A França dos subúrbios

27 de outubro 2006 - 21:30
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FRANCESA SÓ NO QUÉBEC

f_francaise-juste-au-quebecHá um ano, os acontecimentos em França, nos subúrbios de Paris, espantaram pela sua violência e mostraram o reaccionarismo de Sarkozy . Um ano depois, os problemas parecem manter-se, a violência policial é diária, carros foram de novo há dias incendiados. Como contributo de reflexão, traduzimos este artigo de Myriam Laabidi, socióloga, doutoranda em sociologia da educação e investigadora no Québec, publicado em 19 de Novembro de 2005 no site de Hip hop do Québec hhcc.com 

Francesa só no Québec



Comecei a sentir-me francesa assim que deixei o Hexágono para imigrar para o Québec. Nunca antes. Será que os acontecimentos que tiveram lugar nos últimos dias me espantam? Não. É quase a melhor das campainhas de alarme que os jovens da minha comunidade podiam fazer soar. A este respeito, e para compreender a situação dos jovens provenientes da imigração, deixem-me dar-vos o meu testemunho.Filha de imigrantes marroquinos, nasci no Sul da França nos anos setenta. Os meus pais acreditaram que, como se é imigrante, a única forma de lugar na sociedade é ser bem sucedido na escola. Foi o que eu fiz. Os dez anos que passei na universidade permitiram tornar-me socióloga. Mas antes de lá chegar choquei infelizmente com numerosos obstáculos que poderiam ter-me desencorajado. Tropecei muitas vezes com professores com espírito e mentalidade colonialista própria do século XIX e que tinham a meu respeito um comportamento dos mais desajeitados e desprezíveis. «Os seus pais falam francês em casa?» perguntou-me um dia um professor de matemática, pensando que assim tocava no meu problema. Ele ignorava que os meus pais tinham sacrificado a sua língua materna, o árabe, e trocado pelo francês, a língua da mobilidade e do êxito social. A língua era o mau argumento para explicar as minhas dificuldades em matemática, meu caro amigo.

Antes de vir viver para o Québec passei 24 anos em França a tentar integrar-me e a justificar sempre os meus actos, os meus gestos, pela simples razão de que sou filha de imigrantes. Cada um dos meus êxitos na sociedade necessitou que eu trabalhasse três vezes mais que a média das pessoas e tive de provar constantemente que eu era capaz de ter sucesso. Estava em terreno minado e certas referências atingiam-me directamente no coração: «Sabes Myriam, em geral eu gosto dos árabes, mas tu és diferente». Contudo, o que é que me diferenciava da juventude francesa dos subúrbios em que a maioria é proveniente da imigração magrebina? Eu também sou, o meu pai veio para França após a Segunda Guerra Mundial contribuir para a reconstrução.

Só com os anos e com a distância é que me dei conta que a França, pátria que me deu (na ponta dos dedos e com desdém) a sua nacionalidade, estava assente num barril de pólvora. A discriminação e a segregação são duas práticas que são legitimadas e que regem as relações quotidianas entre os indivíduos em França. Para empregar termos fortes é quase normal para os franceses "puro sangue" denegrir as comunidades da África do Norte e Negra e é evidente para estes que são mal tratados. "É normal não entrar na discoteca, não encontrar trabalho e casa, somos árabes ou negros merecemos isso". Sim senhoras instituições republicanas, há uma parte da vossa França que é fatalista, derrotista e que se subestima porque vocês consideram as populações que a constituem como seres inferiores. Os milhões de franceses provenientes da imigração magrebina e africana são sub-humanos? Eles são ridicularizados, amontoados e guetizados numa França que não é sua. Por causa deste apartheid numerosos jovens de diferentes origens étnicas nunca conviveram lado a lado. Digamos as coisas como são: os Franceses-franceses preferem os seus cães aos seus concidadãos das minorias étnicas. Como exemplo os excrementos dos seus companheiros caninos são muitas vezes apanhados por estes últimos.

A França não tem vergonha do que acontece? O planeta aponta-a a dedo. Certamente todos os políticos e todos os intelectuais estão de acordo em denunciar estas violências, o problema dos bairros desfavorecidos, o desemprego e a conjuntura económica e social. Mas assim que a discriminação racial é abordada instala-se a política de avestruz. Ninguém tem a coragem de dizer: A FRANÇA É RACISTA, simplesmente. Porque é racista? A origem do comportamento é bastante nebulosa, uns explicam pela mentalidade colonialista da França, outros pelos problemas económicos que a afligem.

Apesar de tudo é preciso encarar soluções para redefinir a identidade francesa e sobretudo o que significa ser francês. A única solução a curto prazo que entrevejo é aplicar políticas de discriminação positiva que, por obrigação e com firmeza, obriguem as instituições a ter, no seu grupo, pessoas provenientes das minorias étnicas, um pouco como na América do Norte e na África do Sul. Combater os preconceitos pela repressão, nada mais simples. Com competência e formação igual, obriga-se os nossos compatriotas a se misturarem e se conhecerem.

Por fim, como explicar que eu só me tenha sentido francesa quando desembarquei no Québec? Assim que fecho os olhos e que recordo a minha infância, revejo as minhas escapadelas à padaria do canto da minha Catalunha querida. E é em francês e em França que estão as minhas recordações, apesar de tudo...

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