O elo entre Estado, transnacionais e grupos paramilitares de direita na Colômbia ficou explícito por mais duas vezes em menos de um mês. No dia 29 de Março, uma série de documentos norte-americanos - datados de 1994 a 2002 - foram publicados pelo National Security Archive (NSA, Arquivo de Segurança Nacional), revelando a ligação entre o governo colombiano e os paramilitares e o fortalecimento destes últimos desde 1997. O NSA é uma organização não-governamental que colecta e publica documentos que deixaram de ser confidenciais e que são obtidos através da Lei de Liberdade de Informação.
Por Igor Ojeda, da redação do Brasil de Fato
Anteriormente, no mesmo mês, a transnacional Chiquita Brands International, corporação norte-americana do setor de bananas, admitiu financiar, entre 1997 e 2004, o grupo paramilitar Autodefensas Unidas de Colombia (AUC), com 1,7 milhão de dólares. A AUC está envolvida numa série de massacres de civis nos últimos dez anos.
A acusação à empresa foi feita pelo Departamento de Justiça dos EUA em 13 de Março. No texto do processo, está a afirmação de que pelo menos 825 mil dólares foram enviados ao grupo paramilitar depois de ele ter sido considerado uma organização terrorista internacional pelo Departamento de Estado dos EUA, em 2001. A empresa concordou em pagar uma multa de 25 milhões de dólares ao governo dos EUA.
Acordo
O processo detalha como o chefe da AUC, Carlos Castaño, acertou os pagamentos com a Banadex, subsidiária da empresa de frutas na Colômbia, em 1997: "Ele informou ao gerente geral da Banadex que a AUC estava prestes a expulsar a guerrilha Farc de Urabá [centro das operações da empresa no país]" e também que "o fracasso nos pagamentos poderia resultar em danos físicos ao pessoal e à propriedade" da empresa. O Departamento de Justiça dos EUA listou mais de 100 pagamentos nos sete anos de relações; 50 destes feitos depois que a AUC passou a ser considerada terrorista pelos EUA.
Mario Iguarán, procurador-geral da Colômbia, disse que irá pedir a extradição de oito executivos da Chiquita envolvidos no caso. Ele irá investigar também a acusação de que, em 2001, um navio descarregou 3.400 espingardas AK-47 e munições destinados à AUC num porto colombiano controlado pela Chiquita.
Os documentos divulgados pelo NSA mostram que o período em que a AUC ganhou força coincide com o financiamento da Chiquita e que o grupo se desenvolveu nas regiões onde a produção de banana - produto da transnacional no país - era mais presente. Além disso, revela que o Estado e as forças armadas colombianas não só fizeram "vistas grossas" à actuação dos paramilitares, como lhes forneceram apoio em muitos momentos.
Governo
Outra revelação importante da acusação do Departamento de Justiça dos EUA é a de que os pagamentos da Chiquita à AUC eram muitas vezes feitos ilegalmente através de um programa do governo colombiano conhecido como Convivir (Conviver), uma rede de cooperativas rurais de segurança estabelecida pelo exército para policiar o campo e obter informações sobre as guerrilhas de esquerda, como as Farc e a ELN.
É aí que entra o actual presidente da Colômbia, Álvaro Uribe. Quando era governador de Antioquia, onde está Urabá, ele foi o padrinho do Convivir no estado. Logo que assumiu a Presidência, em 2002, Uribe anunciou a implementação de programas similares no país, com a utilização de soldados civis organizados em milícias locais.
O caso Chiquita e a divulgação dos documentos chegam justamente no meio de um escândalo de grandes proporções - apelidado de "para-política" - que vem atingindo e derrubando políticos colombianos nos últimos meses. Pessoas muito próximas ao presidente estão a ser acusadas de fortes ligações com os paramilitares, especialmente a AUC. No final de março, o jornal Los Angeles Times publicou um artigo revelando que um relatório da CIA acusa o chefe do exército colombiano, general Mario Montoya (um dos principais conselheiros de Uribe), de planear e executar uma operação do exército em conjunto com paramilitares da cidade de Medellín. Pelo menos 14 pessoas morreram e outras dezenas ficaram desaparecidas.