O genocídio no Darfur e a situação actual no terreno

06 de maio 2007 - 1:58
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Campo de refugiados no sul de DarfurNa passada 5ª feira, a Assembleia da República aprovou, por unanimidade, um voto de condenação do genocídio no Darfur, proposto pelo Bloco de Esquerda. 200 mil mortos, 2 milhões de pessoas brutalmente deslocadas das suas casas, 3,5 milhões de pessoas dependentes da ajuda internacional para continuarem a subsistir, são os números do brutal genocídio, como é assinalado no voto aprovado.

Publicamos aqui uma entrevista com Gabriel Trujillo, responsável adjunto dos programas da organização Médicos sem fronteiras (MSF) no oeste de Darfur, que regressou recentemente de uma visita de várias semanas à província sudanesa. A entrevista foi publicada em 23 de Março de 2007 no site francês dos MSF.

Que pensas da campanha lançada em França e noutros países que pede uma intervenção armada e a construção de corredores humanitários?



Para começar, a descrição que fazem da situação não corresponde à realidade que observei no terreno. E a intervenção armada, muitas vezes apresentada como uma solução miraculosa, levanta inúmeras questões. Face à recusa do regime sudanês, significaria declarar-lhe guerra.



Intervir militarmente, em nome do bem estar das populações, salda-se frequentemente por muitas vítimas entre os civis e torna além disso muito difíceis, ou mesmo impossíveis, as operações de socorro, como no Afeganistão ou no Iraque.



Quanto aos corredores humanitários, é uma proposta absurda: já existe uma ajuda massiva, posta em prática por uma dezena de milhar de trabalhadores humanitários.



Esta campanha, à semelhança da que foi lançada nos Estados Unidos, acontece no momento de uma importante batalha eleitoral [presidenciais francesas]. Temo que a causa de Darfur seja apenas uma peça na campanha presidencial.



Em que está errada a descrição da situação no Darfur feita pelo colectivo “Urgência Darfur”?



Hoje, falar de massacres de grande amplitude, de genocídio, de fome e de epidemias massivas numa região privada de assistência é totalmente inoportuno. Existiram massacres de grande amplitude no Darfur, mas em 2003-2004 quando da campanha de terror lançada pelo regime sudanês contra os rebeldes e as populações civis acusadas de os apoiar. Já não estamos perante uma situação de fome ou de epidemias massivas.



No entanto, o contexto securitário é preocupante. Paradoxalmente, a guerra teve um acréscimo de intensidade, desde os acordos de paz de Maio de 2006, e a situação evolui para uma fragmentação dos protagonistas do conflito: cisão dos grupos rebeldes, mudança de alianças no seio das milícias, algumas juntando partidos rebeldes não signatários dos acordos de paz.



Esta fragmentação torna a leitura do conflito muito complexa, com enfrentamentos esporádicos e uma insegurança generalizada que atinge toda a gente, incluindo a ajuda humanitária. Assim, o número de agressões contra pessoal humanitário aumentou nos últimos nove meses. Estes ataques visam intimidar ou apoderar-se dos meios logísticos do pessoal da ajuda humanitária para apoiar o esforço de guerra e são hoje levados a cabo por todas as partes em conflito.



Qual é a situação das populações civis?



A situação não é homogénea de uma a outra região, numa província com o tamanho da França. Mas, globalmente, a guerra continua a provocar um elevado número de mortos e uma proporção muito importante da população darfuriana vive sempre numa grande precariedade e continua a sofrer com a violência. A missão das Nações Unidas no Sudão regista em média 200 mortes violentas de civis por mês, desde meados de 2006, com um pico de 400 pessoas mortas em Setembro, Outubro e Novembro. Além disso, dois milhões de pessoas estão instaladas nos campos de refugiados, sem esperança de melhoria a curto prazo, o que é dramático.



Como responde o sistema de ajuda internacional às necessidades das populações civis?



A maior parte dos grandes campos, que acolhem a maior parte das populações deslocadas, estão situados na zona governamental. Recebem ajuda há três anos através de uma das mais importantes operações dos últimos vinte anos. Os 13000 trabalhadores humanitários (dos quais 2000 dos MSF), empregados das 80 ONG's e das 12 agências das Nações Unidas presentes no Darfur, trabalham principalmente nestes locais. Assim, nos campos de oeste de Darfur como Mornay, ou Zalingei e Niertiti, de onde acabo de regressar, a situação sanitária e nutricional está correcta e a taxa de mortalidade claramente abaixo dos limiares de urgência. Como em todas as situações de guerra e de desenraizamento, isto não significa evidentemente que as condições de vida das pessoas deslocadas sejam boas: vivem numa grande precariedade, não circulam fora dos campos, sob pena de serem atacadas. Mas dizemos que a ajuda cumpre o seu primeiro objectivo: fornecer uma assistência vital a mais de dois milhões de pessoas e evitar uma catástrofe em termos de mortalidade.



Que acontece às outras populações que não vivem nestes grandes campos?



Outras pessoas deslocadas vivem em campos mais pequenos que acolhem 10000 a 15000 pessoas, situados em zonas “cinzentas”, isto é, onde não existe delimitação clara sobre quem controla a zona. Estas populações sofrem dura violência, devido aos confrontos entre as diferentes partes em conflito. A forte insegurança que aí reina limita a presença de organizações humanitárias e a ajuda não pode ser prestada de forma continuada. As zonas rebeldes são também inacessíveis, excepto no sul do Djebel Marra, onde podemos intervir na região de Kutrum (oeste de Darfur) e na de Muhajiria (sul de Darfur). Assim, as zonas onde se desenrolam confrontos não são acessíveis à ajuda humanitária. Portanto é muito difícil saber o que lá se passa exactamente. Todavia, estas regiões são zonas rurais pouco povoadas e em grande parte esvaziadas das suas populações, pela política de terra queimada levada a cabo pelas forças governamentais em 2003-2004. Por fim, enquanto são frequentemente apresentados como os principais culpados das exacções, os nómadas, que também são vítimas dos conflitos intercomunitários, estão fora dos circuitos de ajuda. Nós próprios temos tido de limitar as nossas actividades, a partir de El Geneina e de Zalingei, por causa da forte insegurança que lá reina.



Qual é a perspectiva para os programas dos MSF?



Desde finais de 2003, nós trabalhamos para os deslocados de três grandes campos de refugiados do Darfur Oeste, em Mornay, Zalingei e Niertiti. Encontramo-nos igualmente em Kutrum, no sudoeste do Jebel Marra. Mas a insegurança dificulta o nosso auxílio. Em Setembro último, uma das nossas equipas foi vítima de um ataque muito sério, na zona que está sob controlo governamental, e a reacção das autoridades, até ao presente, não esteve à altura da gravidade dos factos. Decidimos portanto parar os nossos movimentos por estrada. Deslocamo-nos apenas por helicóptero, o que limita a nossa acção e torna muito difíceis, mesmo impossíveis, as evacuações sanitárias. Hoje, queremos readaptar a nossa intervenção, reduzindo-a nos campos onde estão presentes outras organizações. Em Mornay, por exemplo, 4 outras organizações de auxílio prestam cuidados médicos. Já fechámos as consultas externas e começámos a reduzir as hospitalizações, para, a prazo, deixarmos de ter obrigações neste campo. Tal como em Zalingei, o hospital governamental está a funcionar melhor, médicos do ministério da Saúde estão presentes no conjunto dos serviços. Pelo contrário, em Niertiti e arredores, vamos tentar desenvolver as nossas actividades porque lá somos a única organização médica presente. Reduzindo a nossa presença nas zonas que concentram um grande número de organizações de socorro, ficamos com a possibilidade de lançar missões exploratórias em regiões isoladas, fora dos circuitos de ajuda, para avaliar as necessidades da população e tentar responder-lhes.

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