Lewis "Scooter" Libby, ex-chefe-de-gabinete do vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, foi ontem considerado culpado por um júri americano por obstrução de Justiça, falso testemunho e por mentir sob juramento na investigação das causas da identificação pública de uma agente da CIA. A sentença será anunciada em 5 de Junho. Libby poderá ter uma pena de um ano e meio a três anos de prisão.
Trata-se do mais alto funcionário da Casa Branca a tornar-se réu na recente história dos Estados Unidos desde o caso Irã-contras. Libby participou activamente na montagem de uma rede de intrigas para se vingar de um diplomata americano que em 2003 contestou a versão do presidente George W. Bush de que Saddam Hussein tinha planos de fabricar uma bomba atómica.
A presidente da Câmara dos Deputados, a democrata Nancy Pelosi, afirmou que o processo "forneceu um retrato constrangedor do círculo íntimo do governo".
Tudo começou quando a CIA enviou em 2002 ao Níger o diplomata Joseph Wilson para verificar se o governo local estava a vender urânio a Saddam. Wilson concluiu que não. Mesmo assim, a Casa Branca manteve a versão de que Saddam se abastecia do combustível naquele país africano.
Indignado, o diplomata publicou em Julho de 2003 um artigo em que acusava o círculo de Bush de distorcer os fatos para justificar a invasão do Iraque. Wilson é casado com uma ex-agente da CIA, Valerie Plame, então destacada para o sector de inteligência nuclear. Alguém na Casa Branca teve a ideia de "queimá-la" para se vingar de Wilson. Acontece que a identificação de um agente secreto por um funcionário do governo é crime.
O trabalho foi feito por Libby, em conversas reservadas com jornalistas. Quando o escândalo explodiu, há três anos, ele foi interrogado pelo FBI, a polícia federal, e disse que, "por não ter boa memória", não se lembrava com quem conversara e de quem recebera ordens.
O promotor interrogou jornalistas que publicaram ou receberam informações sobre Plame. Judith Miller, então repórter do New York Times, ficou 85 dias presa por recusar-se a revelar a identidade da sua fonte.
O promotor apurou que também participaram da operação de "queima" de Valerie Plame o então subsecretário de Estado Richard Armitage, e que o colunista Robert Novak, depois de receber dele a informação, a confirmou com Karl Rove, assessor político de Bush.
Um dos advogados de Libby, Theodore Wells, afirmou durante o processo que o seu cliente era um bode expiatório, numa operação destinada a proteger Rove, que não poderia ser afastado da Casa Branca por ser um homem-chave na campanha para a reeleição do presidente, em 2004. Mas a investigação não apurou se Bush sabia e autorizou a operação de "queima" de Valerie Plame.