A juíza italiana Caterina Interlandi decidiu levar a julgamento, num tribunal de Milão, 26 norte-americanos, quase todos agentes da CIA, e cinco italianos, acusados de terem participado no rapto do ex-imã egípcio Abu Omar em 2003. Trata-se da primeira vez que um tão grande número de agentes norte-americanos é levado a julgamento num país aliado. Abu Omar, libertado no passado domingo pelas autoridades egípcias, desabafou:"Bateram-me, deram-me electrochoques, sodomizaram-me. Agora, quero esquecer esse horror"
Depois dos mandatos de captura ordenados pela justiça alemã a 13 agentes da CIA, pelo rapto, também em 2003, do alemão de origem libanesa, Khaled el Masri, desta feita foi a vez de uma juíza irtaliana levar a julgamento 26 americanos (25 dos quais agentes da CIA) pelo rapto e tortura do cidadão egípcio Abu Omar, na altura acusado de terrorrismo. Cinco destacados agentes secretos italianos são igualmente acusados deterem participado no rapto.
O início do processo em julgado está marcado para 8 de Junho. Abu Omar, libertado no Domingo passado no Egipto, lembrou que em 2003 foi raptado por dois indivíduos que saíram de uma forgoneta, agarraram-no e enfiaram-no dentro do veículo. "Amarraram-me as mãos e os pés e, ao fim de algumas horas de viagem, meteram-no num avião" na base norte-americana de Aviano (segundo a imprensa italiana). Levaram-no para o Cairo, numa prisão dos serviços secretos, onde, diz, o torturaram e por três vezes tentou suicidar-se: "Bateram-me, deram-me electrochoques, sodomizaram-me. Agora, quero esquecer esse horror". Segundo a agência Lusa Abu Omar anunciou a intenção de apresentar queixa contra o ex-chefe do governo Silvio Berlusconi "pela sua implicação no rapto enquanto chefe do governo (na altura dos acontecimentos) e por ter permitido à CIA" capturá-lo, para obter uma indemnização de 10 milhões de euros.
Romano Prodi, Primeiro Ministro Italiano, não parece ter gostado da decisão da juíza de Milão, apelando ao Tribunal Constitucional para que intervenha no caso por considerar que a procuradoria-geral de Milão excedeu-se nas suas competências e violou o segredo de Estado decretado pelo seu antecessor, Sílvio Berlusconi, sobre o sequestro de Abu Omar. Se o Tribunal Constitucional validar o recurso, o que pode acontecer a partir da próxima semana, segundo os meios de comunicação social, o processo sofrerá atrasos. Por seu turno, o Ministro dos Transportes italiano, António Di Pietro (que ficou famoso por dirigir a operação «Mãos Limpas»), considera que Prodi deve pedir a extradição dos agentes da CIA.
Enquanto a CIA recusou comentar o caso, o general Pollari (único arguido que apareceu na audiência preliminar) disse que os serviços secretos italianos não participaram no alegado rapto e salientou que não se pode defender porque os documentos sobre o caso foram excluídos do processo por serem considerados "segredo de Estado".