O ataque à Mesquita Vermelha de Islamabade (...) e a morte de um grande número de militantes islâmicos colocou o Paquistão e a sua liderança à beira de um precipício mortal.
Um movimento em falso e o país, já fortemente polarizado, pode mergulhar num estado de violência permanente e anárquica, a roçar a guerra civil.
Artigo do jornalista paquistanês Ahmed Rashid, publicado a 17 de Julho pela BBC News.
A al-Qaeda e os grupos extremistas do submundo paquistanês juraram atingir o Presidente Pervez Musharraf, os ministros do governo e o exército como vingança pela acção dos comandos que libertou a Mesquita Vermelha, a qual desafiou o estado durante seis meses.
O Ministro do Interior Aftab Sherpao sobreviveu por pouco a um ataque suicida em Abril último. O próprio general Musharraf tem sido alvo de várias conspirações assassinas.
Desde o cerco da Mesquita Vermelha já foram assassinados mais de 50 soldados por bombistas suicidas e em emboscadas pelos militantes na Província da Fronteira Noroeste (NWFP). Agora o General Musharraf - ele próprio um antigo comando - prometeu conduzir a guerra contra todos os grupos extremistas e nunca mais permitir que uma madrassa (escola religiosa) desafie o Estado.
Enviou milhares de tropas para a Swat, um território tribal da NWFP e para a cidade de Tank onde os talibãs Paquistaneses e a al-Qaeda estão a tentar impor a sua versão de um estado religioso (Sharia).
Ao mesmo tempo o General Musharraf está confrontado com um movimento de advogados e profissionais da classe média, que estão cansados da ditadura militar, e com um movimento emergente de oposição política, que organizou recentemente o seu maior comício em Londres.
Ele está sob pressão para indicar brevemente um calendário para eleições livres e justas e o seu futuro papel político.
Apesar de prometer repetidamente desde 2001 domar o extremismo Islâmico, ainda não o conseguiu fazer. Mas desta vez até ele reconhece que a crise é mais grave.
A guerra aberta entre a República Islâmica do Paquistão e o chamado 'Estado Sharia' dos Talibãs tem de ser evitada.
Um conselheiro próximo do Presidente diz que quando ele se encontra em crise ou numa armadilha política, opta por uma 'retirada táctica' que depois se transforma num 'avanço estratégico' numa direcção totalmente diferente - deixando os assuntos não resolvidos no passado atrás de si.
"É a maneira típica de um comando olhar a política e o mundo", diz o conselheiro.
Agora parece não haver espaço para retiradas tácticas.
Está confrontado com uma decisão inevitável - ou persegue os extremistas de modo consistente, como prometeu no passado ou uma vez mais tenta apaziguá-los. Muitos temem que o último rumo ponha em risco o futuro do Paquistão.
Desde o 11/9 tem sido acusado de fazer jogo duplo com o Ocidente, cedendo por vezes às pressões para domar dos extremistas Islâmicos e outras vezes alinhando-se com os extremistas para enfrentar ou chantagear os governos de Cabul, Nova Delhi ou Washington.
Até agora, nunca tentou quebrar o elo de três décadas entre o exército e os extremistas Islâmicos.
Consequentemente a al-Qaeda encontrou espaço e apoio para reagrupar nas áreas tribais do Paquistão, os talibãs afegãos encontraram um refúgio seguro na província do Baluchistão e os talibãs paquistaneses espalharam a sua propaganda pela cintura pashtun do noroeste do Paquistão.
Se o general Musharraf optar pela primeira hipótese precisará de acumular apoio político e de um novo mandato político, que permita partidos seculares nacionais, tais como o Partido dos Povos do Paquistão de Benazir Bhutto e o regresso de pequenos partidos regionais à arena política.
Estes são os partidos que o acusam de os ameaçar com desprezo, desde que tomou o poder no golpe de 1999.
Mas conseguir um acordo com a Senhora Bhutto e os outros significaria que o exército teria de promover eleições genuinamente livres e justas até ao final do ano, permitir a independência do poder judicial e da comunicação social e a partilha do poder com os políticos - algo a que o Presidente Musharraf tem estado relutante.
O risco do isolamento
Muitos pensam que agora o exército precisa de perceber que não pode vencer os extremistas sem estar preparado para ter um parlamento credível e um governo civil com o qual trabalhar.
Se optar pelo segundo caminho significará mais controvérsia e frágeis acordos de paz com os talibãs paquistaneses, os extremistas e as madrassas militantes. Isto significaria permitir um enfraquecimento da autoridade e da credibilidade do Estado.
Seguir o segundo caminho poderia em última instância significar o abandono de qualquer pretensão de democracia, a imposição da lei marcial, um maior afastamento do Ocidente e um isolamento enorme da maioria dos povos do Paquistão.
Qualquer que seja sua escolha, o General Musharraf sabe que continuará a ser alvo dos extremistas.