O vice-ministro da Informação do Paquistão, Tariq Azeem, declarou em entrevista à Associated Press que o presidente, general Pervez Musharraf pode decretar o estado de emergência no país, devido a "ameaças internas e externas" e à situação tensa nas regiões da fronteira com o Afeganistão.
Canais de televisão privados anunciaram que a declaração de estado de emergência estaria iminente, mas um porta-voz do governo negou. Contudo, círculos próximos de Musharraf confirmaram à Reuters, que ele estaria a ponderar essa hipótese.
Musharraf enfrenta uma difícil situação interna. Em Março passado demitiu o chefe do Supremo Tribunal, depois de meses de confronto o juiz foi confirmado pelo Supremo. A situação agravou-se ainda mais com o assalto à Mesquita Vermelha e o agravamento do conflito com os radicais islâmicos.
Musharraf pretende ser reeleito presidente, entre 15 de Setembro e 15 de Outubro, e continuar à frente do exército.
O New York Times relata que os paquistaneses estão revoltados com o exército e o presidente: "Antes as nossas crianças saudavam os nossos soldados, quando passavam. Agora cospem-lhes", descreve um aldeão, segundo o artigo do jornal norte-americano. O NYT enfatiza dizendo que este é um sentimento expresso abertamente por estes dias no Paquistão, "raro num país onde o exército há muito que tem dominado tudo, incluindo o medo de falar".
Um professor de ciência política da universidade de Lahore disse aos jornalistas do NYT: "O consenso que está a emergir no Paquistão é que os militares não devem ter papel na política". E acrescentou: "os militares perderam o apoio nos meios de comunicação, na intelectualidade e nos políticos. Como instituição está realmente isolada. A sua capacidade de dominar e controlar o Paquistão não é mais possível".
As sondagens revelam também uma drástica perda de popularidade de Musharraf e um aumento do descontentamento com o governo e o exército, mesmo antes do assalto à Mesquita Vermelha.
O vice-ministro da Informação disse que "a possibilidade de decretar estado de emergência está em discussão, assim como outras possibilidades". "Não posso dizer que será esta noite, amanhã ou mais tarde. Esperamos que não aconteça", acrescentou Azeem.
A questão será discutida numa reunião presidida por Musharraf, nesta quinta-feira. Azeem salientou que as ameaças dos Estados Unidos de lançar uma operação nas regiões do Paquistão fronteiras ao Afeganistão e os recentes ataques a chineses no país são alguns dos factores a serem tidos em conta, "a situação na fronteira e os atentados suicidas também são motivo de preocupação", sublinhou.
O estado de emergência limitaria o poder dos tribunais, restringiria liberdades e poderia permitir que o presidente adiasse as eleições legislativas nacionais, marcadas para o final deste ano. Mas correria o risco de agravar muito mais a conflitualidade, podendo criar uma situação incontrolável para os chefes militares.
A ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, da oposição ao general, declarou que: "O estado de emergência é um grande passo, e o governo devia pensar duas vezes antes de decretá-lo. Espero que uma medida tão drástica não seja tomada. Será um retrocesso para o país."