EUA querem isolar um terço de Bagdad

11 de abril 2007 - 14:47
PARTILHAR

bagdadDiante do aumento das actividades da resistência em Bagdad - apesar do envio de soldados extras por George W. Bush -, as forças dos EUA planeiam uma controversa operação de contra-insurgência na capital iraquiana. A sua intenção é isolar grandes áreas, fechando bairros inteiros com barricadas e permitindo a entrada apenas de iraquianos com cartões de identidade novos. A criação das "comunidades cercadas" - cuja génese se deu na Guerra do Vietname - vai envolver até 30 dos 89 distritos oficiais da capital.

Por Robert Fisk, "INDEPENDENT"

A táctica de cercar áreas sob ocupação estrangeira já foi usada e falhou retumbantemente na Guerra do Vietname e na luta da França contra a resistência argelina.

Mas o novo plano revela ambições que vão além da pacificação de Bagdad. Aparentemente, os EUA querem colocar cinco brigadas mecanizadas - com cerca de 40 mil homens - ao sul e ao leste da cidade, sendo que pelo menos três delas vão ficar posicionadas entre a capital do Iraque e a fronteira com o Irão. Isso significa um contingente militar potente perto do Irão, para a eventualidade de um ataque americano ou israelita às instalações nucleares iranianas.

O novo plano de segurança foi elaborado pelo general Petraeus, comandante militar das forças dos EUA no Iraque, durante um curso de seis meses, com debates que contaram com a participação de oficiais americanos que estiveram no Iraque, e pelo menos quatro oficiais israelitas.

 

De fora

A ênfase inicial da aplicação do plano será garantir a segurança em mercados e em áreas xiitas. Só os portadores das novas identidades poderão entrar nos distritos cercados. Os EUA planeiam, com a ajuda das forças de segurança iraquianas e com a construção de nove bases nesses 30 distritos, desmobilizar as milícias resistentes.

Mas os resistentes não são "de fora"; eles saem da própria comunidade que estará cercada. E, se não forem descobertos, vão receber também as novas identidades.

Os generais que construíram o novo plano de "segurança" para Bagdad foram os principais responsáveis pelo seminal - mas oficialmente "restrito" - manual de campo sobre contra-insurgência produzido pelo Exército em Dezembro.

Embora não defenda especificamente a campanha de "comunidades cercadas", um dos seus princípios é a unificação das actividades civis e militares, citando "operações civis e equipes de desenvolvimento revolucionário" no sul do Vietname, assistência a refugiados curdos no norte do Iraque em 1991 e as "equipes de reconstrução" no Afeganistão - um projecto amplamente criticado por associar cooperação militar e ajuda humanitária.

O novo manual é duro na sua análise do que as forças de contra-insurgência devem fazer para eliminar a violência no Iraque. "Com boa inteligência", diz ele, "contra-insurgentes são como cirurgiões cortando tecido canceroso, enquanto mantêm outros órgãos vitais intactos". Mas um ex-oficial do Exército americano elaborou suas próprias conclusões pessimistas sobre o projecto de "comunidades cercadas".

"No momento em que as tropas adicionais estiverem posicionadas os resistentes vão cortar as linhas de comunicação o máximo que puderem, forçando mais o uso de helicópteros, que são vulneráveis a ataques."

 Tradução da Folha de S. Paulo, adaptada pelo Esquerda.net

Termos relacionados: Internacional