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Xenofobia para com alunos brasileiros da UP sob investigação

Numa atitude quase inédita, a reitoria da Universidade do Porto participou as situações de xenofobia ao Ministério Público. As mais de cem denúncias recolhidas por estudantes falam de racismo, xenofobia e sexismo e não são exclusivas daquela Universidade.
Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.
Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Fotografia de Universidade do Porto.

Com o início do ano letivo começaram a surgir contas anónimas no Instagram e Twitter ligadas à Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto com conteúdo xenófobo. Algumas associavam os estudantes brasileiros a macacos e outras, numa página de “confissões de estudantes”, tinham várias publicações de conteúdo insultuoso, hostil e boçal e incorriam em vários crimes: racismo, xenofobia, sexismo, machismo, difamação e outras formas de discriminação. Num total de 32 mil alunos na Universidade do Porto, os estudantes de nacionalidade estrangeira compõem 20% da população e, entre estes, os brasileiros são a maioria.

As publicações deram origem a mais de 100 denúncias ao grupo Quarentena Académica, na maioria de estudantes brasileiros, e a uma reação de forte condenação nas redes sociais, explica a edição de hoje do Jornal de Notícias. Numa atitude quase inédita, a Reitoria da Universidade do Porto compilou a informação, abriu um inquérito interno e participou os crimes ao Ministério Público no final do passado mês de outubro.

"São crimes públicos lamentáveis", que "condenamos com veemência, sem cabimento na academia", diz ao JN António Sousa Pereira, desde 2018 reitor da Universidade do Porto. O assunto "é grave" e "terá de ter consequências”.

Numa nota breve, o diretor da FEUP, João Falcão e Cunha, e o presidente da Associação de Estudantes, José Araújo, expressaram a sua "condenação veemente" e "repúdio inequívoco" das "mensagens anónimas, que refletem atitudes pouco escrupulosas ou inconscientes" e "estão a afetar negativamente a imagem da FEUP”.

A condenação escrita “ainda é pouco”, explicam alguns alunos da Quarentena Académica. "Os canais tradicionais não resolveram o assunto, o problema é estrutural e a reitoria mexeu-se, finalmente, porque o caso era demasiado visível", diz Ana Isabel Silva. "A Reitoria atuou por pressão dos estudantes e pelo medo de ver manchada a imagem da faculdade", conclui Tomás Nery.

Entre as denúncias recebidas pelo grupo, constam casos como o do professor que, se dirigindo para uma aluna brasileira que já levantara a mão três vezes na aula para esclarecer dúvidas, lhe disse "E se não escreveres em português de Portugal, porque a língua que vocês falam lá no Brasil é errada, ainda te chumbo, é certinho porque tu és burrinha, né?”, gerando riso entre a turma.

Denúncias de todo o país

Outro caso que se destaca é a penalização na nota quando o aluno escreve na sua variante materna, o português do Brasil. O JN destaca o caso de uma aluna da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa que, num exame em que deu respostas iguais às do seu namorado português, este concluiu a prova com 15 valores e ela com 12.

"Algo tem de mudar, os alunos brasileiros não reveem nas vossas academias o país acolhedor, inclusivo, diverso, o país europeu avançado que anunciam", avisa Anabelly Pontes, brasileira no mestrado de Ciência Política em Aveiro e que recolhe denúncias no Grupo de Estudantes Estrangeiros.

"Vejo alunos com problemas psicológicos, outros a desistir, vejo microagressões quotidianas. E vejo muitos docentes e não docentes muito mal preparados para lidar com tantos alunos estrangeiros".

"Há xenofobia institucionalizada, enraizada", acusa outro aluno brasileiro ouvido pelo JN no Porto, "são os preços mais caros para os estudantes estrangeiros, propinas, alojamentos, serviços, separação de dormitórios e cozinhas, desapoio social e tantas formas em que me sinto agredido por ser e falar brasileiro". Aplaude a investigação do Ministério Público ao caso da FEUP. E ri: "É bom, se fosse a Reitoria não acontecia nada”.

O reitor da Universidade do Porto António Sousa Pereira defende a academia e, em relação aos professores, reconhece que “há comportamentos menos próprios”, mas considera que “os exemplos menos bons não são a regra, são a exceção”.

Já o Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESUP) diz que “não há queixas oficiais”. Mariana Gaio Alves, presidente do sindicato, não concorda, "de todo, que o corpo docente esteja mal preparado para lidar com os alunos estrangeiros".

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