QUANDO FALHA TUDO O RESTO... EXECUTA-SE O DITADOR
Durante os últimos anos, uma jovem de cerca de 25 anos mantém o blog Baghdad Burning, onde escreve relatos do dia-a-dia de um país ocupado e dividido pela guerra civil. O blog já venceu prémios de jornalismo (3º lugar do prémio Lettre Ulysses para a arte de reportagem), e indicado para outros (Prémio Samuel Johnson para a Não-ficção). Neste post, traduzido pelo Esquerda, ela relata a farsa que foi o julgamento do ditador e pergunta: será mesmo o melhor momento de o tornar um mártir?
Quando falha tudo o resto... Executa-se o ditador
É tão simples quanto isso. Quando os soldados americanos são mortos às dezenas, quando o país ocupado ameaça partir-se em pequenos países, quando há milícias e esquadrões da morte vagueando pelas ruas e se pôs um grupo de Mulás no poder - executa-se o ditador.
Todos esperavam este veredicto desde o primeiro dia do julgamento. Houve um pequeno interlúdio quando, com o primeiro juiz, pensou-se que afinal fosse ser um julgamento coerente, onde os iraquianos pudessem ouvir as alegações e ver o que ia acontecer. Mas logo tudo acabou com as primeiras testemunhas falsas da acusação. O que se seguiu foi tão ridículo que é difícil de acreditar até hoje.
O som desaparecia de repente quando a defesa ou um dos arguidos se levantava para falar. Ouvíamos testemunhas mas ninguém podia vê-las - escondidas atrás de uma cortina, com as vozes alteradas. As pessoas que supostamente tinham morrido no incidente de Dujail apareceram muito vivas.
Trouxeram juiz após juiz para o julgamento, porque os que estavam lá eram vistos como justos de mais. Não tinham instantaneamente condenado os arguidos (mesmo que fosse só para o bem dos média). A pièce de resistance foi o último juiz que desencantaram. A sua reputação só se compara à de Chalabi - um conhecido patife e assassino que fugiu para o Irão para escapar não à condenação política, mas à fúria do próprio pai, depois de lhe ter roubado dinheiro do restaurante de sua propriedade.
Por tudo isto sabíamos muito bem o que iria acontecer (Maliki foi à televisão 24 horas antes do veredicto para dizer às pessoas que não se "rejubilassem" muito). O que me surpreende agora é a suprema estupidez do actual governo iraquiano. O momento é ridículo - imediatamente antes das eleições [do congresso americano]? Que conveniente para Bush. Hoje, o Iraque atravessa o pior momento desde a invasão e do início da ocupação. Hoje, Abril de 2003 parece um mês de lua-de-mel. Será este o melhor momento para executar Saddam?
Estou mais do que preocupada. Esta é a cartada final de Bush. As eleições vieram e puseram no poder um bando de ladrões (não, não - estava a dizer em Bagdad, não em Washington). A Constituição, que parece ter-se afogado no rio do sangue iraquiano desde as eleições, foi esquecida. Só a desenterram quando os Fantoches querem dividir o país. A reconstrução é a aspiração de uma outra vida: juro que já não queremos edifícios e pontes, bastam segurança e um Iraque unido. As coisas devem estar a deteriorar-se para além da imaginação, se Bush precisa usar a carta "Executem o ditador".
O Iraque nunca esteve tão mal em décadas. A ocupação é um fracasso. Os vários governos pró-americanos e pró-iranianos iraquianos são um fracasso. O novo exército iraquiano é uma piada mortal. Será mesmo a hora de transformar Saddam num mártir? As coisas estão tão mal que até os iraquianos pró-ocupação estão a recuar do seu inicial frenesim "Amamos a América". Laith Kuba (i.e. o sr. Charroco, devido à sua enorme boca e olhar estúpido) foi recentemente à BBC dizer que isto era só o início da justiça, que as pessoas responsáveis por tirar vidas actualmente também devem ser levadas diante da justiça. Parece que se esqueceu que ele mesmo foi um dos que apoiaram a guerra e a ocupação, e membro importante do mais assassino dos governos pró-americanos. Mas a história não esquecerá o sr. Kubba.
O Iraque viu manifestações contra e a favor do veredicto. Os manifestantes pró-Saddam foram atacados pelo exército iraquiano. Esta é a nossa média livre de hoje: os canais que mostraram as manifestações foram fechados. As forças de segurança iraquiana invadiram-nos prontamente. Benvindos ao novo Iraque. Eis algumas imagens dos canais Salahiddin e Zawra:
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| Canal Zawra - A legenda diz: Bagdad: o canal de satélite Zawra interrompeu a emissão por ordem do governo. | O ecrã verde do canal Salahiddin, que foi tirado do ar pelo governo, diz: "Canal de Satélite Salahiddin." |
Não se trata dos homens - os presidentes vêm e vão, os governos vêm e vão. É a frustração de sentir que todo o país e cada iraquiano dentro e fora dele estão à mercê dos políticos americanos. É a raiva de se sentir um mero peão de xadrez, que será movido para trás e para a frente à vontade. É ter um governo tão cego e descuidado acerca das necessidades do seu povo que não sente a necessidade de agir. E são as mortes. Os milhares de mortos e os agonizantes, com Bush sorrindo e mentindo acerca do processo, e ganhando num país onde todos os iraquianos que vivem fora da Zona Verde estão a perder.
Uma vez mais... o momento escolhido é impecável - dois dias antes das eleições para o Congresso. E se não conseguem enxergar isto, desculpem, são estúpidos. Vamos ver até que ponto é que Bush doura a pílula do "sucesso" nos próximos discursos.
Uma nota final. Li algures que algumas das famílias dos soldados americanos mortos estão a visitar o Norte do Iraque para ver "por que morreram os seus filhos e filhas" Se é esse o objectivo da visita, então, "Senhoras e senhores - à vossa direita está o Ministério Iraquiano do Petróleo, à vossa esquerda a refinaria Dawry... Cada um de vocês recebe isto, um saco de presente contendo um poster colorido de Al Sayd Muqtada Al Sadr (Longa Vida e Prosperidade), uma t-shirt do Ayatollah Sistani e um mapa do Irão, redesenhado para aparecer a República islâmica do Sul do Iraque. Além disso... Ei! Tu - a mulher aí atrás - isso que eu estou a ver é uma mecha de cabelo? Cubra isso ou fique em casa.
E é por isto que eles morreram.

