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Mulheres de Abril: Testemunho de Helena Pato

Estava sempre numa ansiedade, desejando ir [de uma vez…] para tortura de sono. Queria ver-me livre daquilo. Tinha medo e sabia que esse era o meu destino, mais cedo ou mais tarde. Por Helena Pato.
Helena Pato, ficheiro da PIDE, 1967.

 

Este testemunho foi recolhido no âmbito do projeto Mulheres de Abril, iniciado em 2018, e que compila relatos, na primeira pessoa, de mulheres antifascistas sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura. Coordenação de Mariana Carneiro.


Tantos anos, tanta luta, tantas vitórias, tanta dor, tantas alegrias! 

Sou de uma família de tradições democráticas republicanas, do lado do meu pai. Do lado da minha mãe eram pequenos proprietários da Bairrada, sem nenhuma consciência política. O meu avô paterno esteve preso em Caxias, creio que ligado ao Reviralho, quando estudava Agronomia em Lisboa. O meu pai, regente agrícola, era um convicto antifascista, sem actividade política, mas vigiado pela PIDE, desde que viemos viver para Lisboa [funcionário público, trabalhava na Estação Agronómica Nacional]. A minha mãe, professora do ensino primário, era católica, também antifascista mas sem grande consciência política. Em minha casa, o quotidiano era orientado por valores democráticos e cristãos, o amor pela Natureza era fomentado a par e passo, e os livros não seriam muitos, mas os grandes clássicos – o Eça, o Camus, o Tolstoi, … – e toda a Biblioteca Cosmos estavam por ali. Reuníamo-nos todos, à noite, na pequena salinha onde estudávamos ou trabalhávamos, aquecidos por uma salamandra de briquetes. Tenho dois irmãos gémeos e fomos criados com pouco, na roupa e à mesa - as cerejas para cada um de nós eram contadas, de carne cabia-nos uma fatia, os meus vestidos e sapatos eram herdados de uma prima, e não havia dinheiro para extravagâncias. O acesso ao liceu era um luxo, mas teve essa contrapartida de sacrifícios, numa época em que a minha mãe tirava a especialidade de crianças “atrasadas mentais” (assim se chamava) e o meu pai, para aumentar o ordenado, dava assistência na produção vitivinícola de algumas quintas dos arredores da capital. [Foi por isso que passei tardes e tardes da minha infância e adolescência na Quinta da Amora, então dos ingleses Reynolds, hoje propriedade do PCP e lugar da Festa do Avante].


Helena Pato com a mãe, 1943.

Fui baptizada, por opção da minha mãe e com o assentimento tolerante do meu pai, ateu até morrer. A uma certa altura, no Liceu Filipa, onde andava, fui convencida a ir ajudar, aos domingos, no apoio aos pobres, esfarrapados e subnutridos dos «bairros de lata», integrada na Conferência de S. Vicente de Paulo. Foi aí que comecei a descobrir a pobreza real do país, de que o meu pai falava para defender os regimes socialistas de Leste [Era pró-soviético e, depois do 25 de Abril, tornou-se social-democrata].

É no confronto com a realidade da pobreza que começo a ganhar consciência política

A minha família era da Bairrada, uma região de pequena propriedade e muita emigração, onde não havia miséria. Percebe-se, por isso, que tenha sido no confronto com aquela realidade social de enorme pobreza – criada e acarinhada pelo regime, com grande cumplicidade da Igreja – que dei os primeiros passos na tomada de consciência política. A tal ponto que, a dada altura, não só deixei de ir às «visitas dominicais aos pobres», como me desliguei da «Pré JEC», a que pertencia. Lembro-me de ir então falar com a pessoa que maior influência tinha em mim, nesse meu percurso pela Igreja católica: Maria de Lourdes Pintasilgo, minha professora de Formação Feminina, no liceu. Disse-lhe que tinha deixado de acreditar em Deus, que tinha perdido a fé, e que não fazia sentido continuar ligada à Igreja, nem a essas actividades. «Não te preocupes, deixaste de estar em estado de graça, mas um dia ele voltar-te-á. Podemos ser bons cristãos sem estarmos no seio da Igreja Católica. Segue a tua vontade de ajudar os outros e escolhe a tua via». Talvez estas palavras, muito marcantes, tenham de algum modo determinado o meu rumo político, dado que eu tinha 14 anos e uma grande confiança naquela mulher. [Acho mesmo, a esta distância, que tinha até uma certa paixoneta por ela…]. Pouco tempo depois, assumo as consequências de um combate, no liceu, contra a directora da Mocidade Portuguesa, quando «desmobilizo» a minha turma nas inscrições para a excursão de fim de curso ao Algarve, que ela organizava [Não se realizou]. Não foi uma acção anti-regime, foi uma simples reacção juvenil de revolta: ela, Virgínia Paraíso, tinha-me expulsado da «festa de fim de ano», por levar um vestido sem mangas, impedindo-me de cantar uma canção “a solo”, inserida no programa. [Tudo me revoltou muito: o vestido, decentíssimo, tinha sido feito pela minha mãe, a partir de um vestido de uma prima, por não haver dinheiro para gastar em roupa para a festa; e a canção havia sido entusiasticamente ensaiada, horas e horas, no Canto Coral].

Inicio a minha actividade política na fase final do MUD Juvenil

Quando, em Outubro de 1956, chego à Faculdade de Ciências, começo por me deslumbrar com a Associação de Estudantes. Por estranho que possa parecer, foi a mesa de ping-pong o que ali mais me atraiu nos primeiros tempos. Chegava todos os dias às 7.30, punha umas sapatilhas, e disputava uns jogos com o Paulo Jorge, um angolano politicamente informado, progressista [mais tarde do MPLA e Ministro de Angola], que me falava muito de política e de anticolonialismo. Nos almoços e nos “convívios”, na Associação, só me lembro de gente interessante e culta – os «democratas». [Os outros – talvez a maioria “amorfa” dos estudantes… – paravam pouco por ali. As raparigas viviam permanentemente numas instalações situadas à esquerda, na entrada da Faculdade, evitando misturar-se com os rapazes, o que as levava a um afastamento da Associação]. É nesse espaço, em inúmeras actividades da Associação, que travo relações mais aprofundadas com dirigentes do movimento associativo e com colegas do MUD Juvenil, que não eram da Faculdade de Ciências. E descubro nesta gente, do ponto de vista humano, o que tinha conhecido na breve passagem pela Igreja Católica: o mesmo sentido humanitário de solidariedade, de entreajuda, mas tendo por base um projecto social (e político) comum. E uma grande alegria de viver. Transferi, sem delongas, os valores cristãos que me haviam levado à Conferência S. Vicente de Paulo, para um projecto mundial de Paz e de solidariedade internacionalista, e aderi ao MUD Juvenil. Os anos que se seguiram foram tempo de aprendizagem, de formação política e moral. Bebíamos no MUD Juvenil (e nas ligações que perduraram, quando ele findou), a pureza nas relações, um sistema sólido de princípios e a crença num ideal que movia o mundo. Ali, com eles, eu sentia que estava ao nosso alcance transformar o sonho em realidade. [Era uma escola de Vida! E ainda hoje me surpreendo com os laços de amizade e ternura, que mantemos entre nós – aqueles da minha geração, que partilhámos essa esperança num mundo diferente, de justiça e igualdade… – mesmo se, depois, acabámos por seguir em direcções algo diversas…].

Foi, pois, no MUD Juvenil que comecei a minha actividade política, de uma forma muito discreta, envergonhada, já que tinha muito respeito e uma certa reverência por aqueles amigos. [Ouvia, ouvia e evitava falar, durante as reuniões que tinham lugar na casa dos irmãos Bernardino e de outros angolanos, na Avenida de Roma]. Entretanto, apareceram os primeiros cineclubes – outros espaços de cultura e politização – e não tardei a ligar-me ao Cineclube Universitário. Ainda no meu primeiro ano de Faculdade, cai em cheio a crise académica do Dec.- Lei 40 900 [visando ferir de morte as associações de estudantes] e eu fui arrastada no turbilhão do protesto estudantil. A actividade que eu desenvolvia nesse processo era cada vez mais consciente, mas também muito motivada por uma recente relação amorosa com o Alfredo Noales – que era, à época, o Secretário Geral da RIA (Reunião Inter Associações), um órgão de coordenação do movimento associativo. O Alfredo era aluno de Físico-Químicas, jornalista do República, pertencia ao Partido Comunista, e teve um papel importantíssimo na minha consciencialização política e na minha formação cultural. Em 1958 foi preso. Ligado à campanha de Arlindo Vicente, primeiro, e, depois, à campanha de Humberto Delgado, a PIDE “apercebe-se” de que ele é um elo de ligação do PCP com a campanha eleitoral e prende-o, tortura-o e, sem provas, liberta-o ao fim de dois meses. É esse o primeiro contacto que tenho com a PIDE e com a cadeia de Caxias, embora não pudesse visitá-lo. [Eu tinha então 19 anos e só vim a casar-me com ele aos 21]. Aos poucos, a minha vida associativa tornara-se mais regular e efectiva e a minha consciência política aumentara, obviamente, durante a campanha eleitoral de 1958. As reuniões do MUD Juvenil eram já inexistentes, eu ansiava por entrar para o PCP, mas não passava da condição de «simpatizante» – recebia a imprensa do partido e conversava informalmente com o meu namorado, que se limitava a dizer-me que esperasse, que uma entrada no partido exigia que desse “provas”. E eu esperava, ansiosa. [Em 1959, cheguei a meter “uma cunha” a um amigo, o Vasco Cabral, (depois dirigente do PAIGC), persuadida que estava de que ele pertenceria ao PCP. Perguntou-me se já tinha recebido Avantes, respondi-lhe que não. “Então, calma! Um dia receberás Avantes e depois o contacto logo virá….”]. Enquanto aguardava, progredia na militância no âmbito da Associação e, também no namoro…, frequentando a Casa dos Estudantes do Império, rumo a um casamento que eu desejava, tanto ou mais que a entrada nas fileiras do partido.

Casei em 1960 e nas fotografias desse dia encontram-se inúmeros amigos, que foram depois dirigentes na luta antifascista ou anticolonialista.

A luta continuava …

Nas associações de estudantes e por todo o País, avolumava-se o descontentamento com o Governo de Salazar. As reivindicações operárias iam em crescendo: eram as lutas dos trabalhadores rurais pelo horário das 8 horas e, em toda a cintura industrial de Lisboa, muitas reivindicações operárias, com a liderança do PCP. A crise académica, em Lisboa, subira de tom, dirigida por um grupo muito unitário de estudantes [Jorge Sampaio, Eurico Figueiredo, Medeiros Ferreira, Albano Nunes são alguns deles]. Na madrugada de 11 de maio de 1962, 1500 estudantes foram presos na Cantina da Cidade Universitária. Foi a maior detenção realizada durante o regime fascista e eu fui uma das 50 e tal estudantes que encheram os calabouços do Governo Civil de Lisboa. Os meus colegas, rapazes e raparigas, que antes se mantinham numa postura de indiferença ou alheamento, vinham agora para o campo da oposição ao Ministério da Educação.

Parti para Paris, para o exílio, sem saber quando voltávamos

Nesse mesmo ano, o Alfredo esteve envolvido na organização do 1º de Maio em Lisboa. Foi o primeiro 1º de Maio de luta, para muitos milhares de pessoas em todo o país, um passo importante no combate político contra a ditadura. Meses depois, o meu marido teve de ir para o exílio, denunciado, fugindo à prisão que o ameaçava. Em 24 horas, conseguiu sair. Fomos falar com os meus pais e com os meus sogros, que pagaram o bilhete de avião. [Na partida dele, uma história mirabolante: eu estava com um casal de amigos à espera de ver o avião levantar voo, quando vimos o Alfredo a entrar no avião e, já depois de terem fechado a porta, esta voltou a abrir-se, subiram dois homens que foram buscar alguém dentro do avião. Não era o Alfredo. Que aflição!].

Fiquei um mês em Lisboa, a preparar tudo, a vender aos amigos o recheio da minha casa, em lotes, para poder juntar-me a ele em Paris. Nem uma jarra para flores restou. Ainda hoje tenho alguma dificuldade em recordar «a nossa casa de Campo de Ourique» [quando passo em frente não consigo olhar]. Era tudo feito por nós, desde as cortinas, à estante, e eu fiquei aquele mês a ver sair todas as coisas pela porta e a chorar à escondidas. Parti para Paris, para o exílio, sem saber quando voltávamos, embora soubesse que, por meu lado, eu podia entrar em Portugal. Nessa altura, ainda não estava no PCP, mas pouco tempo passou até uma camarada (que ia às vezes lá a casa) me perguntar se eu queria entrar para o Partido. “Finalmente!” – pensei.

Seguem-se os tempos de Paris. Na pobreza – não exagero, passei de facto fome. Passávamos um dia inteiro com uma baguete de pão e uma chávena de café, e à noite repetíamos a dose. Um triângulo de queijo “Vache qui rit” era luxo. Assim foi, até conseguirmos inscrever-nos na universidade, por forma a podermos ter direito às cantinas universitárias. Os primeiros três meses foram terríveis. Era Inverno, estávamos mal vestidos, o frio era grande, e o dinheiro que eu ganhava a limpar a neve, na casa de um general, mal chegava para pagar a renda do quarto alugado. Valiam-nos as encomendas com bacalhau e cigarros, enviadas pela família e o calor da amizade de amigos [que já lá estavam, como o António José Saraiva, o Silas Cerqueira, o Jorge Reis e a Maria Lamas]. Os anos no exílio foram passando, com um grupo de amigos que se foi alargando e com quem estreitámos laços de bastante proximidade. O Luís Cília, o José Mário Branco, o Carlos Tomé, a Antónia e o Alfredo Nascimento, a Myriam Halpern e o Veiga Pereira, o Victor Carvalho, o Manuel Alegre, o Emílio Campos Lima. Nunca esquecerei o enorme apoio que nos foi dado pela Maria Padez, uma resistente antifascista que casara com um advogado francês comunista.


Helena Pato, 1963.

Tive diversos trabalhos esporádicos, até decidirmos que eu vinha acabar a licenciatura em Coimbra [Em Paris não conseguia obter equivalência às cadeiras (de Matemática, até ao 3º ano) que já tinha feito em Portugal]. Durante o ano 1963/64 passei a vir (todos os meses) a Coimbra, e quase terminei o 4º ano, com a cumplicidade antifascista de alguns dos meus professores (nomeadamente do Luís Albuquerque). Um dia, no regresso de Coimbra, verifico que o Alfredo [então responsável pela célula de estudantes portugueses exilados em Paris, a trabalhar, e no último ano do curso de “Science Po”] não era cansado que estava, mas sim muito doente. Tinha um linfoma. O meu sogro fez diligências junto da direcção da PIDE para que ele pudesse vir morrer a Portugal. O pedido (primeiro, liminarmente rejeitado) acabou por ser autorizado sob condição de se fazer acompanhar por uma declaração do médico assistente, que assegurasse que ele tinha apenas um mês de vida. O médico de Paris recusou-se a passar a declaração, porque, do ponto de vista deontológico, tal era inconcebível. [Nunca contámos ao Alfredo o que se estava a passar, nem ele fazia ideia, agarrando-se à ideia de que tinha uma tuberculose muito especial e que iria melhorar] Um ano depois, continuava em negação completa, enquanto se preparava para o exame das duas cadeiras com que, em Setembro, terminaria a licenciatura. Foi então que o médico me disse que já estava em condições de passar a dita declaração para a PIDE, e eu consegui convencê-lo a vir para Portugal. Quando descemos do avião, havia na pista uma cadeira de rodas para transportá-lo (ele mal conseguia andar) e um carro da PIDE, com dois agentes que o prenderam e o levaram para a António Maria Cardoso. Só voltei a vê-lo às quatro da manhã. Estava exausto, à beira da morte, quando o foram levar a casa. Morreu exactamente um mês após este episódio, no dia 2 de Dezembro de 1965.

A 14 de Junho de 67, sou presa

Não me restava senão recomeçar a vida – e, para mim, naquela altura, recomeçar a vida significava recomeçar a luta. Era a única forma de andar para a frente. O enterro do Alfredo tinha sido uma consolidação da minha certeza ideológica e da certeza de que os meus amigos do Partido e da luta antifascista iriam estar comigo em qualquer situação. [Não me lembro de, durante o fascismo, ter assistido a um enterro tão grande, centenas de pessoas]. Uma amiga minha desafiou-me para dividir com ela o trabalho de uma página sobre Ciência, no jornal Diário de Lisboa, e eu aceitei, ao mesmo tempo que pensava acabar o meu curso. No passar dos dias, entre muita dor, muita lágrima, numa família escorada por muito afecto, e com muitos amigos por perto, aguardei que o Partido entrasse em contacto comigo. Não tardou. Em Paris, a Maria Lamas tinha, ao longo dos anos, alinhavado comigo um projecto de movimento de mulheres, não enfeudado a nenhum partido e que fosse criado e participado na sua formação, a partir da base. Fiz dessa ideia uma missão que tomei para mim, pedi ao partido que me libertasse de outras tarefas, e voltei a Paris no início de 1966, sobretudo para dialogar sobre isso com Maria Lamas. Isso deu-me algum ânimo. Em 1967, já eu estava muito ligada à organização do PCP, concretizando alguns passos para arrancar com o Movimento de Mulheres [reunira já com Isabel do Carmo, Lígia Veloso, Aida Magro e Conceição Matos], mas era no trabalho da Comissão de Socorro aos Presos Políticos que mais me empenhava [Ainda uma comissão “informal”, que reunia em casa dos Varela Gomes: o Teotónio Pereira, a Eugénia Varela Gomes, a Aida Paula, a Manuela Bernardino, a Cecília Areosa Feio e eu. Recolhíamos dinheiro e assinaturas para a libertação dos presos].

A 14 de Junho de 67, sou presa. A funcionária (clandestina) do Partido, que controlava o organismo a que eu pertencia, suspeitou que podia vir a ser denunciada por um “camarada” e decidiu livrar-se de uma mala comprometedora que tinha em casa. Imprudentemente, na aflição, telefonou para casa dos meus pais, onde eu estava a morar, evocando um motivo plausível (para ser ouvido pela PIDE, sem desconfiança). Quando ouvi a voz dela (nunca me telefonava), tremi, receei o pior, mas ao pressenti-la tão desesperada, também eu imprudentemente, acabei por aceitar um encontro na estação de comboios de Entrecampos. Comprometi-me com ela a encontrar rapidamente um lugar seguro para a dita mala, voltei lá uma hora depois, mas ela não apareceu. Apercebi-me logo de que tinha sido presa. Fui rapidamente para casa, “limpei” tudo e combinei com a minha irmã (minha companheira e cúmplice, toda a vida) um código, para comunicarmos em Caxias. Confirmei as suas suspeitas sobre a minha ligação ao Partido e disse-lhe que estava convencida de que no dia seguinte seria presa. [Fui]. Nas “limpezas” não consegui ter coragem de me desfazer (queimando) um conjunto de mensagens e correspondência – entre presos políticos e a organização ou seus familiares – que me tinham sido entregues «para seguirem». Não dispunha de condições partidárias para fazer outra entrega que não fosse a uma das camaradas do meu organismo, e como, obviamente, não ia levar-lhas, compus um belo de um dossiê, meti num envelope, coloquei-o sobre o bengaleiro, na entrada da casa, e pedi à minha irmã que, se eu fosse presa, as entregasse a determinada pessoa (disse-lhe o nome). Se “eles” viessem prender-me logo de manhã, eu alegaria desconhecer o conteúdo do dito envelope (ou dossiê), e iria jurar que não me pertencia.

Sem grande surpresa, no dia seguinte fui presa no Areeiro, à saída de um autocarro, às duas da tarde. Gritos meus – a gritaria da praxe, que era a “palavra de ordem” no PCP para aquelas circunstâncias – brutalidade deles, 3 carros e meia dúzia de agentes (com o inspector Mortágua a dirigir a operação), aparato demais para prenderem uma militante de base … [Só vim a saber depois, durante os interrogatórios, que a mala de que a funcionária queria livrar-se estava cheia de explosivos, e eles acharam que eu tinha ligação com a luta armada dentro do Partido]. Depois segue-se uma cena nojenta, humilhante, que recordarei até ao fim dos meus dias e que já relatei em livros meus [ainda no carro, um dos agentes põe a mão nas minhas pernas…]. Só queria chegar à António Maria Cardoso, ver-me livre do contacto físico com aquela gente [eu ia apertada entre dois pides]. Subi as escadas da sede da PIDE cheia de medo, mas aliviada por já não respirar o bafo deles. O interrogatório demorou cerca de vinte minutos (mandaram-me logo para Caxias): era um “pro forma”.

Estava sempre num ansiedade (diária) para ir para tortura de sono

À entrada na cela, a porta a fechar-se e a chave de ferro a rodar causaram-me alguma perturbação.

Fiquei no reduto norte, voltada para a frente, para o Tejo. Entre 14 de Junho e fins de Julho fui a três interrogatórios. Estava sempre numa ansiedade, desejando ir [de uma vez…] para tortura de sono. Queria ver-me livre daquilo. Tinha medo e sabia que esse era o meu destino, mais cedo ou mais tarde, sem apelo nem agravo. Não sofri particularmente com o isolamento, arranjava forma de me entreter. Se era um facto que tinha perdido o meu marido havia pouco tempo, que ainda sentia dor da viuvez, por outro lado, (exactamente por isso), tinha criado uma grande resistência, uma grande endurance interior. Depois de escrever duas cartas à direcção da cadeia (ou à PIDE?) a reclamar por estar sozinha, puseram-me noutra cela, também sozinha e voltada para uma barreira enorme de terra, onde só via (lá em cima) um GNR, que nos vigiava caminhando de um lado para o outro. Durante muito tempo, vivi apenas com os meus pensamentos e observando, na terra, o crescimento das florzinhas e as correrias das formigas… Intercalava os meus momentos de prazer, que eram a hora da ginástica e a do café – a minha irmã levava-me “Nescafé”, que eu fazia no púcaro com água quente da torneira. Livros, jornais, papel, caneta ou lápis, lã, linha, agulhas de tricot, e tudo o mais que fui pedindo que me autorizassem (ao longo de cinco meses e tal) nada me foi permitido. Da mesma maneira, o recreio: nem uma só vez fui autorizada a ir apanhar ar e ver o céu...

E assim estive. Nos interrogatórios ia-me apercebendo de que a funcionária tinha «falado», falado muito, com pormenores, tais como de factos que se prendiam com a criação [ainda em embrião] do dito “movimento de mulheres”. A camarada não resistira à tortura do sono e ao isolamento, o que além de me dificultar muito a vida, me dava um enorme desgosto [Eu gostava tanto daquela mulher!]. Confrontaram-me com inúmeras coisas, (a principal das quais era o dossiê com as mensagens dos presos) e eu neguei sempre todo e qualquer envolvimento em actividades políticas. Nunca saí, do 1º ao último interrogatório, de uma frase que sabia de cor e que debitava: « Estou aqui por engano. Confundiram-me com alguém, também de luto». Sobre o dossiê – e tanto que me apertaram! – mantive que nunca o vira, que podia ter sido algum dos clientes do meu pai que frequentavam a casa amiúde, que o teriam esquecido no bengaleiro [eram latifundiários, nunca seriam tocados…]. No dia em que descobri, ao espreitar por uma frincha da porta, que a minha camarada do organismo Aida Paulo, [que já passara por tanto, na PIDE, anos antes], estava presa na cela da frente, tive a confirmação de que a funcionária tinha “falado”. Àquela, a PIDE não arrancaria uma palavra, mesmo torturada – não arrancou e, como a Manuela Bernardino se pôs a salvo para não ser presa, a única hipótese de terem as provas necessárias contra mim seria esperarem pela minha confissão. Apertando-me até ao limite. Não me safaria do sono….

A 28 de Setembro começa a tortura de sono

Depois de terem ficado todo o mês de Agosto e todo o mês de Setembro sem me levarem para interrogatório, no dia 28 de Setembro, finalmente: «A senhora arranje-se para ir a Lisboa». Quando entrei na sala de interrogatório, o inspector disse-me que não valia a pena estar com histórias, porque “tinham um ficheiro completo” sobre mim, e que eu iria ficar ali até confirmar a minha ligação às senhoras que estavam lá presas (sem nunca mencionarem nomes, referiam-se à funcionária, à Aida Paula e, insinuavam, à Manuela Bernardino). Nesse dia à tarde teve início a minha “dose” de tortura de sono. À uma da manhã já eu estava a morrer de sono, o que era incompreensível, porque sendo eu uma jovem de 28 anos, não dormir uma noite era vulgar. [A importância de factores psicológicos!]. O facto de continuarem convencidos de que eu integrava o «cérebro da luta armada» tramou-me. Fui espremida como tal. [Consultando o meu processo na Torre do Tombo, em 2011, com a historiadora Irene Pimentel, fomos surpreendidas por um (invulgar) ofício do director da PIDE ao Ministro do Interior, solicitando autorização para prolongamento do prazo previsto para a minha acusação, justificando com o facto de os 6 meses estarem a esgotar-se e manterem a persuasão de que eu estava envolvida naquele “processo”, mas não disporem ainda de provas suficientes…].

Da minha tortura nunca esqueci aspectos que, sendo pouco referidos por outros presos, [reagimos de formas tão diferentes…] me provocaram uma terrível perturbação: quando os olhos se me fechavam, as fortes pancadas das pides no tampo da mesa (ou o tamborilar dos dedos na madeira) e as batidelas, repetidas, insistentes, com os saltos dos sapatos no chão, pareciam ir levar-me à loucura. As agentes Madalena e Odete eram sinistras, talvez piores que os homens. Não me lembro qual, havia uma que vinha do cinema às tantas da manhã, para render a outra, e ficava a contar-me o filme que vira – dizia que para eu não dormir…. Eu não reagia, seguia o que me tinham ensinado e que fazia parte da «orientação do partido»: não falar com os pides em circunstância alguma, ter cuidado com o que comia, (não fossem eles meter alguma coisa nos alimentos), não responder a provocações. Mantive essa postura e ouvi coisas como: “Revolucionária de merda, é o que tu és! Ao fim de uma ou duas noites já estás que nem te aguentas!”. [E estava]. Às tantas, descobri que, andando na diagonal, enquanto ia para lá conseguia fechar os olhos e dormir uns segundos, e só quando dava a volta é que abria os olhos. Eram momentos preciosos! A pide acabou por descobrir o truque e castigou-me tirando-me a cadeira. Mandou-me encostar à parede e ficar de pé. Deixei-me deslizar até ao chão e assim fiquei. A mulher deu-me um puxão no braço. Respondi-lhe, já muito bêbada de sono: “Estou aqui para fazer tortura do sono, não é para fazer estátua!”. [que louca afirmação!]. Quando tentou puxar-me, dei-lhe uma grande murraça. Foi óptimo: passou-me o sono, porque ela chamou uma catadupa de pides que entraram pela porta dentro e começaram a dar-me empurrões e murros no corpo, evitando a cara. A seguir deram-me a cadeira e mandaram-me sentar. Entrou o inspector com a conversa de que eu podia resolver aquilo em cinco minutos e livrar-me daqueles brutamontes. Com palavras mansas, o homem tentou convencer-me a assinar o auto. Não reagi. «Eu estou aqui por engano. Não sou quem procuravam», ou «Confundiram-me com alguém, também de luto». Pedi para ir à casa de banho e não me reconheci no espelho. A cara estava muito vermelha e parecia uma velha, enrugada. Não sei se era o resultado das alucinações ou se, de facto, aquele era o meu aspecto – mas lembro-me bem da imagem.

Se fores preso camarada …

As reuniões do Partido começavam sempre pelo ponto “Se fores preso camarada”, em que se discutia como proceder em caso de tortura, e se nos sentíssemos a ir abaixo, etc. Tudo aquilo que me tinha sido recomendado, eu fazia. Uma das coisas que nos ensinavam era a fixar atentamente os defeitos no chão, as manchas da pintura nas paredes e no tecto, porque seria aí que aconteciam as alucinações. Por exemplo, era importante identificar os nós da madeira e interiorizar que não eram bichos. Não me lembro precisamente quando, mas entrei em alucinações depois da terceira ou quarta noite sem dormir, e em vez de bichos via um filme (lindo…), na parede por baixo da janela, e, às tantas, com uma música que vinha do teatro São Carlos [era o coro em ensaios]: sobre uma enorme moradia, havia neve, havia uma grande chaminé, chegava um homem com um saco enorme às costas cheio de “Avantes”, que despejava pela chaminé abaixo, tipo Pai Natal. Um dia, não sei o que se passou, [talvez eu me tenha queixado de umas dores horríveis que sentia na coluna], apareceu um médico da PIDE de bata, e fez-me perguntas sobre as dores. Lembro-me de ele aconselhar a PIDE a mandar-me rapidamente de volta para Caxias [ou foram tudo alucinações…]. O certo é que me meteram numa carrinha e ali na descida da António Maria Cardoso para o Cais do Sodré, pareceu-me que a carrinha ia tombar, tão inclinada estava para um dos lados, e gritei ao motorista: «Olhe que leva um pneu em baixo…». Risadas dos agentes que me acompanhavam; “Quem leva a roda em baixo és tu!”.

Tirei o luto nesse dia e nunca mais voltei a pô-lo

Quando cheguei a Caxias, fui às grades tentar falar com as companheiras da cela ao lado [já tinham deduzido que a PIDE me levara para tortura]. Disse-lhes (disfarçadamente, não fosse a guarda ouvir) que não tinha “falado” e pedi-lhes que fizessem chegar isso ao exterior, sossegando o meu pessoal, e à Aida, logo que possível. Aconselharam-me a deitar-me, a descansar, e avisaram-me de que ia ter dificuldade em adormecer. Sem sono e ainda muito confusa, (convencida de que iria para o hospital por causa das dores fortíssimas na coluna), coloquei num saco umas cuecas, uma pera e um maço de cigarros, toquei a campainha para chamar a guarda, sentei-me na borda da cama e fiquei à espera. A guarda apareceu, perguntei-lhe quando ia para o hospital, ela saiu e regressou com um comprimido na mão (Para as dores? Para dormir?), que eu tomei. Disse-me que me despisse, que fosse deitar-me, que estava dispensada de receber o jantar. Dormi até ao dia seguinte e acordei num banho de sangue. Em rigor, veio-me a menstruação em grande hemorragia, mas a memória que ainda hoje tenho é que estava deitada sobre um lençol de sangue.

Teria havido preocupação deles em que eu dormisse, já que eu ia ter a visita semanal com a minha família, no dia seguinte. A tortura tinha acontecido entre duas visitas, e eles terão querido garantir que eu iria apresentável para o «parlatório», para que os meus não se apercebessem de nada. [As visitas eram semanais, de 20 minutos, estávamos separados por um vidro, e na presença de uma guarda e de pides, que não permitiam que se referisse nada sobre a prisão]. Quando entrei no parlatório, a minha mãe, que estava acompanhada pela minha irmã, desatou num pranto: “Ai minha filha! O que é que te fizeram?”. Eu era magra e tinha emagrecido uns 10 quilos. O pide ameaçou terminar a visita e eu mantive-me em silêncio, até me dirigir à minha irmã: «Na próxima visita, mana, traz-me uma blusa com muitas, muitas cores. Há anos, eu jurei que só tiraria o luto quando tivesse uma grande alegria. Espero mantê-la!». Soube quando fui libertada que a minha irmã, quando saiu de Caxias, foi directamente a casa de uma amiga minha, dizer que podiam ficar descansados porque eu tinha sido torturada e não tinha falado. [Quando fui presa, ainda andava de luto. A minha mãe, na morte do Alfredo, tinha-se mostrado muito desgostosa por eu não me vestir de preto, razão por que pus “luto carregado” oito dias depois de o Alfredo morrer. Contrariada. Disse-lhe então que nunca mais tiraria o luto, porque o desgosto nunca me passaria. Tirei o luto quando recebi a blusa de flores, e nunca mais voltei a pô-lo. Na altura senti a felicidade de uma vitória. Não tanto minha, mas uma vitória para o Partido].

A partir daquele dia, nunca mais me levaram à PIDE. Passaram-me para outra cela, onde fiquei, cerca de um mês com a Maria Emília, uma enfermeira excepcionalmente bem humorada, que também tinha sido denunciada pela funcionária e que teve de ir a julgamento. Antes, tinha estado, durante pouco tempo, com duas companheiras funcionárias da clandestinidade, a Lurdes e a Maria, juntamente com uma criança de um ano e meses (pobre menino!) _ os quatro numa cela habitualmente destinada a uma presa.

A 17 de Novembro levaram-me, novamente, para a Rua António Maria Cardoso. Pensei que a tortura ia recomeçar e levei dois casacos de malha, um por cima do outro, convencida de que teria mais noites em branco – e agora com frio, pois era Inverno. Estava enganada. Foi o próprio sub-director da PIDE, Sachetti, quem entrou na sala de interrogatório, para me dizer que queria ter uma conversa comigo: «Quis falar consigo porque é comigo que se vai ver da próxima vez», disse-me. [Oh! Fiquei tão contente!]. «Apanhámo-la verde, mas o que os nossos olhos viram e o que os nossos ouvidos ouviram ninguém apagará. Não tardará a voltar para cá». Mandou-me assinar um auto, parecido com o do dia da entrada, onde eu declarava nunca ter pertencido ao Partido Comunista Português, e abriram-me a porta que dava para as escadas. Desci-as acompanhada por um agente. «Não, não quero ir a Caxias buscar as minhas coisas». Saí em silêncio, sem um tostão comigo, e com o coração aos pulos.

Retomo o contacto com a vida através da morte

A 25 de Novembro, oito dias depois de ser libertada, dão-se as cheias do Ribatejo. As associações de estudantes apelaram à mobilização para o socorro às populações. Lembro-me que foi o meu primeiro contacto com “a minha gente” nas escadarias do Técnico. Depois de levarmos a vacina contra a cólera, partimos para os vales da Lezíria. Para mim esse dia foi um marco. É aí que retomo o contacto com a vida, através da morte. Fomos confrontados com corpos a flutuar, com os despojos das casas. [“Naquelas 12 horas teriam morrido mais de 700 pessoas e mais de mil ficaram desalojadas”].

Em 1967/68 já estava a ser organizado o Congresso da Oposição, que iria ter lugar em 1969. Entro em cheio na campanha da CDE de 69, mas antes já tínhamos dado início ao lançamento das bases do que viria a ser o MDM. [O PCP deu-me todo o apoio, destacando camaradas que se juntaram a mim nesta “tarefa”]. E, de facto, o movimento foi, no seu início, aquilo com que tínhamos sonhado: um movimento amplo com um leque variadíssimo de mulheres, sem cor partidária. Foi um período muito bonito. Em 1970, fui colocada pela primeira vez, como professora, no Liceu Gil Vicente. O movimento já estava implantado, tinha raízes sólidas e um secretariado ao qual eu pertencia. Foi o momento escolhido pelo Partido para me “ordenar” que partisse, saindo da organização do MDM, porque era urgente criar uma organização nos professores.

O José Tengarrinha foi preso pela última vez

Em 1969 tinha voltado a casar, com um amigo de juventude, um companheiro antifascista de lutas e convívios, um homem que me encantava. O José Tengarrinha era escritor, investigador de História e, impedido de leccionar, trabalhava numa agência de publicidade para sobreviver. Ligado ao PCP desde a adolescência, abandonou outras “tarefas” e passou a destacar-se na liderança da CDE.

 


8 de Março de 1969. Aparecem na foto Ferreira Guedes, Aida Paulo, Helena Pato, José Tengarrinha, Gil e a companheira, Fernando Rosas, Aguinaldo e Ana Cabral, Luísa Medeiros e Alfredo Caldeira.

 

Já com um historial de prisões, a 18 de Abril de 1974 foi preso pela última vez. Havia um cenário assaz periclitante [com um companheiro recentemente preso] e tínhamos andado uns dias por Londres, à espera que a situação se definisse. Voltámos convictos de que o perigo havia passado, mas mesmo assim, na noite em que chegámos, queimámos tudo o que pudesse incriminar-nos e atirámos pela janela, para os telhados das traseiras, rolos de imprensa clandestina, atados com um cordel. De manhã cedo, acordámos ao toque da campainha da porta. Não me recordo do que dissemos, mas tenho bem presente a nossa correria, para escondermos a agenda dele por baixo do colchão do porta-bebés onde a nossa menina dormia. Entraram pela casa dentro um inspector e três agentes, imobilizaram o Zé na sala e, calmamente, iam fazendo montes de livros (para levarem), à medida que os iam retirando da estante e folheando. Acordei o meu filho, que tinha cerca de três anos e meio, e preparei-o para ir para a escola. Ao entrar na sala para se despedir do pai, exclamou radiante: “Ó Mãe, quem são estes amigos? Estão a ler os nossos livros? Hoje não quero ir à escola, vou ficar também a ver os livros”. Respondi: “Não são amigos, meu filho!” e ele, de imediato: “Ai não, Mãe? Então vou para a minha escola!”

O meu 25 de Abril foi a 27

Eu fazia anos no dia seguinte, mas a PIDE não autorizou a visita nesse dia e agendou-a para uma semana depois do dia da prisão, isto é, dia 25 às 11 da manhã.


Helena Pato na homenagem aos advogados dos presos políticos do regime fascista (2014).

No dia 24 deitei-me tarde, a preparar coisas para lhe levar. Pelas 4 da madrugada, o telefone tocou na sala e a Elisabete, a empregada que tinha vindo da minha aldeia, [a mesma que estava em casa dos meus pais quando eu fui presa em 1967], foi acordar-me, que estava alguém ao telefone que queria falar comigo. « Está a haver uma revolução e vamos libertar o seu marido». Era uma voz desconhecida de homem, a quem chamei provocador , pedi para me deixar em paz, e desliguei o telefone. O telefone voltou a tocar mais tarde, mas dessa vez o jornalista António Santos identificou-se e disse-me o que se estava a passar [lembro-me do som da rotativa do Diário de Lisboa]. Passei o dia de um lado para o outro, sempre com um amigo da CDE, o Alberto Pedroso. Depois de deixarmos as crianças em casa dos meus pais, seguimos rapidamente para Benfica, para a Rua do Uruguai [casa do Fernando e da Julieta Correia], onde participei numa reunião de famílias de presos políticos. Fui escolhida para ir com a Aida Magro à Sampaio Pina falar ao Radio Clube Português, em nome das famílias. [Apelámos ao povo para que acatasse as orientações do Comando do MFA, que nos havia prometido libertar de imediato os presos políticos]. Ainda pela manhã chegámos ao Forte de Caxias e, depois, passei todo dia próximo da porta, à espera de saber alguma coisa. Como era mulher do Tengarrinha, emissários do MFA e jornalistas iam-me relatando o desenrolar dos acontecimentos. À noite, vi a revolução em imagens, na televisão, enquanto jantava em casa do Alberto Pedroso, que me apoiou todo o dia. Não sei porquê, nem para quê, já a noite ia avançada, fui [com a Ana Maria Alves, o cunhado Manso Pinheiro, o meu irmão e outros familiares de presos] para as imediações da Rádio Comercial, que estava cercada por muita tropa [Não nos deixaram passar]. Voltámos a Caxias e, pelas duas da manhã do dia 26, saí dali para ir a minha casa com a Luísa Amorim. Mal nos demorámos, saímos com café, cobertores e comidas para distribuirmos por um grupo de soldados que estavam acocorados nas escadinhas, ao lado do meu prédio, na Penha de França. De regresso a Caxias, a meio da noite, elementos do MFA disseram-me que estavam a negociar com a PIDE a libertação dos presos, e que receavam que os pides, no Forte, exercessem represálias ou, até, eliminassem todos os presos. Pediram-nos que, para mantermos discrição, nos dirigíssemos para a frente do hospital S. João de Deus, uns metros atrás da cadeia. Estávamos [umas dezenas, poucas, de pessoas] a andar de trás e para a frente, nervosamente, enquanto aguardávamos mais notícias, quando, de repente, ouvimos tiros. Eu, a Luísa Amorim e o Alberto Villaverde Cabral, meus compadres, abraçámo-nos e chorávamos: “Já está!”. Não tardou que alguém chegasse e nos tranquilizasse, dizendo que estava tudo bem encaminhado [os sons que tínhamos ouvido seria de tiros aos patos…] e, pouco depois, fomos autorizados a regressar para junto da entrada da prisão. Vimos os pides saírem da cadeia em carrinhas e, todos nós, pegámos em pedras que lhes arremessávamos, aos gritos de “Assassinos!”. Assistimos à chegada dos fuzileiros, que ocuparam o Forte e se posicionaram ao cimo. Chegou entretanto o Ruivo, com uma furgoneta aberta cheia de cravos que distribui pelos fuzileiros.

Os presos políticos foram libertados só na madrugada do dia 27. Assisti à saída de longe. Tentei aproximar-me do Zé, mas não consegui. Um jornalista procurou-me para me dizer que o José Tengarrinha me mandara um recado: encontrar-se-ia comigo mais tarde em casa, porque “ainda ia ter uma reunião com o MFA e outra com a CDE”. Na verdade, só pude abraçá-lo ao fim da tarde do dia 27, em casa dos meus pais. Separámo-nos em 1983.

Quinze dias após a revolução, eu tinha sido levada num turbilhão de emoções e acção: dava aulas (5 horas por dia), era presidente do concelho directivo da minha escola, integrava a comissão instaladora do sindicato dos professores (de que sou sócia nº3) e pertencia ao secretariado da célula dos professores do PCP (partido de que saí em 1990).

Eles, os meus melhores amigos

O meu filho, João, nasceu em 1970, após uma gravidez complicada. Tive rubéola quando estava grávida de 3 meses e podia ter decidido abortar. [Era até uma das pouquíssimas situações cobertas por lei]. O José Tengarrinha teve uma postura impecável, declarando apoiar-me fosse qual fosse a decisão que eu tomasse. A criança já dava muitos sinais de si e optei/optámos por prosseguir com a gravidez. Foram meses de angústia, mas o João nasceu perfeitíssimo [mesmo!].


Helena Pato, 2016.

A minha filha, Rosa, nasceu em 1972, foi superando a sua fragilidade de infância e, hoje, é uma vencedora de adversidades, uma mulher que admiro. Eles são, ambos, os meus melhores amigos – não é um lugar comum, é um privilégio de que muito me orgulho. Tenho consciência de que não tiveram pais presentes, a cem por cento, no seu crescimento. Não que lhes faltássemos no apoio do dia a dia, mas aquele tempo de lazer, em que os pais habitualmente se dedicam inteiramente aos filhos – férias, fins de semana… -  no nosso caso, foi repartido entre eles e a luta antifascista e, depois, reduzido, quando foi preciso ajudar a implantar a Democracia. Nunca lhes perguntei se, do seu ponto de vista, hoje adultos, terá isso valido a pena, se compreendem a nossa opção no passado. Se bem os conheço, intuo a resposta, mas é uma pergunta que, em minha opinião, por diversas razões, não devo fazer-lhes…

 

12 de Abril de 2017


*Helena Pato - Tem 78 anos, é militante antifascista desde 1956. Foi militante do PCP durante 29 anos, fundadora e dirigente do Sindicato dos Professores (SPGL), fundadora do MDM e dirigente do Movimento Não Apaguem a Memória (4 anos). Licenciada em Matemática, foi professora (36 anos) e teve extensa intervenção pedagógica, quer como orientadora pedagógica, quer em colóquios. Publicou livros de didáctica da Matemática e manuais escolares. Colaborou e dirigiu suplementos de Ciência e de Educação, em jornais diários. É autora de dois livros com apontamentos (autobiográficos) sobre o regime fascista. Criou e coordena, no facebook, a página Antifascistas da Resistência e o grupo Fascismo Nunca Mais. 

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