“O que é que acontece quando toda a regulamentação do pós-crise se focou nos bancos, nos critérios de capital dos bancos, nos critérios de liquidez nos bancos, na união bancária que restringe a capacidade de o Estado intervir nos bancos, tudo em nome da estabilidade financeira, mas se deixa o resto, todo o resto do sistema à larga, para fazer o que quer, para se financiar como quer?”, questionou Mariana Mortágua no painel em que participou.
“Não é preciso ser muito clarividente” para dizer que é da banca sombra “que virá a próxima crise financeira”, respondeu a deputada, citada pela agência Lusa.
“Ela virá dos milhares de milhões que são transacionados em ativos, que são emitidos por empresas que não estão cotadas na bolsa - muitas delas, outras estão -, que são falsos sucessos em nome de um jargão tecnológico, mas que na verdade não são nada. Ninguém verificou as suas contas, são financiadas através de esquemas circulares, num contexto de falta de regulamentação”, defendeu.
Mariana Mortágua exemplificou com a falência da Greensill Capital e de Sanjeev Gupta, uma instituição financeira que está no centro de um escândalo de influência junto do Governo do Reino Unido e cuja história “é importante e interessante” e “não envolve bancos”.
“Neste momento, 60% do crédito concedido é concedido por instituições que não são bancos”, mas sim por “instituições sombra” que já ultrapassaram o poder dos bancos.
E explicou: A banca sombra “são entidades que não são bancos, mas que agem como se fossem, concedem crédito e para conceder esse crédito vão buscar dinheiro ao mercado financeiro em vez de o criar nos seus balanços ou de se financiarem através de depósitos”.
“Estamos habituados em Portugal a ver crises financeiras com bancos, com crédito mal concedido, com abuso de poder por parte de bancos, com ligações muito próximas entre bancos e empresas. Achamos que isso só acontece porque é o sistema bancário português, porque é o capitalismo português, porque é o capitalismo de aviário português, porque é a proximidade das relações económicas portuguesas”, referiu.
Mariana Mortágua considerou “tudo isso ser verdade”, mas destacou que é preciso não esquecer “que todas estas relações existem em todas as escalas, inclusive à escala mundial e à maior escala mundial como é o caso do Greensill”, que “era o maior emissor de obrigações do mundo”.