Ninguém sobrevive 41 anos no poder, sem aprender um ou dois truquezinhos de geopolítica. Raposa velha e sabida, o rei dos reis africanos Muammar Khadafi parece ter estudado atentamente o tabuleiro de xadrez. E chegou à conclusão absolutamente definitiva: a zona de exclusão aérea - para não falar de uma incasão da Líbia - não descolará do Conselho de Segurança da ONU.
Como se leu ontem no Asia Times Online (em português, no blog Redeastorphoto, “Brasil-Índia-África do Sul já viram que a revolta árabe obriga a remodelar a ordem mundial”), três países do grupo BRICS de emergentes – Brasil, Índia e África do Sul – já trataram de torpedear totalmente a opção “zona de exclusão aérea”. Os três são membros não permanentes do Conselho de Segurança. E os outros dois BRICSs – Rússia e China – são membros permanentes. Já há algum tempo, os BRICS têm coordenado suas decisões cruciais. No plano do ministério de Relações Exteriores, a Rússia, na semana passada, já detonara a ideia da zona de exclusão aérea; e a China fez o mesmo, esta semana. Não bastasse, há também o Líbano – mais um membro não permanente do Conselho de Segurança. Com isso, são seis votos “não”. Que ninguém se engane: Khadafi tem pedras na manga.
De facto, nem o governo do presidente Barack Obama está a apoiar explicitamente a opção “zona de exclusão aérea”. O chefe do Pentágono Robert Gates – mesmo contando com dois porta-aviões e 175 aviões da 6ª Frota dos EUA atracada em Nápoles, Itália – já disse, claramente, que o assunto é sério e que significa guerra, quer dizer, todos os riscos imagináveis de escalada mais todas as consequências não desejadas (lembrem-se da Bósnia).
Os que apoiam a zona de exclusão aérea formam um conjunto bem pouco confiável: as ex-potências coloniais africanas França e Grã-Bretanha; os neoconservadores nos EUA; e os seis países membros do Conselho de Cooperação do Golfo [orig. Gulf Cooperation Council (GCC)] – entre os quais o Bharein (que já usou repressão letal contra manifestantes de oposição), a Arábia Saudita (que provavelmente fará a mesma coisa amanhã, nas manifestações marcadas para o “Dia de Fúria” também por lá), Omã (que provavelmente também o fará, se os protestos continuarem) e o Qatar (cujas manifestações não estão a ser adequadamente divulgadas pela rede Al-Jazira, mas cujo povo tem as mesmas aspirações democráticas que se vêem nas ruas dos demais países membros do GCC).
Ekmeleddin Ihsanoglu, secretário-geral da Organização da Conferência Islâmica [orig. Organization of the Islamic Conference (OIC)], que reúne 57 países, também apoia a zona de exclusão aérea (mas a OIC ainda não tem posição oficial). O mesmo vale para a desfibrada e desdentada Liga Árabe; o GCC convocou uma reunião para discutir o tema. Quanto à União Europeia [orig. European Union (EU)], até ao final da semana talvez tenham alguma posição firmada, mas não aposte nisso.
Até os movimentos da parte leste, libertada, da Líbia, estão confusos. Uns líderes do governo provisório em Benghazi querem, outros não (e boa massa de rebeldes). Não há qualquer indício de que o governo de Obama esteja sequer a tentar, nem informalmente, pesquisar as opiniões dos que estão a lutar (e a morrer) nos combates, nem em inglês nem em árabe.
Enquanto isso, Khadafi joga competentemente com o joker al-Qaeda – do tipo “sem mim, o ocidente logo enfrentará a linha de montagem do califato islâmico, fazendo jorrar milhares de jihadistas para o outro lado do Mediterrâneo”. As pessoas que compram a retórica que Khadafi vende são, claro, a extrema-direita e os fanáticos criptofascistas nos EUA e também em Israel. Dos islamofóbicos na Alemanha e Escandinávia, à nova queridinha da política francesa Marine Le Pen – filha que faz o género “comigo-é-sem-conversa-mole” do fundador da Frente Nacional, Jean Marie Le Pen – todos, em silêncio, festejarão a brilhante esperteza geoestratégica do Bom Coronel Khadafi.
Khadafi jogou outra cartada esperta: mandou um enviado conversar com o Conselho Supremo do Exército Egípcio. A mensagem é clara: a tribo Awlad Ali – que controla a cidade de Salloum, no lado egípcio da fronteira com a Líbia – está a fornecer de tudo, comida e armas, aos rebeldes do leste liberado da Líbia. Khadafi quer que suspendam o fornecimento. Khadafi jogou. Não sabe, mas logo saberá, o que pensam os egípcios do exército-de-transição – e Omar “al-Tortura” Suleiman desapareceu das telas de televisão.
Quem assista à cobertura pela rede al-Jazira já sabe que os rebeldes são jovens esfarrapados e desorganizados e desempregados, todos comprometidos e engajados com muita paixão e coragem mas nenhum planeamento táctico/estratégico, no que o Guardian de Londres bem descreveu como “drive-in war”. Muitos desses jovens são da tribo Zintan.
Por tudo isso, não surpreende que a fala de Khadafi pela televisão, na madrugada da 4ª-feira, tenha sido dirigida a um público jovem de Zintan (nem havia muitos, nem pareciam muito interessados). O núcleo da retórica de Khadafi é que todas as notícias que chegam da Líbia libertada trazem marcas da terminologia típica da al-Qaeda; e falou longamente sobre um Líbia unida e o povo, que deseja democracia.
Argumento-chave dos que defendem a implantação na Líbia de uma zona de exclusão aérea, é que se “nós” – o ocidente civilizado – não interviermos na Líbia, o país decairá até o caos que se vê na Somália. Portanto, é útil sabem o que de facto está acontecendo na Somália.
A Somália é crucialmente estratégica, em frente ao Iémen, no Golfo de Aden, praticamente vizinho de porta dos países do GCC. Todos e mais alguém intervêm na Somália – da al-Qaeda à Etiópia, do Sudão às ‘organizações de caridade’ com base nos países do GCC.
A União Africana [ing. African Union (AU)] assustou-se de verdade ante o perigo de Líbia e Egipto suspenderem o financiamento das suas operações: por isso, os 8 mil ditos ‘pacificadores’ da AU (do Burungi e de Uganda) atacaram a al-Shabaab, uma coligação somaliana apoiada por uma ala de jihadistas ligados a Osama bin Laden que controla boa parte do centro e sul da Somália, inclusive áreas chaves da capital Mogadishu.
Ninguém sabe como acabará este negócio de soldados ‘de paz’ apoiados pela ONU atacarem uma milícia islâmica. Mas Khadafi com certeza usará qualquer coisa que aconteça como moeda para negociar com a AU: alguma coisa como “se querem ver a cor do meu dinheiro e da minha ajuda, nem pensem em apoiar alguma zona de exclusão aérea”.
Eis como o rei dos reis da África interpreta o que se lê nas paredes da ONU: a zona de exclusão aérea, mesmo que venha a ser aprovada, será inócua – porque Khadafi tem helicópteros armados com metralhadoras, tanques e poder de fogo superior. Khadafi sabe que contingentes que venham para implantar a zona de exclusão aérea não podem invadir a Líbia – porque, se invadirem, o próprio Khadafi se encarregará de demonstrar que, depois do Afeganistão e do Iraque, é a vez da Líbia ser destruída pela cruzada do homem branco que quer destruir o Islão (e roubar o petróleo local).
Se a Arábia Saudita armar os rebeldes – como armou, nos anos 1980s, os “combatentes da liberdade” afegãos –, as armas podem ser capturadas pelo pessoal da al-Qaeda infiltrado em todos os grupos, e Khadafi vence a guerra pela opinião pública. A CIA sempre pode subornar um dos generais de Khadafi – ou, mesmo, um dos filhos dele. Afinal, o filho Mutassim já tentou um golpe para derrubar o pai. E alguém sempre pode recorrer à proverbial bala na nuca. Em todos esses casos, só Alá, para saber que tipo de doido substituirá Khadafi.
Não surpreende que o rei dos reis se mostre tão relaxado e à vontade nas suas vestes reais castanho-douradas. No que lhe diz respeito, é só uma questão de tempo e o jogo (encharcado em sangue) está ganho.
Artigo de Pepe Escobar, publicado no Asian Times. Tradução pelo Colectivo Vila Vudu/Rede Castorphoto.