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PSP acusada de espancar mulher porque filha menor viajava sem passe

Motorista chamou a polícia porque a criança, de apenas oito anos, se esqueceu do passe. PSP terá agredido a mulher com socos e proferido insultos racistas. SOS Racismo pede que “se acabe com a impunidade da violência policial racista". Bloco questionou governo e deputada Beatriz Gomes Dias declara ser imperativo apurar todos os factos deste caso de alegada violência policial na Amadora.
Fotografias de Cláudia Simões antes e depois das agressões da Polícia de Segurança Pública.
Fotografias de Cláudia Simões antes e depois das agressões da Polícia de Segurança Pública.

A deputada bloquista Beatriz Gomes Dias esteve no tribunal e declara ser imperativo apurar todos os factos deste caso de alegada violência policial na Amadora.

Também a vereadora do Bloco de Esquerda na Câmara da Amadora, Deolinda Martin, esteve no tribunal e está a acompanhar o caso da alegada violência sobre Cláudia Simões. (veja declarações abaixo).

“Queremos acompanhar este caso, para que estas situações não continuem impunes”, realça a deputada Beatriz Gomes Dias.

A denúncia de Cláudia Simões

Cláudia Simões denuncia a agressão sofrida às mãos de agentes da Polícia de Segurança Pública. Tudo terá começado quando o motorista do autocarro da Vimeca onde viajavam chamou a polícia por ter visto que Vitória, a filha de oito ano de Cláudia Simões, viajava sem o passe. Porém, as crianças com menos de 12 anos podem viajar de autocarro sem pagar.

Em declarações ao jornal Contacto, a mulher explica que se tinham dirigido ao centro comercial Babilónia, na Amadora, para levantar um telemóvel que tinham encomendado. Para lá chegar tinham ido de carro, em boleia dada pelo companheiro de Cláudia. Eram nove da noite quando ela e Vitória entraram no autocarro 163 para regressar a casa. Foi aí que percebeu que a filha tinha esquecido do seu passe em casa.

“Nós entrámos no autocarro e quando a minha filha viu que não tinha o passe com ela, o motorista disse para sair. Eu respondi-lhe que ela tem o passe e que quando chegássemos ao nosso destino que o meu filho ia lá estar com o passe da menina”, relata a cidadã angolana de 42 anos.

Numa outra paragem terá entrado uma mulher brasileira com outra criança. O motorista terá voltado a dizer “para saírem do autocarro” e a cidadã brasileira explicou que “as crianças com essa idade não pagavam bilhete”. Terá sido aí que o motorista deu início a uma série de tiradas racistas.

“Vocês, pretos, macacos, ficam aqui a encher o nosso país. Estamos fartos de vocês. Vão embora para a vossa terra”. Segundo algumas testemunhas, várias pessoas no autocarro reagiram aos comentários racistas do motorista, perguntando-lhe se ele não tinha familiares emigrados noutros países.

Chegados ao Bairro do Bosque, o condutor terá saído do autocarro e procurado um polícia. Cláudia Simões afirma que o polícia saía da Taberna da Porcalhota e não estaria de serviço. Já a Direção Nacional da PSP em comunicado divulgado afirma que “o polícia se encontrava devidamente uniformizado a circular na via pública” e acusa Cláudia de se mostrar “agressiva”.

Ainda de acordo com a polícia, o agente terá sido agredido por várias pessoas em simultâneo, mas que ainda assim conseguiu deter Cláudia “utilizando a força estritamente necessária para o efeito face à sua resistência”. Já Cláudia conta uma história diferente: “ele agarrou-me, fez um mata-leão e caiu comigo de costas”. A mulher acusa ainda o polícia de ter empurrado a filha de oito anos enquanto esta pedia para que não matasse a sua mãe. Cláudia Simões afirma que terá mordido a mão do polícia, tal como afirma o comunicado da Direção Nacional da PSP, mas porque este a estava a sufocar e ela acreditava que ia morrer.

"Eu estava cheia de sangue e gritava muito"

Quando chegaram vários carros-patrulha, Cláudia foi algemada e levada para a esquadra. Ao Contacto, conta que “quando me meteram no carro eu não queria aquele polícia comigo e eles garantiram-me que ele ia noutro carro mas mentiram-me. Ele entrou para o meu lado enquanto outros dois agentes iam à frente. Durante o caminho todo fui esmurrada enquanto estava algemada. Ele gritava 'filha da puta', 'preta do caralho' e 'cona da tua mãe' enquanto me dava socos. Eu estava cheia de sangue e gritava muito. Então, subiram o volume da música para não me ouvirem na rua”.

O destino era a esquadra da Boba, em Casal de S. Brás, mas não chegaram a entrar. Antes, a polícia teve de chamar uma ambulância que levou Cláudia para o Hospital Amadora-Sintra.

Uma vez no hospital, a mulher afirma que a médica que a atendeu se recusou a entregar-lhe o relatório médico, alegando “que isso era responsabilidade do tribunal”, pode ler-se no jornal Contacto. Cláudia conta ainda que quando pediu que contactassem um familiar, a médica que respondeu que “vocês é que arranjam problemas com os polícias”.

Cláudia Simões terá de se apresentar como arguida no próximo dia 22 de janeiro no Tribunal da Amadora, em Alfragide. “Vou ser arguida amanhã com a cara neste estado. Como posso ser eu a arguida?”, afirma.

Acabar com "impunidade da violência policial racista"

Em comunicado, a associação SOS Racismo faz saber que "tudo fará para que o caso seja conduzido até às últimas consequências para que se faça justiça e que se acabe com a impunidade da violência policial racista".

Os ativistas antiracistas afirmam ainda repudiar a "impunidade que tem permitido a perpetuação do abuso de força e uso de violência por partes de elementos das forças de segurança contra pessoas racializadas".

Bloco quer esclarecimento cabal dos factos

A deputada bloquista Beatriz Gomes Dias já reagiu, afirmando ser imperativo apurar todos os factos deste caso de alegada violência policial. A dirigente do Bloco lembrou que há muito que o partido alerta para a extrema necessidade de garantir a formação adequada das forças policiais por forma a evitar que continuem a ocorrer casos de discriminação racial e de violência policial.

O Bloco já questionou governo, perguntando através do ministério da Administração Interna (MAI), que medidas concretas têm sido tomadas para formar adequadamente as forças policiais, nomeadamente no que diz respeito ao uso da força, e se já deu conhecimento ao IGAI dos factos para apuramento de responsabilidades.

No documento, o Bloco aponta que “vê com preocupação os casos de violência policial, um problema diagnosticado por diversas entidades e referido em relatórios recentes da Amnistia Internacional ou da Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância”.

Notícia atualizada às 19h e às 22h30 do dia 21 de janeiro de 2020

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