Tailândia

23 de setembro 2006 - 0:41
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O VELHO REI ESTÁ POR TRÁS DO GOLPE

tailand060922Por Martino Mazzonis, do Liberazione



Tanques nas ruas de Banguecoque mas nem uma gota de sangue. Há semanas que todos na Tailândia já sabiam que vinha aí o 18º golpe de Estado da história contemporânea do país. E ninguém se surpreendeu ao ver os soldados com flores amarelas na ponta das espingardas: era o símbolo da fidelidade ao rei Bhumibol Adulyadej, há 60 anos no poder e figura-símbolo deste paraíso asiático do turismo.

O general Sonthi Boonyaratglin, comandante da junta que deu o golpe enquanto o primeiro-ministro Thaksin Shinawatra estava na Assembleia Geral da ONU em Nova York, anunciou que dentro de duas semanas os seus homens deixarão o poder; que será escrita uma constituição provisória a ser submetida a referendo, nomeado um novo governo,.E depois, dentro de um ano, haverá novas eleições. Não é portanto apenas um chega-para-lá em Thaksin, mas um golpe na sua plena acepção, com redacção de uma nova carta constitucional e um hiato de 12 meses no poder democrático.

 

Ex-primeiro-ministro pode sofrer processo

 

O general Sonthi confortou o magnata e agora ex-primeiro-ministro: ele e a sua família são bem vindos ao país e não correm qualquer perigo. Definido como porta-voz informal do rei, o general advertiu contudo que Thaksin poderia acabar por ser processado: "Ele provocou uma ferida sem precedentes na nossa sociedade; e é culpado pela corrupção difundida nos gânglios do poder tailandês'', disse.

É na tentativa de se evitar o processo que se compreende como reage a diplomacia internacional, ao avaliar o destino do líder do Thai Rak Thai (''Os Thai Amam os Thai''), como se chama o partido que ele fundou. Thaksin deixou Nova York por Londres, onde é hoje um primeiro-ministro no exílio, como há um bom tempo não se via.

 

"O povo deve permanecer tranquilo"...

A quartelada tem portanto um claro apoio do velho soberano. Não só porque a pessoa que o comunicou é conhecida como muitíssimo íntimo do rei, mas também pela missão que este teria confiado ao seu general.

"No interesse da paz e da ordem da nação, o rei indicou o general Boonyaratglin como futuro líder do Conselho Militar pela Reforma Política", afirmou o mesmo militar, na TV. "O povo deve permanecer tranquilo e todos os funcionários do governo devem seguir as ordens do general", acrescentou. A nova junta também reforçou o controle sobre os média, proibiu manifestações públicas e fechou as fronteiras com Mianmar (a antiga Birmânia) e o Laos.

 

Onda de protestos em Banguecoque

O golpe destes dias não foi inesperado. É a conclusão de um longo braço-de-ferro entre o primeiro-ministro deposto e diversos grupos de poder que se aliaram a uma ala da burocracia particularmente próxima do trono.

Em Abril e Maio deste ano, a capital tailandesa foi atravessada por enormes manifestações que reclamavam a queda de Thaksin. O motivo do protesto era a denúncia de que a companhia telefónica, de propriedade do primeiro-ministro, seria vendida a um grupo de Singapura.

Havia também um pano de fundo de defesa da monarquia, face a um governante que granjearia grande apoio no campo, com promessas populares e populistas, enquanto cuidava de perto dos interesses de suas próprias empresas e não combatia a corrupção. Uma estratégia política que fizera Thaksin merecer, na imprensa italiana, o apelido de ''Berlusconi tailandês''.

Os segmentos urbanos tailandeses não suportavam o personagem centralizador e popular no campo. E o mesmo ocorria no judiciário.

 

Thaksin sai de cena... e volta

Os protestos da Primavera produziram a convocação de eleições antecipadas, boicotadas pela oposição, consciente de que poderiam perdê-las. O voto de Maio foi julgado não-válido pelo tribunal constitucional. Porém, Thaksin voltou sete semanas depois de sair de cena.

Nos meses que se seguiram, enquanto crescia a consciência de que o golpe era iminente, o primeiro-ministro acusou os militares de diversas tentativas para assassiná-lo. Em suma, o confronto sempre foi duro e nenhum dos actores em cena pode exibir um predigree democrático impecável.

Nos seus anos de governo, além de cuidar dos seus próprios negócios, Thaksin Shinawatra ocupou-se de consolidar o seu poder, na expectativa de uma possível saída de cena do monarca de 78 anos (o trono mais longevo do mundo). Em 2003, reformou alguns funcionários fidelíssimos ao rei Bhumibol e promoveu o seu próprio primo a chefe das Forças Armadas. Nos próximos dias estava prevista uma reorganização da cadeia de comando na área da segurança, e a aceleração do golpe pode ter visado antecipar-se ao movimento do primeiro-ministro.

 

As reacções internacionais

A presidência da União Europeia condenou o golpe de Estado e pediu a volta da ordem democrática. Já Kofi Annan sustentou uma posição mais branda, dizendo esperar que a democracia tailandesa volte a funcionar em breve, sob a tutela do rei, e acrescentando que "as pistolas não são o melhor modo de tomar o poder".

Da França e da Austrália vieram outras reacções preocupadas. O embaixador italiano, Ignazio di Pace,  disse à Agenzia Italia que os militares pareciam pouco convictos nas acções que empreenderam, acrescentando que os adeptos de Thaksin se alinharam com o golpe. Portanto, o milionário arrivista em política parece ter-se retirado de cena para sempre.

Resta saber se as instituições tailandesas reagirão à enésima quartelada imposta pelos militares. Por hora, reina a calma. Ninguém parece ter a impressão de desafiar a vontade do braço armado do rei.

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