A família típica dos EUA está endividada até às orelhas. Segundo o Fundo da Reserva Federal, a dívida familiar é quase equivalente a 25% do valor bruto do património familiar, ou seja, a 136% do rendimento disponível. Depois da queda dos salários devido à inflação durante uma década, os norte-americanos hipotecaram as suas casas e usaram os seus cartões de crédito para cobrir os gastos de subsistência.
Don Monkerud, CounterPunch
Em 2005, os norte-americanos gastaram 42 mil milhões de dólares mais do que ganharam, e o relatório mais recente do Departamento do Comércio informou que o índice de poupança foi 1% negativo, o menor desde a Grande Depressão, uma queda de 11% desde a II Guerra Mundial. Os índices de poupança só desceram tão baixo quatro vezes. As outras duas foram durante a Grande Depressão, quando um quarto da força laboral estava no desemprego e os norte-americanos gastaram as suas poupanças em coisas essenciais como os alimentos e o aluguer.
Os actuais devedores aproveitam as taxas de juros mais baixas em 40 anos para, usando as suas casas ou salários como garantia, pedir dinheiro emprestado para comprar carros novos e fazer obras nas residências. Também pagam mais de 1,4 mil milhões em serviços das suas dívidas, ou seja, 10% do Produto Interno Bruto. Por si só, a indústria dos cartões de crédito gera mais de 30 mil milhões de dólares de lucros anuais,
Enquanto os negócios nos EUA continuarem a crescer, ainda que seja a ritmo lento, e os consumidores sentirem que terão dinheiro no futuro para os pagamentos mensais, há pouco motivo para preocupações, apesar de um certo pessimismo por parte de alguns economistas. O mesmo é verdade em relação à maciça dívida externa.
No âmbito nacional, cada cidadão deve quase 29 mil dólares, com um total colectivo de 8.700.769.194.975 dólares, aproximadamente 9 biliões. Os juros sobre o défice federal são agora a parte em crescimento mais rápido dos gastos federais, consumindo 220 mil milhões de dólares em 2006 e 270 mil milhões de dólares em 2008. Pela primeira vez desde a II Guerra Mundial, os EUA pagam agora mais aos credores estrangeiros do que o que recebem de investimentos no exterior.
Ao pagar estes juros, sobra menos dinheiro para programas internos, mas economistas defensores do livre-mercado afirmam que a dívida representa apenas uma pequena percentagem do Produto Nacional Bruto - 6% em 2005 - e o governo federal pode passar cheques a qualquer momento, arriscando-se apenas a uma pequena inflação, de maneira que a dívida nacional não é preocupante.
O fluxo de fundos para os mercados financeiros dos EUA deprimem as taxas de juros nos EUA e permitem que o país mantenha imensos desequilíbrios comerciais e uma alta dívida nacional, porque não há outro sítio onde os países possam investir com segurança para receber os rendimentos obtidos nos mercados americanos. Enquanto os EUA continuarem a importar bens baratos da China e da Índia, as taxas de juros noutros países continuarem baixas, os preços do petróleo não aumentarem, e não houver transtornos sérios, a maioria dos economistas prevê que a economia provavelmente vai manter o seu curso e poderá absorver choques como o furacão Katrina e os imensos gastos da ocupação do Iraque.
Se os EUA não pudessem continuar a pedir emprestado como estão a fazer, as taxas de juros aumentariam vertiginosamente, os valores das casas desmoronariam, as pessoas perderiam os seus postos de trabalho e os serviços governamentais teriam de ser reduzidos drasticamente.
Um estudo do Instituto Brookings sobre os constantes défices orçamentais dos EUA disse: "Que não se tomem medidas mais cedo que tarde, no entanto, só torna mais difícil encarar o problema sem considerável instabilidade, aumenta a probabilidade de desajustes fiscais e financeiros nalgum momento no futuro, e corre o risco de limitar ainda mais a flexibilidade política no futuro."
Um perigo ainda maior citado por muitos economistas é a dívida a longo prazo criada pelos défices da Segurança Social e da Medicare. O presidente da Reserva Federal, Ben Bernanke, advertiu o Congresso em Janeiro que quanto mais esperarmos para encarar o financiamento destes programas, "mais severo, mais draconiano, mais difícil será o ajuste."
A Divisão de Orçamento do Congresso considerou que a Segurança Social e a Medicare vão aumentar de 8,5% do produto económico anual para 10,5%, até 2015 e para 15% em 2030. Este aumento significaria que a proporção da dívida federal em mãos públicas aumentaria dos 35% actuais para 100% em 2030. Bernanke advertiu que uma dívida tão elevada desaceleraria o crescimento económico, reduziria o investimento privado e levaria a uma queda da confiança entre consumidores, empresários e investidores.
A pressão da dívida e das taxas de juros mais elevadas levaria a uma grave recessão que poderia limitar drasticamente o consumo interno e conduzir a um desemprego maciço. Combinada com iminentes desastres climáticos causados pelo aquecimento global, vastas áreas do país poderiam ficar sem energia eléctrica, alimentos e habitação durante longos períodos.
A perda de posição no mundo ou o terrorismo dentro dos EUA poderiam ter um impacto negativo sobre a psique dos norte-americanos, levando a uma confiança ainda maior no poder militar, à guerra permanente, e a uma limitação draconiana das liberdades civis.
Por outro lado, a economia dos EUA poderia continuar a portar-se como o faz actualmente, com os ricos a tornarem-se mais ricos e os pobres mais pobres, e a classe média levada a cair para uma classe sócio-económica inferior, fomentando o ressentimento e as disputas por recursos públicos mais escassos. Poderiam aparecer bairros de lata, fazendo com que os EUA se parecessem mais com o Haiti ou com a América do Sul.
Não é um guião optimista que agrade aos americanos mas, considerando a volatilidade dos nossos tempos, é impossível assegurar uma economia estável. A economia mundial da actualidade é tão complexa, interrelacionada e global que ninguém pode prever o que vai acontecer.
Don Monkerud: [email protected].