Revolut: trabalhadores denunciam clima de medo e intimidação

17 de August 2020 - 14:27

O banco digital Revolut, que tem um call center em Matosinhos, trouxe para Portugal a “cultura de trabalho tóxica, de alto a baixo”, denunciada por quem lá trabalha ou já trabalhou.

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Foto de Monito - Money Transfer Comparison, Flickr.

Em junho, a revista Wired publicou uma investigação na qual são denunciadas as más práticas laborais na unidade da Revolut na Polónia. A empresa deu aos seus trabalhadores a escolher: despedirem-se ou serem despedidos por, nomeadamente, mau desempenho.

No artigo é ainda referido o controverso plano de “sacrifício” de parte do salário em troca de ações da empresa, que visa poupar nos custos. Segundo a Wired revelou que os trabalhadores foram pressionados a aceitar: “As pessoas estão assustadas, a todo o momento, que alguém as vá despedir. Falei com vários colegas que disseram que abdicaram de 10% do salário só porque têm medo de que, mais tarde, venham a marcar aqueles que não aceitaram”, frisa uma das fontes citada.

Este plano não está a ser aplicado em Portugal, é que é ilegal diminuir o salário-base. No entanto, de acordo com uma investigação publicada este fim de semana no Observador,a empresa continua a trabalhar para oferecer algum tipo de programa de sacrifício salarial que esteja em linha com a legislação laboral portuguesa”. À época, a Revolut reagiu, garantindo que iria “rever as situações relatadas com muito cuidado, para ver se há coisas que podemos fazer melhor”.

De acordo com o jornal online, a Revolut, sediada em Londres, trouxe para Portugal a “cultura de trabalho tóxica, de alto a baixo” denunciada por quem lá trabalha ou já trabalhou. O Observador cita denúncias publicadas no portal GlassDoor, que dão conta da existência na empresa de “uma cultura em que não se dá apoio a ninguém e uma cultura baseada no medo que faz com que não exista colaboração nem abertura”. “Não existe nem a mais vaga compreensão de como se estimula o talento, para tirar o melhor de cada pessoa. Um caos completo“, lê-se ainda numa das críticas.

Após obter recentemente um financiamento de perto de 500 milhões de dólares, a Revolut diminuiu o número de trabalhadores, afastando 62. Mas várias outras pessoas saíram da empresa com recurso a métodos que, se não ilegais, são expressamente imorais.

Na unidade de Matosinhos, 10 trabalhadores saíram da empresa por mútuo acordo nos últimos meses. Outra trabalhadora foi despedida por eliminação do posto de trabalho. Um dos ex-trabalhadores, que foi pressionado a assinar uma saída por mútuo acordo sob a ameaça de ser despedido por quebra no desempenho, dá conta davergonhosa falta de ética para com as pessoas”. Mas este é apenas um dos casos relatados. O Observador reuniu testemunhos que revelam que a Revolut é um verdadeiro “Revohell”, em que impera a desorganização grave, com “trabalhadores convidados com um salário e contratados por outro, bem mais baixo”, atrasos no pagamento de salários, gestão de escalas caótica e erros no envio dos recibos. Bem como a forte pressão exercida, que, em alguns casos, resultou em baixas médicas por exaustão psicológica. É ainda feita referência ao caso de alegado assédio sexual que a empresa garante ter investigado, tendo o alegado agressor, superior hierárquico da trabalhadora, aceite submeter-se a um teste de polígrafo. A documentação a que o jornal online teve acesso, mostra, contudo, que “as perguntas que terão sido feitas nem sequer correspondiam às alegações em causa”.

Em resposta ao Observador, a Revolut assegurou que a empresa se “esforça por criar uma cultura positiva e uma workforce motivada”. “Apoiamos os nossos funcionários por forma a atingir todo o seu potencial e oferecemos formação e guidance e tentamos acomodar, sempre que possível, os seus pedidos e necessidades”, escreve, sublinhando que “nos casos em que os colaboradores abandonam a empresa” trabalha para que essa experiência seja o menos dolorosa possível” e opera “sempre de forma transparente e em conformidade com a lei local aplicável”.

Há cerca de um ano, quando surgiram as primeiras notícias sobre os atropelos laborais, o cofundador e diretor executivo da Revolut, Nik Storonsky, reconheceu que a empresa tinha cometido “erros” dos quais não se “orgulhava”, garantindo que seria dada maior importância à “cultura laboral” e ao bem-estar dos trabalhadores. Segundo os relatos já mencionados, as promessas não passaram disso mesmo.

A Revolut esteve ainda no centro de outros escândalos, como quando foi noticiado que a empresa “teria desligado, durante alguns meses, um importante controlo de segurança contra o risco de branqueamento de capitais”.