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Videojogos: Crunch da saúde mental e a sindicalização

Numa indústria que não pára de crescer, há relatos de trabalhadores envolvidos na produção de videojogos a quem são exigidas 16 horas de trabalho diário ou mesmo 100 horas de trabalho semanal. O movimento de sindicalização destes trabalhadores começa agora a surgir. Artigo de Tiago Teixeira.
Crunch da saúde mental e a sindicalização
Ilustração de Hannah Wertz.

O ramo dos videojogos é uma indústria que não para de crescer. Existem produções que podem competir a nível monetário com as produções de ​Hollywood​. Preocupação com o design, com o enredo, com a programação, marketing, banda sonora, entre outros aspetos.

E como qualquer empresa que é orientada para cumprir prazos, tem tendência a cometer os seus excessos. ​Crunch​ é um nome que foi dado a um período em que os trabalhadores passam a estar envolvidos no desenvolvimento de um videojogo e a serem obrigados a trabalhar mais horas para lá do seu regime normal de trabalho.

Um exemplo: Red Dead Redemption 2, videojogo desenvolvido pela Rockstar Games. Nas últimas semanas de produção de um dos videojogos que mais marcou o ano de 2018, tendo sido nomeado como um dos melhores do ano, há relatos de pessoas que trabalharam até ​100 horas semanais​.

Outro exemplo e que está acontecer este ano: Cyberpunk 2077, que é desenvolvido pela CD Projekt Red. A produtora ​anunciou​ recentemente que o videojogo foi adiado para dezembro - esta é quarta vez que adiam um dos jogos mais esperados de 2020. Por estes motivos, vários funcionários receberam um email da líder da produtora onde aumentava a sua carga de trabalho semanal para 6 dias e além de relatos de turnos de ​16 horas​ de trabalho por dia.

Claro que isto tudo tem consequências para os trabalhadores: stress, pressão psicológica, esgotamento emocional ou desligar-se da vida pessoal. Há até relatos de ​perda de memória.

É por isso que a sindicalização nunca foi tão necessária como agora. Em ​2019​, perguntaram a 4.000 trabalhadores na indústria se consideravam que se justificava a criação de um sindicato para o setor. Quase metade das pessoas (47%) respondeu que sim, 26% responderam “talvez” e 16% respondeu que não.

Devido a estes relatos todos foi criado o movimento ​Game Workers Unite​. Criado em 2018, GWU tem o objetivo de lutar pela sindicalização no mundo dos videojogos e lutar por melhores condições para os trabalhadores. A organização liderada pela Emma Kinema apoiou ações como os protestos contra o assédio​ e da discriminação de género na empresa Riot Games. O movimento já tem organizações em vários lugares na América do Norte e na Europa e continua a angariar novos membros com o objetivo de acabar com a exploração laboral. Também este tema chegou ao senado dos EUA. ​Bernie Sanders​ apoia a criação de um sindicato para a indústria e elogiou o trabalho feito pelo movimento Game Workers Unite.

Os sintomas do ​crunch ​não são um exclusivo da indústria dos videojogos. Urge combater esta exploração laboral. A solução passa por expôr estes problemas que já têm ​décadas​. Há uma parte importante dos produtores que já deram a resposta: para derrotar este boss (Crunch), a principal arma é a sindicalização.

Sobre o/a autor(a)

Técnico de informática e militante do Bloco de Esquerda.
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