O presidente Xanana Gusmão admitiu ontem instaurar o Estado de Sítio em Timor "caso medidas normais não sejam suficientes para aliviar a pressão criminal actualmente existente". Xanana referia-se aos incidentes de rua que vêm causando insegurança em Díli desde a madrugada de sábado para domingo, em resposta à operação de captura do major Alfredo Reinado por tropas australianas.
Numa declaração ao país, transmitida pela rádio e televisão timorenses, Xanana Gusmão considerou que "O país está a assistir a uma certa anarquia e a uma falta de vontade de certos segmentos da sociedade em contribuir para a estabilização do país". O presidente timorense advertiu que "o Estado vai utilizar todos os mecanismos legais disponíveis, incluindo o uso da força, quando necessário, para pôr fim à violência, à destruição de bens e à perda de vidas e restabelecer rapidamente a ordem pública".
Os apoiantes de Alfredo Reinado, sobretudo jovens, causaram graves incidentes na capital, com apedrejamentos, barricadas, corte de ruas, queima de pneus e ataque a algumas residências e edifícios do Governo. Hoje de manhã, a Escola Portuguesa de Díli esteve fechada e os professores portugueses não deram aulas. A embaixada de Portugal mantém a recomendação para que a comunidade portuguesa fique em casa e se desloque o estritamente necessário.
As tropas internacionais destacadas em Timor-Leste, sob o comando da Austrália, tentaram neste fim-de-semana capturar Reinado e os seus homens, que estavam cercados há dias na cidade de Same, a 80 quilómetros a sul de Díli. A operação resultou na morte de quatro rebeldes, mas Reinado conseguiu escapar e o seu paradeiro actual é desconhecido. Também não se sabe onde está o deputado independente Leandro Isaac, que desde o início do cerco a Same se encontrava com Alfredo Reinado.
Em contacto com a agência de notícias espanhola EFE, o ex-tenente timorense Gastão Salsinha ameaçou "estabelecer um plano de acção apoiado pela juventude da selva e de Díli" para continuar o conflito através de uma luta de "guerrilha". Salsinha disse que estava muito perto de Reinado quando os soldados australianos atacaram. "Consegui escapar com os meus quatro seguranças e alguns amigos de Same após o ataque", acrescentou.
Também à EFE, Reinado disse: "Luto pela justiça junto ao povo. O meu poder vem do povo e estou com o povo".