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O futebol e o resto

É vergonhoso que um país que tem diversas seleções campeãs europeias e atletas em aclamadas competições internacionais, deixe para trás as modalidades que não são futebol. Texto de António Soares
Se as restantes modalidades não tiverem acesso aos mesmos apoios que o desporto milionário, viverão eternamente numa corrida desproporcional, no qual o futebol arranca a 100m da meta e os outros desportos a 42km - Foto de desportotransmontano.com
Se as restantes modalidades não tiverem acesso aos mesmos apoios que o desporto milionário, viverão eternamente numa corrida desproporcional, no qual o futebol arranca a 100m da meta e os outros desportos a 42km - Foto de desportotransmontano.com

É do conhecimento geral o favorecimento que o futebol profissional masculino tem em comparação com as restantes modalidades. Esta diferença no tratamento foi notória no final da época passada, quando várias federações, devido à pandemia, deram por encerrados os seus campeonatos, muitos sem campeão e com decisões, que normalmente seriam tomadas dentro do recinto de jogo, a ser tomadas na secretaria. Enquanto isso, no futebol masculino, a DGS e o Governo autorizaram não só que a Primeira Liga fosse concluída em campo, como também que Portugal fosse palco da inédita fase final da Liga dos Campeões.

Vivemos agora a segunda vaga da pandemia e mais uma vez quem tem que ficar em stand-by são os escalões de formação e as modalidades que não do futebol masculino. As camadas jovens estão sem competição e no fim-de-semana de 30 de Outubro e 1 de Novembro só houve competição para a I e a II Liga de futebol masculino, de maneira a conter a pandemia e a circulação de pessoas para fora dos concelhos. No meio disto tudo, permaneceu um tratamento desigual.

A falta de segurança e de apoios poderá conduzir muitos clubes e associações desportivas à rutura, ao mesmo tempo que muitos jovens e atletas amadores abdicam da prática desportiva. Tema este já levantado pelo Comité Olímpico Português, pelo Comité Paralímpico Português e pela Confederação do Desporto Português, que alertaram numa carta aberta ao primeiro-ministro para a origem de uma crise desportiva originada pela Covid-19. Falam ao Governo da falta de medidas e da “desconsideração” do desporto, no Orçamento de Estado para 2021.

Pela criação de um fundo de apoio ao desporto

No parlamento foi aprovado, na passada sexta-feira (dia 4) um projeto de resolução, por parte do Bloco de Esquerda, que visa a criação de um fundo de apoio para o desporto. Não esquecer as modalidades e o desporto não profissional - onde se incluem os escalões de formação - é essencial. Seria penoso para o desporto nacional que por falta de segurança e de apoios do Estado, estas pessoas tivessem que abandonar os seus clubes e modalidades. É vergonhoso que um país que tem diversas seleções campeãs europeias e atletas em aclamadas competições internacionais, deixe para trás as modalidade que não são futebol. Seria caótico, não só para a saúde física e mental dos jovens e atletas, mas também para os clubes e associações desportivas, que já bem antes da pandemia tinham dificuldades financeiras e viviam na sua grande maioria, da formação de atletas. Sem apoios durante o ano estes clubes, associações e federações andam na corda bamba, sem apoios durante a pandemia, a corda rompe.

A diferença das modalidades e dos escalões de formação em comparação com o futebol profissional masculino, é o lucro que estes contraem. Se as modalidades e os jovens atletas produzissem metade do dinheiro que o futebol profissional produz, já teriam surgido soluções concretas e que permitissem a sua segurança sanitária. Porém, as políticas sem perspetiva futura a curto/médio prazo, irão fazer ressentir o desporto de alto rendimento, a menos de um ano dos Jogos Olímpicos de Tóquio. E sem as camadas jovens, futuramente, também deixarão de existir equipas seniores.

O desigual tratamento entre futebol masculino e as restantes modalidades só alimenta a cultura do futebol como dito desporto rei e continuará a passar para segundo plano outros desportos. Se a aposta não for equilibrada nunca iremos sair deste ciclo vicioso. Se as restantes modalidades não tiverem acesso aos mesmos apoios que o desporto milionário, viverão eternamente numa corrida desproporcional, no qual o futebol arranca a 100m da meta e os outros desportos a 42km.

Artigo de António Soares.

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