Refugiados ciganos da Ucrânia alojados em albergues frios e apertados e sem escola

23 de December 2022 - 21:53

Alexander Faludy relata as péssimas condições a que estão sujeitos na Hungria os refugiados de etnia cigana que escaparam da guerra da Ucrânia.

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Crianças no abrigo de Csermajor shelter. Foto de Alexander Faludy/OpenDemocracy.
Crianças no abrigo de Csermajor shelter. Foto de Alexander Faludy/OpenDemocracy.

“Quando as pessoas do governo local nos visitam, usam máscaras e luvas, como se tivessem medo de apanhar alguma coisa com o contacto connosco. São muito hostis”, diz Anna, uma jovem cigana.

Tendo fugido da sua casa no ocidente da Ucrânia, vive agora com mais 40 pessoas deslocadas, todas ciganas, num abrigo do noroeste da Hungria. O abrigo é num internato desativado num local remoto fora da aldeia de Csermajor.

Não havia combates na sua aldeia perto de Uzhhorod, na fronteira ocidental da Ucrânia. Mas as condições de vida para as pessoas ciganas, sempre precárias, tornaram-se ainda mais duras desde a invasão russa da Ucrânia, graças à chegada de deslocados internos de outras partes do país.

Os ativistas ciganos na Hungria (e os profissionais não ciganos que prestam apoio à comunidade) descrevem consistentemente as condições das pessoas ciganas em Zakarpattia como sendo ainda piores daquelas que tinham no seu país, mesmo durante o tempo de paz.

A região da Zakarpattia, também conhecida como Transcarpátia, cuja população é composta por uma mistura complexa de minorias históricas, experienciou múltiplas mudançasde regime no século XX graças às mudanças de fronteiras. Depois do colapso da URSS em 1991, tornou-se uma das áreas mais deprimidas economicamente da Ucrânia.

O povo cigano da região tende a sofrer uma dupla discriminação – por serem falantes de húngaro e por serem ciganos. Paradoxalmente, a hostilidade por parte dos ucranianos de etnia húngara é grave porque estes tentam distinguir-se dos ciganos aos olhos dos outros grupos.

Um inquérito recente sobre as pessoas vindas da Zakarpattia descobriu que 36% das famílias não tinham água corrente, 33% não tinham aquecimento e 38% não tinham eletricidade quando viviam na Ucrânia. As condições do tempo de guerra tornaram a situação alimentar insustentável. Os ciganos deslocados que encontrei na Hungria passaram a fronteira relutantemente para esperarem o fim do conflito.

Apesar de serem falantes de húngaro, todos os ciganos da região fronteiriça de Zakarpattia com que me encontrei apenas tinham passaporte ucraniana e expressaram um forte desejo de voltar às suas casas na Ucrânia depois da guerra. Ao ver as suas condições de alojamento e ao ouvir os obstáculos que enfrentam, é difícil acreditar que quisessem aqui ficar. Quando perguntei a Anna e a outros qual era a coisa mais dura na presente situação, a resposta foi sempre a mesma: “saudades”.

Mãe e filho no abrigo. Foto de Alexander Faludy.

Abrigo frio

Está frio fora da escola abandonada – demasiado frio para tirar o meu casaco. É o final de novembro mas as autoridades locais ainda não ligaram o aquecimento. “Disseram-nos que apenas o iriam fazer se duas famílias partilhassem quarto. Estão apenas preparados para aquecer metade do edifício por causa dos custos. Mas o que querem é simplesmente impossível”, diz zangadamente Aladár, o pai de quatro crianças de 22 anos de idade.

Se olharmos para o espaço que Aladár partilha com a sua mulher e filhos torna-se óbvio que tem razão. É difícil imaginar como seis pessoas se conseguem deitar aí à noite quanto mais pensar em mais alguma.

De dia, as pessoas juntam-se no seu quarto porque é um de apenas três neste enorme edifício a cair aos bocados que tem um aquecedor elétrico por causa do seu bebé de um ano, Ibolya. Ibolya está doente – a sua palidez em comparação com os seus pais e irmãos é alarmante – e Erzi acabou de o levar ao médico. Do outro lado do corredor, o seu primo de quatro meses, Péter, tem uma tosse má. Também há um aquecedor elétrico no seu quarto mas a casa de banho em frente está gelada e está coberta de mofo verde.

Os pais de Péter, Géza e Sára levaram-no também ao médico mas não conseguem pagar os medicamentos receitados que custam pouco mais de onze euros. A família tem falta de comida assim como falta de dinheiro. Sára está a ter problemas em amamentar e dá a Péter leite em pó. Uma assistente social traz-lhes uma pequena caixa de alimentos diariamente que inclui pão, massa, leite, queijo e ovos mas não tem vegetais, fruta, carne ou peixe.

Todos dizem que a água da torneira não é segura e que bebê-la sem a ferver causa doenças. O abastecimento de fraldas das autoridades locais é inadequado – as mães apenas conseguem mudar a fralda às crianças duas vezes ao dia, piorando assim as suas já deficientes condições de higiene.

Condições de habitação no abrigo. Foto de Alexander Faludy.

O inexistente sistema de acolhimento de migrantes da Hungria

O sistema de acolhimento de migrantes da Hungria foi desmantelado depois da crise migratória de 2015 e da viragem radicalmente xenófoba causada pelo governo do presidente Viktor Orbán. Teoricamente os refugiados da Ucrânia são bem-vindos. Mas a infraestrutura para os apoiar é inexistente.

O governo partiu do princípio (correto na maior parte dos casos) de que a grande maioria dos ucranianos em fuga da guerra através da Hungria iriam viajar mais para ocidente para outros países da UE. Não se fez nada para contrariar a falta de condições das pessoas deslocadas desde fevereiro.

Mas entre 30.000 a 100.000 pessoas (as ONG dão números diferentes) permaneceram na Hungria. Habitualmente ciganos falantes de húngaro ou ucranianos que têm necessidades médicas complexas e que têm dificuldades em viajar, essas pessoas estão perigosamente vulneráveis.

“A sociedade civil e os governos locais estão a suportar uma carga pesada sem apoio do Estado central”, explicou Lilla Eredics, uma socióloga e investigadora, autora principal de um novo relatório sobre a situação dos ciganos ucranianos da Transcarpátia refugiados de guerra (publicado pela ONG húngara Fundação Romaversitas), quando nos encontrámos em Budapeste alguns dias antes.

Este relatório esboça os desafios que os refugiados ciganos da Ucrânia enfrentam . “A discriminação está presente estruturalmente e nas interações pessoais. Vemo-lo em todo o país na educação, saúde, alojamento e emprego” diz said Eredics que é também ela cigana. “Até no interior da sociedade civil há um fosso de conhecimento”. As ONG habitualmente trabalham com um foco, diz Eredics, mas “os refugiados ciganos estão na interseção de duas questões – as migrações e a integração dos ciganos”. “Isto quer dizer que as organizações em cada um dos campos podem ver as pessoas nesta situação como pertencendo principalmente à esfera dos outros”, diz. Eredics espera que o relatório ajude a que haja “abordagens mais integradas e holísticas”.

“Há muitas razões importantes que levam as pessoas a ter necessidade de sair de um país em guerra. A proximidade física aos combates é apenas uma delas”, acrescenta.

“Ficar nas lacunas” das instituições é um problema familiar aos refugiados de Csermajor. Dão conta de atrasos longos, não explicados, no processamento de requisição dos seus documentos, o que significa que podem ficar de fora dos apoios sociais e não ter acesso a serviços.

Depois de receberem permissão de estadia na Hungria de curto prazo (90 dias), há uma espera longa para conseguir o estatuto de residência por um ano – um desfasamento de três meses depois do estatuto de permanência de curto prazo ter expirado é habitual, parece.

As consequências podem ser duras. Pál, outro jovem que está no abrigo com a sua mulher e duas filhas, mostra-me a nota de despejo do abrigo que recebeu. A sua permissão de residência de 90 dias expirou mas apesar de ter requerido a outra, que o protegeria de um despejo durante um ano, ainda não a recebeu. Deram-lhe cinco dias para sair.

Pál está visivelmente perturbado mas espera que seja uma formalidade administrativa que não seja aplicada. Se for posto na rua, ficaria sem abrigo e separar-se-ia da família.

Os refugiados da Ucrânia têm direito apenas a 52 dias de subsídio de desemprego na Hungria. Em desespero, algumas das pessoas de Csermajor deslocam-se regularmente para outros países da UE à procura de apoios mas isto já não é possível à medida que os Estados da UE apertam os procedimentos. “Apenas duas famílias ainda o fazem”, diz Anna.

Alguns adultos têm documentos que lhes permitem legalmente trabalhar mas há poucos empregos e biscates disponíveis. As fracas oportunidades educativas na Ucrânia e os preconceitos para com os ciganos na Hungria acabam por significar que não há melhores trabalhos disponíveis. Se tiverem sorte, os homens conseguem trabalhar durante alguns dias no aviário local.

Apesar de legal, um emprego destes ainda pode causar problemas com as autoridades. “Ganhei um pouco de dinheiro e fomos comprar comida ao supermercado”, explica Géza, “um dos assistentes sociais locais estava lá e fotografou-nos a comprar coisas, como se quisesse provar que estávamos a burlar o sistema”.

O jardim de infância perto do abrigo renovado para ser utilizado por crianças refugiadas mas que estas não estão a poder frequentar.Foto de Alexander Faludy.

Problemas de escolarização

Cerca de uma dezena de crianças no abrigo para refugiados de Csermajor tem acesso limitado à educação, que também parece estar a ser deliberadamente segregada.

“É muito perturbador”, diz a professora Fruzsina Márkus-Zalatnay, que co-organizou uma escola de verão em Sopron [uma cidade vizinha] para crianças refugiadas ciganas. 40 professores voluntariaram-se para fornecer uma preparação intensa de forma a suavizar a entrada das crianças no sistema educativo húngaro em setembro.

“Noutros casos isto funcionou mas com as crianças de Csermajor ficámos frustrados”, disse. No início do novo ano escolar, o diretor da escola local recusou admitir a entrada das crianças ciganas junto com os alunos não ciganos, alegando que as suas necessidades não podiam ser atendidas no interior do sistema normal. “Há um problema porque estas crianças não são totalmente alfabetizadas”, disse Márkus-Zalatnay. “Não podem ser imediatamente integradas em classes para sua faixa etária [mas] o que está a acontecer claramente não é a melhor solução.”

Em vez disso, as crianças recebem duas horas por dia de aulas totalmente segregadas numa sala sem aquecimento no seu abrigo para refugiados, ministradas por um professor enviado pela escola local. Crianças de diferentes idades, de seis a 15 anos, são ensinadas no mesmo grupo.

Entretanto, há um jardim de infância bem equipado noutro prédio próximo, renovado em conjunto pela UNHCR e a Cruz Vermelha. Tem uma sala de aulas especialmente preparada para uso de breve prazo por crianças refugiadas em preparação para a entrada no sistema educacional húngaro – mas não pode ser utilizada para aulas normais. Há explicações contraditórias sobre a razão para isto acontecer, indicando um desacordo entre os assistentes sociais locais e as autoridades educativas por um lado e os representantes da Cruz Vermelha por outro.

“Penso que esta sala de aula foi concebida para ser mais usada mas alguma coisa aconteceu de errado antes de eu ter entrado”, explica Erika, uma professora reformada que se voluntariou para ensinar literacia básica no centro da Cruz Vermelha três horas por semana.

Não tem contacto com o professor enviado pela escola e ninguém consegue explicar a situação.

“É difícil motivar as crianças para se levantarem de manhã e irem para uma sala de aula fria ou para lá voltar depois da pausa do almoço”, explica Erzi. “É triste porque a escola de verão em Sopron foi mesmo muito boa para eles. Estavam felizes. Gostava que aprendessem.”

Nem o Gabinete de Comunicações Internacionais do governo húngaro nem o Auto-Governo Nacional Cigano, que representa os ciganos junto do Parlamento da Hungria, responderam aos pedidos de comentário a esta reportagem.


Desde o tempo em que esta reportagem foi feita, foi transmitido no canal de YouTube húngaro Partizán um pequeno documentário que mostrou as condições de vida dos ciganos no abrigo de Csermajor. Márkus-Zalatnay disse ao OpenDemocracy que isto levou as autoridades a ligar o aquecimento e a fornecer mais alimentos às pessoas aí alojadas.


Alexander Faludy é um padre anglicano. Estudou teologia na Universidade de Oxford.

Texto publicado no Open Democracy. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.