Transição climática das petrolíferas é só “greenwashing”

17 de February 2022 - 20:41

As promessas das grandes petrolíferas de que estão a apostar em energias limpas não passam disso mesmo, conclui um estudo científico agora publicado.

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Foto Robert Stupka/Flickr

É sabido que a produção de gás e petróleo contribuiu em muito para o aumento das emissões de gases com efeito de estufa e para a subida da temperatura média no último século. E também se sabe que a descarbonização da economia global até 2050 é essencial para evitar um desfecho mais dramático das alterações climáticas no nosso planeta. Para que isso seja possível, empresas como a BP, Chevron, ExxonMobil ou Shell terão de alterar radicalmente o seu modelo de negócio. E nos últimos anos afirmaram-se dispostas a fazê-lo, participando nos debates sobre energias limpas, prometendo planos de descarbonização e algumas até a apresentarem-se como empresas de energia limpa.

Num estudo científico revisto por pares e publicado na revista PLOS One, os investigadores Gregory Trencher, da Universidade de Quioto, e Mei Li e Jusen Asuka da Universidade de Tohoku, foram rever os relatórios publicados e as contas apresentadas por aquelas quatro grandes petrolíferas norte-americanas e britânicas entre 2009 e 2020, para tentar perceber se as palavras correspondem de facto às ações.

No resumo do estudo, os cientistas confirmam “um forte aumento no discurso relacionado com "clima", "baixo carbono" e "transição", especialmente pela BP e pela Shell. Da mesma forma, observámos tendências crescentes para estratégias relacionadas com a descarbonização e a energia limpa”. No entanto, acrescentam, essas estratégias “são dominadas por promessas em vez de ações concretas”.

“Além disso, a análise financeira revela uma dependência contínua do modelo de negócio dos combustíveis fósseis, juntamente com gastos insignificantes e opacos em energia limpa. Concluímos assim que a transição para modelos de negócio de energia limpa não está a ocorrer, uma vez que a dimensão dos investimentos e das ações não corresponde ao discurso. Até que as ações e o comportamento de investimento estejam alinhados com o discurso, as acusações de greenwashing parecem bem fundamentadas”, concluem.

Ao diário Guardian, Gregory Trencher afirma que se realmente se estivessem a afastar dos combustíveis fósseis, as contas destas empresas revelariam “um declínio na atividade de exploração, produção de combustíveis fósseis, e vendas e lucro dos combustíveis fósseis”. Mas o que encontraram foram “provas de que está a acontecer o contrário". Ou seja, “é como o estudante cábula dizer ao professor ‘prometo fazer todos os trabalhos de casa para a semana’, mas nunca se esforçar por isso”, conclui.

João Camargo
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Apesar dos relatórios anuais se terem enchido de referências à ação climática entre 2009 e 2020 - os da BP passaram de 22 para 326 referências a “alterações climáticas” - o que o estudo comprova é que as empresas fazem muitas promessas e definem muitas metas, sem que isso seja acompanhado por ações concretas. Aqui, as norte-americanas Chevron e ExxonMobil ainda levam bastante atraso em relação às congéneres europeias, embora as promessas destas entrem em contradição com os atos. Por exemplo, BP e Shell prometeram reduzir investimentos em projetos de extração de combustíveis fósseis, mas ambas aumentaram as suas áreas para novas explorações, além de terem aumentado o volume de produção. Os dados disponíveis indicam que o investimento em energia limpa por parte destes gigantes do petróleo e gás representou em 2020 apenas 1% das suas despesas de capital anuais.

Perante os argumentos das relações públicas das petrolíferas de que o estudo não contempla o último ano em que as empresas reforçaram a sua “ambição net zero”, os investigadores respondem que incluíram os documentos publicados na primeira metade de 2021 e não encontraram provas de ações tomadas desde então que contrariem as conclusões deste estudo.