Dirigentes das comunidades indígenas, historiadores e teólogos criticaram as declarações do Papa Bento XVI na abertura da Quinta Conferência do Episcopado Latino-Americano e das Caraíbas em Aparecida do Norte, no Brasil, em relação à evangelização dos povos indígenas das Américas. Segundo Bento XVI, o "anúncio de Jesus e do seu Evangelho" aos povos indígenas "não supôs, em nenhum momento, uma alienação das culturas pré-colombianas, nem foi uma imposição de uma cultura estrangeira".
A declaração entrou em flagrante contradição com o que disse João Paulo II em Santo Domingo em 1992, na data do 500º aniversário da descoberta da América, quando manifestou o arrependimento da Igreja pelos crimes cometidos sobre as populações indígenas em nome do Evangelho.
A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, professora da Universidade de Chicago, ouvida pela Folha de S. Paulo, afirma que aconteceu, sim, uma imposição cultural. Houve missionários que defenderam os índios da escravidão e tentativas de tradução de termos cristãos para línguas locais, diz. No entanto, a igreja reagiu a essa "indigenização" do catolicismo. "Não bastava a mensagem, a interpretação da mensagem tinha de ser fixada também. Eliminaram-se práticas como os catequistas indígenas, sem falar do clero indígena, que podiam "desvirtuar" a fé, interpretando-a de acordo com suas culturas. O que é isso, então, senão imposição cultural?", questiona.
A teóloga Cecilia Domevi, ouvida pela AFP, lembra que "a evangelização foi um choque de culturas que causou um prejuízo total aos índios".
O dominicano e historiador Wladir Ramonelli instou o papa a reler Bartolomeo de Las Casas (1474-1566), um dominicano espanhol que denunciou as atrocidades cometidas pelos conquistadores.
O historiador Flávio Gomes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, disse à Folha de S. Paulo que "em várias partes da América portuguesa e espanhola, a igreja escravizou, legitimou a escravidão indígena e africana e impôs a fé cristã às sociedades indígenas".
Ao mesmo jornal, Luiz Felipe de Alencastro, professor de história do Brasil na Universidade de Paris, disse-se surpreso com as declarações do papa. "O processo colonial foi de destruição da cultura ameríndia. Os missionários estavam a serviço de uma religião que havia incorporado os elementos autoritários e despóticos das monarquias europeias."
A declaração do papa foi criticada por lideranças indígenas. "É arrogante e desrespeitoso considerar a nossa herança cultural inferior", disse Jecinaldo Sateré-Mawé, coordenador-geral da Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira).