Há uma semana, no dia 28 de Janeiro, as forças de segurança iraquianas e os militares dos EUA anunciaram que tinham abatido 263 «terroristas da Al Qaeda» perto da cidade de Najaf, num ataque que provocou 210 feridos e 502 detidos. Do lado das forças governamentais, houve 25 baixas, além de um helicóptero americano e dos seus tripulantes. Vários sites da Internet iraquianos contam uma história completamente diferente: a desproporção do combate indicia um verdadeiro massacre. Entretanto, o Governo Iraquiano bloqueou esses sites e proibiu os sobreviventes de falarem aos jornalistas. O jornal britânico The Independent e a agência IPS denunciaram a versão oficial.
Segundo a agência noticiosa IPS, que teve acesso a vários depoimentos de sobreviventes e a alguns sites da Internet iraquianos, o que se passou na estrada que liga Diwanya a Najaf foi um verdadeiro massacre.
No dia 28 de Janeiro centenas de peregrinos deslocavam-se à cidade Santa de Najaf para participar na mais importante festividade religiosa xiita, a Achura. Nesta, como noutras romarias, é proibida a utilização de carros ou outros veículos.
No entanto, como o chefe da tribo Hawatim se encontrava doente, ele e a mulher deslocaram-se de carro, um super toyota de 1982. Os restantes membros desta tribo xiita vinham a pé, seguindo o seu líder, Nayf Al-Hatemi.
Ao chegarem ao posto de controlo, a uma milha de Najaf, os militares e polícias iraquianos, confrontados com uma viatura transportando o líder da tribo Hawatim, dispararam imediatamente, assassinando Mayf Al-Hatemi, a sua mulher e o motorista. Foi então que os restantes membros desta tribo, armados porque viajavam de noite, se aproximaram dos militares iraquianos para lhes explicarem que se tratava de um equívoco, algo que estes não «compreenderam» e continuaram a disparar.
Em resposta, os restantes membros da tribo Hawatim tentaram assaltar o posto de controlo para vingar a morte do seu líder.
Membros de uma outra tribo chamada Khazaal vinham imediatamente atrás e tentaram acabar com a matança, mas recuaram perante o tiroteio.
Entretanto, as forças iraquianas pediram reforços, alegando que estavam a ser atacadas pela Al Qaeda com armas potentes. Quando os reforços chegaram, começaram a massacrar a tribo Hawatim. Nesse momento chegaram helicópteros americanos, avisando «Terroristas, rendam-se ou bombardeamos a área». No meio do tiroteio, um dos helicópteros foi abatido e logo de seguida a zona foi bombardeada e o massacre completado.
O Ministro do Interior iraquiano Jawad al-Bolani anunciou às 9h da manhã de domingo que Najaf estava a ser atacada pela Al Qaeda. Imediatamente a seguir, o Ministro da Segurança Nacional anunciou que os mortos eram membros da seita messiânica liderada por Ahmad Al-Hassani, que se intitula «Os soldados do Céu», e que teriam a intenção de assassinar o Grande ayatollah Ali Al-Sistani. No entanto, foi apenas mais tarde que esta seita se juntou aos combates, servindo de álibi às autoridades iraquianas para explicar o massacre.
As duas tribos que seguiam para Najaf são ambas xiitas e opõem-se ao governo iraquiano, que consideram ser pró-iraniano e de promover a violência sectária no país
Ahmed, membro da tribo Al-Khazali afirmou: «As nossas duas tribos têm a forte convicção que os iranianos estão a provocar a violência sectária no Iraque, que é contra as crenças de todos os muçulmanos, e por isso anunciámos uma aliança com os irmãos sunitas contra a violência sectária no país. Isso não contentou o nosso Governo pró-iraniano»
Um agricultor da zona disse à IPS: «Helicópteros americanos participaram no massacre. Chegaram cedo para matar os peregrinos sem hesitação, mas nunca cá estão quando se trata de nos ajudar no que precisamos».