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O legado anticapitalista de Mark Fisher

Mark Fisher deu à esquerda o abanão imaginativo de que precisava para acordar do pesadelo da complacência neoliberal. Os seus escritos sobre saúde mental representaram uma série de inversões brilhantes. O Realismo Capitalista foi o livro de bolso de inúmeros manifestantes na década de 2010. Por Alex Niven.
Mark Fisher. Foto Wikimedia Commons.
Mark Fisher. Foto Wikimedia Commons.

“Querido Mark”, começava um e-mail que escrevi para um homem que não conhecia nos primeiros dias de 2010:

"Li o seu livro “Realismo Capitalista” na semana passada e senti-me como se tivesse subido e alcançado o ar depois de ter passado muito tempo debaixo de água. Gostaria de agradecer do fundo do meu coração por dar uma expressão tão eloquente a praticamente tudo o que precisava que fosse dito e por fornecer um motivo de esperança, quando eu estava prestes a entrar em desespero."

Para aqueles que não estão familiarizados com o trabalho do teórico, escritor sobre música, jornalista, crítico de cinema, filósofo, editor e palestrante Mark Fisher, que tristemente tirou a própria vida a 13 de janeiro de 2017, o e-mail acima pode parecer hiperbólico ou bajulador. Não é nem um, nem outro. Como tantos outros ativistas da minha geração, encontrar o livro Realismo Capitalista aos 25 anos de idade transformou a minha vida.

Durante um período complicado – tinha recentemente sofrido um choque frontal com a indústria musical britânica – os textos de Mark deram-me um motivo de esperança. Através da sua eloquência, lucidez, mas mais do que isso, da sua capacidade de chegar ao cerne do que estava errado na cultura do capitalismo tardio e certo em relação à putativa alternativa, ele parecia ter decifrado algum código inefável. Realismo Capitalista trazia uma série de argumentos simples que contornavam anos de uma cerca pós-moderna oferecendo-nos uma base para a ação; era um apelo espiritual às armas que diagnosticava o problema neoliberal e reimaginava a solução socialista com a força de revelação.

Esta descrição corre o risco de conceder a Mark o papel dúbio de mártir da contra-cultura – um arquétipo ao qual ele próprio regressava repetidamente nos seus escritos, nomeadamente através dos exemplos de Kurt Cobain e Ian Curtis. Mas a produção literária de Mark, e o Realismo Capitalista em particular, sempre teve um aspeto profético ou, pelo menos, uma presciência fantástica. Ele parecia ter compreendido certas verdades sobre o século XXI muito antes de toda a gente, tanto que, após a tragédia da sua morte, as pessoas continuam a interpretar publicações feitas com o seu pseudónimo k-punk, no início dos anos 2000, como comentários oportunos para entender o nosso presente mal-estar.

Talvez a minha sensação do Realismo Capitalista como uma repentina epifania venha do facto de só ter conhecido Mark nos seus últimos anos de vida, quando trabalhamos juntos na editora Zero Books e depois na Repeater, período em que ele adquiriu um certo grau de aclamação tardia.

Nas duas editoras, a equipa entendeu tacitamente que Mark era o coração do projeto, mesmo quando saía do radar por longos períodos. A alguma distância, Mark era o nosso autor best-seller: um herói de culto que atraiu gradualmente a atenção de políticos e celebridades como Slavoj Žižek, Laurie Anderson, John McDonnell e Russell Brand.

Ele também era nove décimos da nossa identidade, mesmo quando foi ficando cada vez mais silencioso ao longo do último ano. Quando saímos de Zero Books para formar a Repeater após uma longa disputa com a empresa que controlava a editora, sabíamos que, independentemente da legalidade da situação, Mark era a Zero Books e, portanto, era a Repeater, e que, em última análise, apenas ele possuía a propriedade moral de qualquer uma das marcas.

Para aqueles que conheceram Mark antes de mim, a sua ascensão à centralidade intelectual na última década apareceu como o resultado inevitável de uma longa e rica trajetória, que combinava o comum e o unheimlich.

Ele nasceu em 1968 em East Midlands, uma área que fica numa linha ambígua entre o norte e o sul da Inglaterra. A região tem uma forte herança industrial e forjou os levantamentos luditas da década de 1810, contudo, está próxima do terreno pastoral tradicional de escritores do sul da Inglaterra, como Thomas Hardy e M. R. James. Mark aludia regularmente aos efeitos das suas origens nesta zona limite da classe trabalhadora: nas suas seminais publicações no The Fall em 2006-7 e, mais controversamente, na sua polémica de 2013 “Exiting the Vampire Castle“. Na verdade, Mark escreveu sobre classe com mais subtileza e veemência do que qualquer outro crítico contemporâneo.

Mas fica-se com a sensação de que ele estava a deixar algumas coisas por dizer. Eu sempre suspeitei que Mark estava a acumular material para um grande trabalho sobre identidade de classe nos anos setenta e oitenta. Nos últimos dois anos da sua vida, escrevia sobre a cultura do futebol e acho que esse assunto estava para ele no cerne da questão.

Um facto pouco discutido – porque é pouco conhecido – é que Mark estava no estádio de Hillsborough em 15 de abril de 1989, quando noventa e seis adeptos do Liverpool foram esmagados até a morte graças à incompetência da polícia. Cauteloso de forma a não exagerar o seu envolvimento pessoal – Mark era um adepto do Nottingham Forest, estava a alguma distância do local em que as mortes ocorreram – raramente falava sobre Hillsborough. Mas a tragédia e o seu encobrimento subsequente tiveram um impacto profundo no sua forma de ver a política.

Para Mark, os traumas coletivos do proletariado inglês nos anos setenta e oitenta eram experiências vivas cruciais, sempre dolorosamente imediatas. Um longo trecho da sua antologia, Ghosts of My Life, de 2014, cobre a cultura pop britânica dos anos setenta e o seu projeto intelectual foi amplamente organizado em torno do que ele chamou “modernismo pulp” (mais tarde emendado para “modernismo popular”).

Este projeto excedia em muito os banais estudos culturais. Mark nunca cedeu à nostalgia dos anos pós-guerra (como os seus riffs melancólicos sobre os Joy Division e Jimmy Savile em Ghosts sublinham), mas acreditava que a contra-cultura social-democrata entre 1965 e 1997 representava o verdadeiro ponto culminante do modernismo do século XX. Como tal, significava o zénite do desenvolvimento estético humano e estudá-lo tornava-se uma fonte de um imenso potencial radical. Como nos lembra Owen Hatherley, os escritos sobre a cultura pop de Mark não se participavam da viragem irónica pós-moderna tão prevalecente no final do século passado. Mark acreditava no poder da cultura de massa com todas as facetas do ser intelectual e essa é uma das muitas coisas que o diferenciam de seus antecessores e contemporâneios filosóficos, especialmente Žižek e Jameson.

Na década de 1990, Mark apanhou o final do modernismo popular realmente existente, ao mergulhar numa cena intelectual que esticava o pós-estruturalismo até ao seu limite natural. Enquanto escrevia seu doutoramento na Universidade de Warwick, envolveu-se com a Unidade de Pesquisa em Cultura Cibernética (Ccru) de Nick Land, uma manifestação precoce e às vezes desviante da tendência “aceleracionista” que foi recentemente reanimada sob auspícios mais pragmáticos.

Com a alta cultura teórica como guarda-chuva, o grupo Ccru agarrou o zeitgeist – drum and bass, cyberpunk, ficção pulp, cultura inicial da Internet – e seguiu com ele. Aqui, estavam sintetizados muito dos principais motivos intelectuais de Mark. Ele até explorou a produção musical, primeiro como membro do coletivo de música jungle D-Generation e depois como arquiteto do tema “Anticlimax (Inhumans Moreerotic Female Orgasm Analog Mix)”, cujo título nos deixa vislumbrar um lado de Mark pouco conhecido, mais brincalhão.

O período Ccru foi uma época de atividades inebriantes e Mark só caiu em si como crítico depois de 2000. Como pedra angular de uma comunidade de blogs que incluía o jornalista musical Simon Reynolds, a filósofa Nina Power e o crítico de arquitetura Owen Hatherley, entre outros, “Mark k-punk” ajudou a desenvolver e popularizar uma nova sensibilidade intelectual centrada numa importante recalibração do conceito de “espectrologia.

O termo surgiu como uma espécie de trocadilho nos Espectros de Marx de Derrida, em 1994, mas Mark usou-o como um meio de promover o modernismo popular. As suas publicações no blog k-punk tipicamente alternavam entre dissecações selvagens da cena musical moribunda de meados dos anos 2000 e extensas discussões sobre como a cultura pop socialista e social-democrata do pós-guerra continuava a assombrar o presente, uma época em que as alternativas políticas anticapitalistas praticamente se tinham evaporado.

O conceito de espectrologia, que Mark ajudou a divulgar, começou como uma categoria amplamente estética durante um período de estagnação política. Após a crise financeira de 2008, no entanto, solidificou-se em algo mais programático. Com o seu amigo íntimo, o romancista Tariq Goddard, juntou o melhor da cena dos blogues dos anos 2000 e fundou a editora Zero Books, que se tornou uma espécie de berçário para as ideias que sustentam o ativismo revitalizado que se espalhou pelo Reino Unido – e pelo mundo – na passagem da década de 2000 para a de 2010.

O Militant Modernism de Owen Hatherley, o One-Dimensional Woman de Nina Power e o Non-Stop Inertia de Ivor Southwood foram os primeiros destaques. Mas foi o Realismo Capitalista que foi o livro de bolso de inúmeros manifestantes nos protestos estudantis de 2010 e que se tornou o manifesto não oficial do ressurgimento da esquerda em 2011 – o chamado “ano em que sonhamos perigosamente”.

Talvez devêssemos olhar com mais ceticismo, do ponto de vista um pouco mais sombrio dos dias de hoje, para a ênfase no “sonhar”, nas vagas promessas daquele período sobre outro mundo novo e possível. Certamente, o Realismo Capitalista não oferece muito em termos de pronunciamentos doutrinários, recusando-se amplamente a abordar como o capitalismo pode efetivamente ser derrotado. A revolução que ele incentivou nos leitores era bem mais subtil e, em retrospetiva, mais apropriada para um movimento que estava, e provavelmente ainda está, nos estágios iniciais do seu ressurgimento. O primeiro passo na luta contra a de-socialização entrincheirada e disforia do século XXI, argumenta o livro, deve ser uma simples libertação da consciência.

Isso inicialmente parece um retrocesso ao esquerdismo fracassado dos anos sessenta e setenta e na verdade Anti-Édipo de Deleuze e Guattari é um dos modelos do Realismo Capitalista. Mark distingue o seu argumento, contudo, tornando a subjetividade contemporânea o principal local de luta e, em última análise, um meio de reativar a coletividade. Os seus escritos sobre saúde mental representaram uma série de inversões brilhantes. Pensa que se sente mal por causa de algum mal arbitrário chamado depressão, mas será que as suas condições de trabalho não podem ter a ver com isso? Foi-nos contado que o capitalismo neoliberal nos libertou dos horrores das distopias estatais, então porque é que os problemas de saúde mental dispararam nos últimos anos? E se olharmos para além da nossa obsessão connosco próprios por um minuto e enfatizarmos novamente a nossa sociabilidade? E se organizasses um protesto e todos viessem? Estas eram as perguntas líricas e elementares que o Realismo Capitalista colocava e iluminam porque é que a sua leitura foi uma experiência tão emocional e transformadora para tantas pessoas.

Talvez porque a personalidade e os argumentos filosóficos de Mark dependessem de um tipo de altruísmo radical, a sua vida profissional foi mais difícil do que deveria ter sido, apesar do seu considerável valor e realizações intelectuais. Chocantemente, ele só obteve um cargo académico permanente nos últimos anos e foi um laureado da precariedade numa altura em que isto se tornou um conceito significativamente crítico.

Lamentava-se regularmente do grande volume de burocracia exigido pelo trabalho académico e foi vítima da cultura de denúncia que paralisou o discurso da esquerda nos últimos anos. Deixou o Twitter após uma controvérsia provocada por “Sair do castelo dos vampiros“, depois de ter sido bombardeado com acusações ridículas de misoginia e chauvinismo. No entanto, apesar do grande détournement de Mark ter sido reinstituir um enquadramento sociopolítico para a compreensão de doenças mentais, é evidente, a partir dos factos disponíveis, que, embora as pressões sociais exacerbassem a sua depressão, elas não eram a sua única causa.

Na nossa reflexão sobre o legado de Mark, devemos prestar muita atenção à insistência dele em “Sair do castelo dos vampiros” de que devemos sempre operar “numa atmosfera de camaradagem e solidariedade”. Depois do nadir organizado da esquerda durante os anos Bush-Blair, o trabalho de Mark representou, mais do que qualquer outra pessoa, um salto de fé muito necessário para nos afastarmos do individualismo capitalista e para entrarmos numa práxis comunitária. No seu fulcro, apelava a um espírito de equipa sólido como uma rocha. Mark praticou esse credo na sua vida e obra e podemos prestar-lhe uma pequena homenagem seguindo o seu exemplo.


Alex Niven é professor de literatura inglesa na Universidade de Newcastle e editor-geral da Repeater Books. O seu primeiro livro, Folk Oposition, foi publicado pela Zero Books em 2011.

Traduzido por Cauê Seigner Ameni para a Jacobin Brasil. Editado para o português de Portugal pelo Esquerda.net.

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