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Uma viagem pelo mundo em 2020 (19): as Américas do norte

Os EUA, a maior potência mundial, atravessam um momento conturbado. A eleição de Trump, em 2016, constituiu um choque para o mundo e a forma como tem exercido a presidência tem confirmado os piores receios. Por Jorge Martins
Foto de Michael Reynolds/EPA/Lusa.

Trump em vantagem face a democratas divididos; sistema maioritário segura Trudeau

Em lugar de considerarmos a América do Norte na sua totalidade, vamos apenas considerar os dois países anglo-saxónicos (EUA e Canadá), tratando do México em separado, por ser uma realidade política e culturalmente diferente.

O Canadá é o segundo país mais extenso do mundo, com uma superfície de quase 10 milhões de Km2, mas é pouco povoado, contando apenas com pouco mais de 30 milhões de habitantes, já que uma grande parte do seu território é constituído por zonas geladas. Apesar de partilhar alguns aspetos do “american way of life”, é uma sociedade bem mais sã do que a do seu poderoso vizinho meridional: as desigualdades sociais e a pobreza são bastante menores, o que se deve à existência de um Estado Social semelhante aos do norte da Europa; registam-se menores índices de criminalidade e violência, fruto dessa maior coesão social, mas, igualmente, de uma legislação mais restritiva sobre a posse de armas; há um maior respeito pelos direitos humanos (por exemplo, não há pena de morte); os padrões ambientais são mais exigentes e os índices de corrupção bem menores. Nas eleições de 2015, o Partido Liberal (LPC) obteve uma maioria absoluta, derrotando o Partido Conservador (CPC), que havia estado no poder desde 2006, e o relativamente jovem Justin Trudeau tornou-se primeiro-ministro. Estamos em presença de um social-liberal, que, se, no plano económico, é defensor de políticas pró-mercado e dos acordos internacionais de livre comércio, tem-se revelado progressista nos costumes, sendo pró-escolha na questão do aborto, defensor de “tolerância zero” face ao assédio sexual, além de adepto da legalização da canábis para fins recreativos, que fez aprovar no Parlamento. Tem sido, também, favorável a uma política de abertura aos imigrantes e refugiados. É, pois, o oposto de Trump, por quem já foi publicamente atacado e visado em vários “tweets”. Contudo, acabou confrontado com imagens da sua juventude, em que aparecia numa representação teatral em modo “brown face” e “black face” (em que personagens mesticas, na primeira, e negras, na segunda, são satirizadas por atores brancos pintados de negro). O primeiro-ministro canadiano pediu desculpa e afirmou não ser racista, mas terá perdido alguns apoios com essa revelação. Nas eleições legislativas de outubro,

Trudeau e os liberais, “chamuscados” por essa e outras controvérsias, registaram uma forte quebra eleitoral, ficando-se por pouco mais de 33% dos votos, enquanto os conservadores, liderados por Andrew Scheeer, obtinham perto de 34,5%. Contudo, devido ao sistema eleitoral maioritário a uma volta (FPTP), o PLC obteve 157 lugares, enquanto o CPC se ficou pelos 121. Para esse efeito, muito contribuiu a concentração do voto conservador nas zonas ocidentais e centrais do país (em especial nas províncias de Alberta, Saskatchewan e Manitoba), onde o partido obteve triunfos esmagadores. Ao invés, os liberais venceram vários círculos nas províncias atlânticas e em Ontário, a maior do país, onde se situa Toronto, com vantagens pequenas. O ato eleitoral mostrou uma recuperação dos nacionalistas quebequenses do Bloc Québécois (BQ), que, tendo apenas concorrido no francófono Québec, elegeram 32 deputados com pouco mais de 7,5% dos sufrágios a nível nacional.

Por seu turno, o Novo Partido Democrático (NDP), social-democrata, a mais à esquerda das grandes formações políticas do país, tendo como líder Jagmeet Singh, obteve perto de 16%, mas registou uma queda, ficando-se por 24 eleitos, uma perda de quase metade do seu grupo parlamentar, valendo-lhe ter segurado os seus lugares na Columbia Britânica, no Pacífico, e no Grande Norte. Já os Verdes (GPC) registaram uma grande subida, atingindo 6,5% dos votos, mas o sistema maioritário apenas permitiu à formação ecologista passar de uma deputada (a sua líder, Elisabeth May) para três.

À direita, o novo Partido Popular (PPC), “trumpista”, não “levantou voo”: com pouco mais de 1,5%, perdeu o lugar que detinha no Parlamento, já que o seu líder, Maxime Bernier, um antigo parlamentar conservador, que desertou do seu partido de origem, não conseguiu segurar o seu lugar. Os resultados levaram ao aumento do apoio da opinião pública a uma reforma do sistema eleitoral. O primeiro-ministro, que a havia erigido como promessa de campanha, chegou a nomear um grupo de trabalho para o efeito, pouco depois de tomar posse. Porém, em 2017, não seguiu as suas recomendações a favor da adoção de um sistema de representação proporcional e declarou-se desfavorável à alteração, a pretexto de não haver um consenso nacional para o efeito. Ironicamente, os conservadores, grandes defensores do sistema maioritário, acabaram por ser vítimas deste nas últimas eleições.

Outra consequência do ato eleitoral foi o crescimento do apoio ao separatismo nas províncias ocidentais, até agora residual. Para já, foi criado um partido independentista dessa região denominado Wexit Canada. Entretanto, Trudeau rejeitou a formação de uma coligação ou, mesmo, a assinatura de um acordo de incidência parlamentar, tanto como o NDP como com o PQ, preferindo governar em minoria, recorrendo a entendimentos pontuais no Parlamento para fazer passar a legislação.

Os EUA, a maior potência mundial, atravessam um momento conturbado. A eleição de Trump, em 2016, constituiu um choque para o mundo e a forma como tem exercido a presidência tem confirmado os piores receios. A sua plataforma eleitoral populista, anti-imigração, conservadora nos costumes, nacionalista e protecionista no plano económico conquistou a “América profunda”, rural, provinciana, reacionária, racista e preconceituosa, setores da classe operária branca e outros perdedores da globalização, bem como muitos descontentes com o sistema. Uma campanha agressiva, muito baseada nas redes sociais, entre os quais a sua preferida, o “Twitter”, e que ficou marcada por várias tiradas sexistas, homofóbicas e racistas, mobilizou a sua base de apoio, que foi votar em massa, tanto nas “primárias” republicanas como no dia da eleição presidencial. Ao invés, a candidatura de Hillary Clinton, a grande favorita, cometeu o erro de subestimar o adversário e pagou caro essa soberba. Até porque foi vista, por muitos, como uma representante do sistema e da elite que muitos viam como responsável da crise financeira que abalou o país e o mundo a partir de 2008. Nas “primárias” democratas, foi desafiada por Bernie Sanders, um senador septuagenário, que se afirmou socialista e mobilizou os eleitores mais jovens e os setores mais progressistas da sociedade estadunidense. Contudo, o aparelho do partido colocou-se ao lado de Hillary e a sua candidatura à nomeação acabou derrotada, mesmo que por uma pequena margem. É certo que a candidata democrata venceu no voto popular, mas os estrategos republicanos apostaram nos estados certos para obter maior número de votos eleitorais.

Chegado à Casa Branca, Trump mostrou ao que vinha e reforçou a sua retórica anti-imigração e a defesa dos valores mais conservadores da sociedade. Simultaneamente, hostiliza a maioria da comunicação social (à exceção da conservadora FOX News) e revela tendências autoritárias, mostrando desprezo pelas instituições democráticas. Por outro lado, a sua imprevisibilidade e a sua imaturidade provocaram estragos na sua equipa, onde as demissões se sucederam a um ritmo nunca antes visto. A isso se somam os mais variados escândalos, desde os sexuais ao da fuga aos impostos e outros negócios pouco claros, como a questão das suas relações com a Rússia e dos seus negócios com Moscovo e uma hipotética interferência russa nas eleições em seu apoio e que foi alvo de uma investigação por parte de um procurador especial. Mesmo se não há provas concretas sobre aquilo de que é acusado, o facto é que Trump já mentiu (e terá persuadido outros a mentir) várias vezes durante o processo. No plano externo, “rasgou” alguns acordos de comércio livre, como o NAFTA (com o Canadá e o México) e a Parceria Transpacífica e desistiu da Parceria Transatlântica. Também repudiou compromissos internacionais assinados por Obama, como o acordo com o Irão, em que os EUA suspendiam as sanções em troca do abandono do programa nuclear de Teerão, e a abertura face a Cuba, que levou ao restabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países. Ao mesmo tempo, mostra o seu desprezo pelas instituições multilaterais, como a ONU e suas agências especializadas (retirou-se da UNESCO, pelas críticas da organização a Israel). O reforço do apoio incondicional ao estado judaico tem sido uma das marcas da sua administração, que, ao arrepio das resoluções da ONU, reconheceu Jerusalém como sua capital e para lá transferiu a sua embaixada. Ainda no Médio Oriente, mantém a aliança histórica com a Arábia Saudita, tendo feito “ouvidos de mercador” à condenação do Senado (de maioria republicana) ao assassinato do jornalista e opositor Khashoggi.

Numa tendência que já vinha de anteriores administrações, a Europa passou para segundo plano na política externa dos EUA. Para Trump, os aliados europeus da NATO terão de gastar mais com a defesa, deixando de depender tanto dos norte-americanos. Ao mesmo tempo, aposta na divisão da UE, que vê como ameaça ao nível comercial, apoiando o Brexit e as formações da extrema-direita e eurocéticas populistas. Relativamente à Rússia, a sua política tem sido marcada pela ambiguidade. Durante a campanha, Trump afirmou desejar melhorar as relações bilaterais, brandindo a sua amizade pessoal com Putin, declarando, por exemplo, reconhecer a anexação da Crimeia, mas o choque de interesses na guerra da Síria “esfriou” o relacionamento, a que se seguiu a decisão de não prolongar o tratado de limitação de forças nucleares de alcance intermédio (INF), assinado por Reagan e Gorbachev, em 1987. A prioridade da política externa do país passou a ser o Pacífico, com a China a ser vista como o adversário potencial, tanto no plano político-militar como económico. Depois de ter colocado a possibilidade de um conflito nuclear com a Coreia do Norte, a situação serenou com uma cimeira entre os dois presidentes em junho de 2018, em Singapura. Seguiram-se mais duas: uma, em fevereiro, em Hanói, e outra em maio, na zona desmilitarizada entre as duas Coreias, mas as duas partes não chegaram a acordo. Por outro lado, e para além da continuação da política de contenção da emergente potência chinesa, através de alianças mais ou menos informais com outros países asiáticos, os EUA iniciaram uma guerra comercial com aquela, que lançou novas incertezas na economia mundial.

Entretanto, nas últimas eleições para o Congresso, os democratas obtiveram uma importante vitória, conseguindo recuperar o controlo da Câmara dos Representantes, para a qual fizeram eleger uma série de candidatos mais representativos da diversidade social do país: mais mulheres, mais pessoas LGBT, mais negros, alguns nativos e mais jovens. É certo que os republicanos aumentaram em dois lugares a sua maioria no Senado, mas o número de assentos democratas em jogo era muito superior ao dos republicanos. No início de 2019, a luta entre Trump e os democratas levou ao “shutdown” da administração pública, ou seja, na paralisação de vários departamentos estatais, devido à teimosia do presidente, ao exigir que o Congresso aprovasse uma proposta de orçamento que contemple 5,7 milhões de dólares para construir o prometido muro na fronteira com o México, algo que os democratas rejeitam, algo que apenas foi ultrapassado com cedências de ambos os lados, com a atribuição de uma verba para a segurança, mas bastante menor que a solicitada pela presidência.

Em meados do ano passado, foi divulgada uma conversa telefónica entre Trump e o seu homólogo ucraniano, Volodymyr Zelensky, em que condicionava a ajuda militar dos EUA à Ucrânia à abertura de uma investigação, por parte das autoridades judiciais do país, às atividades empresariais do filho de Joe Biden, na altura visto como o seu possível rival democrata nas presidenciais deste ano. A sua autenticidade foi confirmada por várias figuras ligadas à Casa Branca e, em setembro, a Câmara dos Representantes avançou com um processo de impeachment. Contudo, cedo se percebeu que ele não tinha “pernas para andar”, dado o apoio quase unânime dos republicanos a Trump. Por isso, no Senado, onde estão em maioria, trataram logo de impedir a acusação de ouvir as testemunhas que pretendia, de forma a passarem de imediato à votação, na qual o presidente foi ilibado, já que apenas um senador do seu partido, o ex-candidato presidencial Mitt Romney, apoiou a sua destituição, ao lado de todos os democratas.

Independentemente de Trump, os EUA estão hoje confrontados com a erosão do seu poder a nível internacional. Após o fim da “guerra fria”, com a queda do muro de Berlim, em 1989, culminado com o fim da URSS, em 1991, os EUA viveram aquilo que alguns autores designaram por “momento unipolar”, ou seja, o auge do seu poder imperial, em que a Rússia, sucessora da União Soviética, vivia um período de grande fraqueza, tanto política como económica, e a China ainda estava no início da sua ascensão e sofria do ostracismo internacional, decorrente do massacre de Tiananmen. A resposta aos atentados do “11 de setembro”, com as desastrosas e dispendiosas invasões do Afeganistão e do Iraque, erodiram o poder estadunidense, ao mesmo tempo que a China despertava e a Rússia recuperava, além de que, no plano económico, outros países emergiam, aumentando a concorrência nos mercados internacionais. Foi, em parte, a perceção desta realidade que levou alguns setores das elites a apoiar Trump e a sua ideia de “America first” ou “Make America great again”.

Em novembro deste ano, haverá eleições presidenciais. Para já, iniciaram-se as “primárias”, nas quais cada partido escolhe o seu candidato. Com os republicanos unidos em volta de Trump, o interesse destas centra-se na “corrida” dos democratas, que se encontram extremamente divididos entre a ala esquerda, que pretende uma política económica e social progressista, de feição mais social-democrata, e a rutura com as piores práticas do sistema, e a ala centrista, que defende a continuação das políticas de Clinton e Obama. Dos que chegaram ao início das primárias, destacaram-se, do lado dos primeiros, novamente Bernie Sanders e a sua colega senadora Elisabeth Warren, descendente de nativos americanos; entre os segundos, Joe Biden, ex-vice-presidente de Obama, Pete Butigieg, o primeiro candidato de um dos dois grandes partidos assumidamente “gay”, a senadora Amy Kloubacher e o multimilionário Michael Bloomberg, que abdicou de fazer campanha nos primeiros estados e esperava que o seu dinheiro fosse suficiente para a “empreitada”. Sanders tomou, claramente, a dianteira na ala progressista, tendo vencido tangencialmente no Iowa e com grande vantagem no New Hampshire e no Nevada. Biden começou mal, mas recuperou após o seu triunfo na Carolina do Sul, levando os restantes candidatos da ala centrista a desistir. Na “super terça-feira”, em que votaram 14 estados, o ex-vice-presidente venceu em nove, na maioria do Sul, incluindo o Texas, mas Sanders, apesar de ter ganho apenas em quatro, venceu na Califórnia. Considerando que, a partir de agora, a desistência de Warren será uma questão de tempo, será um deles a defrontar Trump em novembro. Para já, o equilíbrio em número de delegados eleitos é grande. Contudo, o candidato progressista continua a ter a oposição da máquina do partido, controlado pela ala centrista, que poderá utilizar os chamados super delegados, escolhidos pelo aparelho partidário, para obter a nomeação de Biden. Infelizmente, com o atual presidente a segurar a sua base de apoio e os democratas profundamente dividos, a sua reeleição é, infelizmente, mais que provável. Como sobreviverá o mundo e as próprias instituições democráticas dos EUA a mais quatro anos de Trump na Casa Branca? Veremos o que o futuro nos reserva, sabendo nós que a política dos EUA tem, para o bem e para o mal, grandes implicações no resto do mundo.

Artigo de Jorge Martins

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