"Os donos do mundo estão a convertê-lo num matadouro e num manicómio" diz Eduardo Galeano, que nesta entrevista fala do mundo, da América Latina e de imigração, confrontando sarcasticamente a história da colonização da América com a actual perseguição aos imigrantes. Manifesta também a sua opinião sobre Cuba.
O escritor uruguaio concedeu a entrevista a Martin Garrido da revista Teína de Valência.
Correm tempos de múltiplas doenças, aparentemente sem vacina e com sintomas perigosos. Como vê este tempo de guerras e emigrações?
Os donos do mundo estão a convertê-lo num matadouro e num manicómio. Dizem que a condição humana é assim. Pode ser. Não sei. Não me convencem. Se os nossos avós mais remotos fossem como somos agora, não teríamos durado nem o que dura um ratinho no mundo. Eles sobreviveram porque souberam partilhar a comida e defender-se juntos. Não se aniquilavam entre si. As formigas também não, e por isso, insignificantes como são, pesam agora tanto como todos nós. Não se matam entre elas. Nós sim. Perdemos a memória da solidariedade.
Neste aparente caos está latente a xenofobia, o racismo, a rejeição do outro. Parece que nunca o ser humano aprenderá a conviver como espécie.
É mau gosto citar-me a mim próprio, bem sei. Mas não resisto à tentação. Contesto-o com algo que escrevi no meu último livro, Bocas do tempo, e peço perdão:
A história que poderia ser:
Cristovão Colombo não conseguiu descobrir a América, porque não tinha visto e nem sequer tinha passaporte.
Pedro Álvares Cabral foi proibido de desembarcar no Brasil, porque podia contagiar com varíola, sarampo, gripe e outras pestes, desconhecidas no país.
Hernán Cortés e Francisco Pizarro ficaram-se pela vontade de conquistar o México e o Peru, porque não tinham autorização de trabalho.
Pedro de Alvarado esbarrou na Guatemala e Pedro de Valdivia não pôde entrar no Chile, porque não tinham certificados de registo criminal.
Os peregrinos do Mayflower foram devolvidos ao mar, porque nas costas de Massachussets não havia quotas de imigração por preencher.
Além de viajar pela América, as circunstâncias políticas do Uruguai forçaram-no a emigrar para a Argentina e depois para Espanha. Que diferenças encontra entre o emigrante político e o económico?
Eu fui exilado político. Não tive outro remédio senão mudar o mapa, porque não gosto de estar preso, não gosto de estar morto. Mas sempre tive bem claro que os que fogem por razões económicas passam muito pior que os fugidos à polícia. Nós tivemos, temos, perspectivas de mudança. Eles não.
Depois de estar fora, durante anos, escolheu voltar ao Uruguai e reencontrar-se com a sua gente. Há alguns meses afirmou num programa da TVE que ainda prefere viver no seu país. Porquê?
Escolhi viver em Montevideu, porque é uma cidade onde ainda se pode respirar e caminhar. Os dois direitos mais elementares, que a civilização moderna nega. Montevideu continua a ser afortunadamente pré-histórica. Oxalá permaneça assim.
Devido às crises económicas muitos latino-americanos viram-se forçados a emigrar para a Europa e para os EUA. Esta partida é uma escolha totalmente individual ou há que considerar a coacção que o contexto exerce sobre essas pessoas?
Vão-se embora não porque querem. Vão-se embora porque os põem fora. Os emigrantes são desesperados, gente que se cansou de tanto esperar e que, já sem esperança, foge. Passam os anos. A alguns corre bem, a outros nem tanto. Mas todos continuam, mal ou bem, confessem-no ou não, com as raízes ao sol. Os que vamos ao dentista sabemos que as raízes ao sol doem.
A esquerda ganhou força nos últimos tempos e alcançou triunfos eleitorais históricos em diversos países do sul, incluindo o Uruguai. Acredita que estes resultados representam uma prova de que a América Latina se fartou de injustiça? Em qualquer caso, que podem estes governantes fazer para abrir uma etapa de maior justiça social?
A primeira coisa que têm que fazer é cumprirem o que prometeram. Isto é o que mais me preocupa. As sondagens, as sérias, as de verdade, demonstram que a maioria dos jovens não acredita na democracia na América Latina. E não só as sondagens. Na última eleição no Chile, modelo de democracia se é que os há, dois em cada três jovens não votaram. Não se deram ao trabalho de se recensear, pela simples razão de que não acreditam nisso. Esta é, creio eu, a grande responsabilidade dos políticos latino-americanos. Os rapazes não querem circo e têm razão. Já chega de truques para enganar os otários.
Cuba foi uma bandeira na política social durante os últimos 50 anos. Um Estado que manteve viva a utopia romântica de um modelo social mais justo. Hoje parece aproximarem-se tempos de mudança na ilha. Como pensa que pode ser o pós-Fidel?
Não sei. Oxalá Cuba possa manter vivas as suas duas principais fontes de energia: a solidariedade, porque Cuba é o país mais solidário do mundo, e a dignidade, que Fidel incarnou, até agora, contra ventos e marés. Eu manifestei publicamente, em mais que uma ocasião, as minhas divergências com a revolução cubana, porque entendo que fez o que pôde e não o que quis, mas não posso comungar com a negação do direito à divergência e do direito à livre circulação das pessoas e das ideias. Mas enfim, a vida é assim. Continuo a acreditar, e penso que assim continuarei enquanto viver, que a verdadeira militância se exerce com base na liberdade de consciência e não com base no dever de obediência.
O Médio Oriente cambaleia: o Afeganistão e o Iraque em ruínas, a Palestina sem voz e no esquecimento, o Líbano em chamas, O Irão e a Síria expectantes. O Médio Oriente pode salvar-se? Há algum papel da América Latina neste sentido?
No Médio Oriente está-se a jogar o destino do mundo. A senhora Condoleeza fala de um novo mapa. Ela não o disse, mas quer dizer: que os países que têm petróleo se incorporem como novas estrelinhas na bandeira dos Estados Unidos, para que o membro mais querido da família continue a ser o que dorme na garagem. Nesta guerra geopolítica pelo domínio do petróleo, Israel desempenha um triste papel. Os seus sucessivos governos, desde há anos, fazem todo o possível para que o mundo acredite que Israel não é mais que uma base militar norte-americana. Eu não acredito nisso.
Enquanto o mundo concentra a sua atenção no Médio Oriente parece que uma vez mais se esqueceu um continente em constante agonia. Tornámo-nos imunes à hemorragia diária do continente africano?
Nenhuma terra do mundo foi tão maltratada, humilhada, sangrada, como África. Isso a que chamam Ocidente teria que começar por lhes pedir desculpas.