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Um balão de vigilância chinês a flutuar pelos Estados Unidos do Alasca à Carolina do Sul na semana passada tornou-se o símbolo da crescente rivalidade inter-imperialista entre os Estados Unidos e a China. Os militares dos EUA abateram o balão sobre o Oceano Atlântico, levando o governo chinês a expressar o seu "forte descontentamento e protesto" sobre aquilo a que chamou o "uso da força para atacar um aparelho aéreo civil não tripulado utilizado para investigação". Ao mesmo tempo, o Secretário de Estado norte-americano Antony Blinken adiou uma visita planeada a Pequim.
O balão, com 27 metros de largura e equipamento eletrónico alimentado por painéis solares, fazia parte de uma frota de balões deste tipo utilizados pela China para espiar outros países. Este não foi um acontecimento único. Houve 20 a 30 voos globais deste tipo de balões na última década e outro sobrevoou ao mesmo tempo a América Latina em fevereiro, de acordo com o Departamento de Defesa dos EUA.
O balão flutuando a 18 quilómetros de altitude foi avistado por civis sobre o estado do Montana no início do mês, provocando imediatamente exigências para que fosse abatido, mas o Presidente Biden hesitou em fazê-lo, disse ele, enquanto pudesse atingir a população civil. Os Republicanos agarraram a oportunidade para atacar Biden. "O balão da China a sobrevoar os EUA é um ataque direto à nossa soberania nacional", disse o governador do Texas, Greg Abbott, num tweet a 3 de Fevereiro. "A recusa de Biden em pará-lo é um desrespeito das suas obrigações. De balões voadores às fronteiras abertas, Biden não tem qualquer consideração pela nossa segurança e soberania nacional".
Há já algum tempo que o governo dos Estados Unidos vê a China como a maior ameaça à sua segurança, como reiterou num relatório de segurança nacional em Abril do ano passado, embora tenha deixado de prever um conflito militar. O relatório vê a China como uma ameaça maior do que a Rússia, Irão, ou Coreia do Norte, devido ao seu apetite pelo "poder global". Ele diz que "a China é um concorrente cada vez mais próximo, desafiando os Estados Unidos em múltiplas arenas - especialmente económica, militar e tecnologicamente - e está a pressionar para mudar as normas globais".
Em junho deste ano, a NATO também designou a China no seu documento "Conceito Estratégico". "A China está a reforçar substancialmente as suas forças militares, incluindo as armas nucleares, a intimidar os seus vizinhos, a ameaçar Taiwan ... a monitorizar e controlar os seus próprios cidadãos através de tecnologia avançada, e a espalhar mentiras e desinformação russas", disse o Secretário-Geral da NATO Jens Stoltenberg. "A China não é o nosso adversário, mas temos de estar atentos aos sérios desafios que representa".
O FBI anunciou recentemente que "os esforços de contra-espionagem e espionagem económica emanados do governo da China e do Partido Comunista Chinês são uma grave ameaça ao bem-estar económico e aos valores democráticos dos Estados Unidos". Em Janeiro, o FBI invadiu uma esquadra de polícia chinesa em Brooklyn, utilizada para espionagem de chineses nos Estados Unidos. Funcionários no Canadá, Irlanda e Países Baixos disseram à China para encerrar as suas operações policiais nos seus países.
O atrito entre as duas nações cresceu à medida que a China criou e militarizou novas ilhas no Mar do Sul da China, violou as normas internacionais de direitos humanos na sua supressão da democracia em Hong Kong e do povo Uighur em Xinjiang, e ameaçou Taiwan.
Os Estados Unidos são há muito tempo a potência imperial dominante mundial, tendo a maior economia e gastando mais com as suas forças armadas. O PIB dos EUA é de 23,32 biliões de dólares em comparação com os 17,73 biliões da China. Segundo o Institute for Policy studies, "Os Estados Unidos ainda constituem a parte de leão, com os seus 801 mil milhões de dólares em 2021, representando 39 por cento da despesa militar mundial. Isto é mais do que os nove países seguintes todos juntos", um dos quais é a China. Os Estados Unidos encorajaram o Japão a armar-se e utilizaram a guerra russa contra a Ucrânia para reforçar a NATO. Não é preciso um balão espião para ver o conflito no horizonte.
Dan La Botz é professor de História e Estudos Urbanos no Queens College da City University of New York. Foi membro fundador dos Teamsters for a Democratic Union (TDU). É o autor de Rank-and-File Rebellion: Teamsters for a Democratic Union (1991). É também co-editor da New Politics e editor da Mexican Labor News and Analysis. Artigo publicado em International Viewpoint. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.