas a grande crise generalizada não é inevitável. Em cada dia vê-se um pouco melhor: grandes bancos europeus empenharam-se no mercado imobiliário americano por via, muitas vezes, dos LBO [Leverage Buy Out - Aquisição de uma empresa por outra empresa através de empréstimo]. Eles têm uma atitude a gerir esses riscos: fundos próprios, instrumentos de controlo. Em contrapartida se é descoberto, como parece ser hoje o caso, que eles foram fortemente afectados, pode haver uma desconfiança generalizada, que pode conduzir ao efeito de pânico, a uma baixa do consumo e portanto do crescimento...
JPF: A acumulação de crédito de risco de devedores insolventes já está a contaminar os bancos, como prova o caso do BNP, vítima do modelo presa - predador. Se os predadores devoram em excesso as populações pobres, que se sobre-endividam para comprar um bem imobiliário, eles ficam por sua vez em perigo. Estamos perante um efeito dominó que pode provocar uma crise de muito grande amplitude.
1987, 1997, 2007: há uma inevitabilidade nos ciclos das crises financeiras?
JPF: Infelizmente, raramente se aprende com as crises precedentes. A "bolha Internet" ontem, a "bolha imobiliária" hoje. E o que é mais inquietante e de que pouco se fala, por enquanto, é o carry-trade [empréstimo numa moeda cujas taxas de juro são baixas para colocar a soma em países que pagam mais] sobre o iene japonês. Mas agora o iene recupera, e o sistema, que ganhou mais de 200 mil milhões de dólares, pode implodir.
DP: As crises económicas não se repetem, ganham novos contornos. Apesar do grande défice de governo global, realizaram-se grandes progressos na prevenção e gestão dos riscos. Mas, o mais inquietante, é a subida dos preços das matérias-primas e alimentares e a especulação que a acompanha. Na falta de regulação, essa exuberância irracional corre o risco de provocar estragos maiores. Porque a tendência dos mercados para o desastre não mudou.