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A guerra de Starmer para acabar com o Corbynismo

A nova liderança do Partido Trabalhista usou o anti-anti-semitismo como pretexto para atacar o seu antecessor e os seus apoiantes. Mas há quem resista à purga. Por Tariq Ali.
Novembro de 2020. Militantes do Labour manifestam-se em solidariedade com Corbyn. Foto de Socialist Appeal/Flickr.
Novembro de 2020. Militantes do Labour manifestam-se em solidariedade com Corbyn. Foto de Socialist Appeal/Flickr.

Os anos mais recentes da política britânica foram certamente agitados. Uma série de golpes distraiu e dividiu o sistema e os seus fazedores de opinião, forçando-os a ficar na defensiva. Depois da crise financeira e do referendo escocês, o ritmo acelerou com a eleição de 2015, a vitória de Jeremy Corbyn num Partido Trabalhista em rápida expansão, o choque com os resultados do referendo sobre o Brexit, os três anos de crise parlamentar e mais duas eleições. Com os defensores do Brexit nos bastidores a serem corridos de Downing Street e com Starmer a acelerar a purga no Partido Trabalhista, o bloco dominante está de novo na ofensiva. O quão longe e rápido pode avançar, no terreno irregular da pandemia, da recessão e do Brexit, fica por ver. Até porque as forças libertadas desde 2008 ainda fluem.

Vejamos o Partido Trabalhista. A relação de forças dentro do partido confrontava Corbyn com um problema enorme desde o início. Em Westminster, a esquerda dentro do grupo parlamentar trabalhista estava no seu ponto mais fraco de sempre; o galinheiro ainda era dominado por muitos deputados do New Labour. Dizer que a maioria deles desprezava Corbyn seria um eufemismo. Duas tentativas de o depor falharam miseravelmente. Depois chegou a eleição de 2017, na qual o voto trabalhista foi maior do que os dois últimos alcançados por Blair, retirando a May a sua maioria. Muitos dirigentes partidários e deputados tinham esperança de uma derrota esmagadora do Labour. Podia ver-se o desapontamento nas suas caras. A BBC e o Guardian estavam igualmente perturbados. Como podia isto ter acontecido? Um acordo informal foi feito. Dever-se-ia fazer tudo o possível para garantir que Corbyn fosse derrotado. E foi feito. E ele foi.

Já defendi antes que o Partido Trabalhista deveria ter defendido a linha de que o resultado do referendo tinha de ser respeitado, acrescentando que, uma vez que não era obra sua, o governo que o tinha convocado deveria implementá-lo e desta forma o Partido Trabalhista iria abster-se neste tema. Esta teria sido uma posição coerente, facilmente compreensível. May teria implementado um Brexit mais brando do que o agora oferecido e a próxima eleição geral teria sido travada sobre outros assuntos, com o Partido Trabalhista a ter oportunidade de trabalho a partir dos seus avanços de 2017.

Que isto não tenha acontecido deveu-se não apenas à pressão do sistema mas a divisões no interior da esquerda do Partido Trabalhista. O elo mais fraco acabou por ser o supostamente aliado leal de Corbyn e Chanceler sombra. Mas John McDonnell – aclamado pela esquerda branda como “o político mais radical da sua geração” (veja-se Jeremy Gilbert no OpenDemocracy, Owen Jones no Guardian, James Butler no LRB) – já tinha mostrado as suas cores na altura do atentado bombista em Manchester depois das eleições de 2017. Corbyn seguiu os seus instintos políticos, condenando os ataques mas assinalando que não estavam desligados das guerras infinitas dos britânicos no Médio Oriente. McDonnell tinha medo que quebrar o tabu bipartidário sobre política externa fizesse o Partido Trabalhista ser crucificado nos meios de comunicação social, fazendo-os perder apoio. Sondagens privadas e públicas mostraram o contrário – uma maioria de eleitores pensava que Corbyn estava certo. Os meios de comunicação social rapidamente enterraram o assunto.

O mesmo conformismo instintivo fez com que McDonnell e Diane Abbott, a Secretária de Estado para os Assuntos Internos sombra de Corbyn, se juntassem à direita trabalhista para arrastar o processo do Brexit, bloqueando lei após lei na Casa dos Comuns. Abbott, meio a brincar, referiu-se a Corbyn como ‘Ramsay McCorbyn’ por este ter sugerido a abstenção no acordo de maio. Mas nunca falou em ‘Ramsay McDonnell’ por este ter cedido ao bem financiado lóbi dos defensores do Remain – dirigido, claro, por Keir Starmer, cuja nomeação para Secretário sombra para o Brexit era um outro sinal da fraqueza da esquerda.

Como resultado, o Partido Trabalhista não tinha nenhuma resposta quando Boris Johnson se tornou líder dos conservadores em 2019. O seu discurso em frente ao número 10 de Downing Street era claro, coerente, determinado. Já não era conversa fiada. Ele ia respeitar a vontade dos eleitores e fazer o Reino Unido sair da União Europeia. Desastrosamente, os companheiros mais próximos de Corbyn começaram a jogar com a ideia de um governo não eleito-governo de coligação para travar o Brexit. Isto vinha junto com uma barragem contra Corbyn por parte do Guardian-BBC, insinuando que ele era um anti-semita; o que verdadeiramente deveriam dizer era que ele apoiava as aspirações palestinianas a um Estado e se opunha às guerras neo-imperais dos EUA e Reino Unido no Médio Oriente. Mais eficaz junto dos eleitores, uma campanha nas redes sociais dos Tories visava-o como traidor. Foi uma guerra sem quartel para acabar com Corbyn. Quase conseguiram.

Starmer foi eleito como esperado para líder dos trabalhistas com 56% dos desmoralizados militantes, com a promessa de “unificar o partido”.

Apesar dele preferir agir furtivamente, a sua estratégia é transparente. Nascido em 1962 numa família de classe trabalhadora no sul de Londres, Starmer ganhou nome como advogado na firma liberal Doughty Street Chambers e supostamente trouxe um pano de fundo de defesa dos direitos humanos à sua nomeação por Brown como Diretor do Ministério Público. Mas os direitos protegidos no cargo foram sobretudo os de polícias e espiões. Starmer decidiu não acusar os polícias que assassinaram Jean Charles de Menezes ou Ian Tomlinson, ou os agentes do MI5 e MI6 acusados de tortura em Bagram e noutros lugares. Enquanto isso, exibia-se durante os julgamentos dos detidos nos motins de 2011 para louvar os juízes pelas suas sentenças duras. O seu gabinete deu despacho expedito à extradição de Julian Assange, avisando a procuradora sueca Marianne Ny, “não se atreva a hesitar!”

Quando deixou o cargo em 2013, recebeu a Ordem do Banho pelos seus esforços e foi-lhe oferecido o lugar parlamentar seguro de Holborn & St Pancras por Ed Miliband. Fez parte da primeira tentativa falhada para afastar Corbyn em julho de 2016, depois entrou sem percalços no Governo Sombra três meses mais tarde para gerir a campanha de bloquear o Brexit, que ajudou a selar o destino do Labour. Depois de ganhar a liderança, disse aos membros que era tempo de aceitar o resultado do Brexit.

Starmer não se está a dar ao trabalho de se posicionar face aos eleitores. Num sistema bipartidário, calcula que, mais cedo ou mais tarde, o cansaço dos Tories signifique que chegou a sua vez. Em vez disso, está a tentar ganhar o sistema a seu favor – para provar que será um executor seguro. É por isso que membros do seu grupo – A. Rawnsley e T. Helm no Observer, R. Behr e P. Toynbee no Guardian, S. Bush no tabloidizado New Statesman, que apresentavam uma imagem pirosa do seu herói como um cavaleiro num cavalo branco – estão a papaguear incessantemente os mesmos soundbites: “sob nova gestão”, “sério”, “profissional”, “capaz”, “competente”, “responsável”, “sóbrio”. Tudo qualidades que se puderam testemunhar em outubro quando Starmer atropelou um ciclista da Deliveroo enquanto fazia marcha-atrás com o seu SUV num cruzamento congestionado, a caminho do seu alfaite, e fugiu antes da ambulância ter chegado. (O Guardian diplomaticamente minimizou a história enquanto a imprensa de direita e os jornais locais a noticiavam em grande.)

Acima de tudo, ser “sério” significa que apenas 110% de conformismo aos princípios neo-imperiais servirá.

Ao Conselho de Deputados dos Judeus Britânicos, de maioria Tory – ou ao próprio hiper-corrupto e de extrema-direita Netanyahu – foi dado poder de veto sobre as polícias externas dos trabalhistas. Foi solicitada uma purga do partido e Starmer seria o Purgador-Chefe. Um dos seus primeiros atos foi impor um carreirista blairista de segunda classe, David Evans, como secretário-geral – um seguidista dos anos 1990 que ganhava dinheiro cobrando taxas de “consultadoria” às autarquias trabalhistas. Depois Rebecca Long-Bailey, a sua rival na corrida à liderança, foi relutantemente aceite no Governo. Mas, para grande aplauso da sua claque, foi despedida por ter partilhado uma publicação no Twitter que criticava as técnicas policiais israelitas – um sinal de boas vindas, vangloriava-se Rawnsley no Observer, que queria dizer que a “unidade” seria feita nos seus termos.

Mas a cereja no topo do bolo seria a expulsão de Corbyn do partido. Não era segredo que o seu gabinete estava a equacionar qual seria o melhor uso a dar ao relatório sobre anti-semitismo feito pelo EHRC, um grupo financiado pelo governo, e que acusava Corbyn. O relatório em si continha dececionantemente poucas provas. Em vez disso, Evans atacou a resposta leve que Corbyn lhe tinha dado e que condenava todo o anti-semitismo, sublinhava que o relatório considerava que, durante a sua permanência no cargo, a forma de lidar com este tinha melhorado, notava que os oponentes tinha exagerado a questão por razões políticas e esperava que, apesar de não aceitar todas as conclusões, as recomendações do relatório fossem implementadas rapidamente. Por estes sentimentos inócuos, Evans suspendeu Corbyn do partido nesse mesmo dia (um membro da Comissão Executiva Nacional depois informou que tinha sido Starmer a tomar essa decisão).

Evans enfrentou uma onda de indignação vinda dos núcleos locais do partido, anunciando que moções de apoio a Corbyn ou críticas ao EHRC não seriam levadas em conta. O seu gabinete rapidamente suspendeu membros do partido em Bristol West que estavam a apelar a que Corbyn fosse aceite de volta.

A vice-líder Angela Rayner – que até há bem pouco tempo estava a insistir no programa Newsnight da BBC que Corbyn tinha lutado contra o anti-semitismo e o racismo toda a sua vida – considerava agora o seu comentário “totalmente inaceitável” e ameaçava que estava preparada para suspender “milhares e milhares”. A esquerda do partido podia ter então apresentado a sua demissão em massa dos cargos ocupados, dando por bem-vinda a oportunidade para desafiar o projeto de Starmer. Não o fez. Em vez disso, Corbyn ficou sob uma pressão massiva dos seus aliados mais próximos para pedir desculpa – unidade acima de tudo. Voltou atrás lançando uma “clarificação”.

Em 17 de novembro, uma sub-comissão do Executivo Nacional do Labour, sob controlo de Starmer, reintegrou Corbyn como membro do partido. Starmer declarou zangado no dia seguinte que Corbyn iria ser à mesma excluído do grupo parlamentar e não se poderia sentar na bancada trabalhista. O resultado tem sido uma nova onda de protestos das delegações locais do partido – Liverpool, Londres, Edimburgo, Penrith, Newcastle, Bolton, Cardiff, Hastings, Hull, Carlisle. Até esta data, um total de 80 núcleos do partido desafiaram a interdição de discutir a suspensão de Corbyn, aprovaram moções de solidariedade para com ele ou criticaram os diktats da direção central sobre o que se pode discutir numa reunião do partido. Entre elas estão trinta núcleos que nomearam Starmer. 14 membros da Comissão Executiva Nacional assinaram uma carta a criticar o líder e líderes sindicais – do Unite, dos trabalhadores da comunicação, dos bombeiros – estão a debater reter os fundos atribuídos ao partido.

O que fica claro é que a purga de Starmer não é nem competente, nem profissional, nem juridicamente fundada, nem sóbria, sendo mal ponderada, executada desastradamente e aberta a contestação legal. A suspensão de Corbyn foi lançada nos meios de comunicação social antes dele ser informado, não dizia que regra tinha ele quebrado, foi anulada pelo painel da Comissão Executiva Nacional e depois relançada unilateralmente, a nível do grupo parlamentar é um processo disciplinar interno – o que é contrário às recomendações da EHRC que Starmer e Evans tinham insistido que tinham de ser seguidas.

Starmer caiu numa armadilha que ele próprio fez. Apesar de as eleições para a Comissão Executiva Nacional de novembro de 2020 lhe terem dado uma maioria (21 entre 39 membros, um aumento dos 18 que detinha anteriormente), permitindo-lhe selecionar candidatos a deputados e avançar com a sua caça às bruxas de maneira mais livre, vai ser preciso uma alteração de estatutos e talvez um voto em conferência (que não deve acontecer antes de setembro de 2021) para implementar o novo mecanismo disciplinar que o EHRC quer. Qualquer jogada contra Corbyn sob o velho sistema seria ilegítima segundo as próprias declarações de Starmer.

Entretanto, muitos dos que agora estão a ser suspensos por criticarem a guerra de fações do líder, supostamente empreendida em nome do anti-anti-semitismo, são judeus. Incluem a ativista veterana da Voz Judaica do Labour, Naomi Wimborne-Idrissi, o académico socialista Moshé Machover, fundador do grupo israelita Matzpen, acusado de ter estado presente numa manifestação de solidariedade com a Palestina (Machover tinha sido expulso em 2017 mas foi readmitido depois da indignação internacional). Em breve, Starmer terá expulso mais judeus do Partido Trabalhista do que qualquer dos seus antecessores. O sinal já está dado: nenhum judeu não-sionista é bem-vindo. Contudo, o próprio Kenneth Stern, autor da controversa “definição de trabalho” do IHRA, avisou contra usá-la para dizer que “expressões anti-sionistas são inerentemente anti-semitas e devem ser suprimidas”. Última reviravolta: dois ramos locais do partido em East London proibiram uma recolha de fundos para as crianças palestinas num passeio de bicicletas de caridade, citando ordens de Evans.

No início de 2020, muitos votaram em Starmer na esperança de que ele “evitasse excessos” mas mantivesse o essencial do programa social-democrata criado por Corbyn e McDonnell. Mas já abandonou os “Dez Compromissos” da sua campanha para a liderança, como se gabava em outubro numa entrevista com Rawnsley e Helm no Observer. Tal como Blair e Brown, não oferece nenhuma oposição séria às políticas conservadoras e é subserviente a Washington. Anteriormente, era a propósito do Iraque e do Afeganistão. Agora, mutatis mutandis, é sobre a China. Em julho, Starmer reuniu com o Secretário de Estado dos EUA, Pompeo, para o tranquilizar de que o Partido Trabalhista tinha voltado a entrar nos eixos. Para o provar, disse a Pompeo que o Reino Unido deveria ser mais duro para com a China, não apenas banir a tecnologia de 5G da Huawei mas também impor sanções aos dirigentes chineses suspeitos de abusos dos direitos dos seres humanos. Mas estes são tempos diferentes. A política é muito mais volátil do que era nos anos 1990 e há sinais de oposição.

Irá nascer “um grande carvalho de uma pequena bolota” ou será que a atual rebelião na militância trabalhista irá desvanecer? Muito vai depender das ações do Grupo de Campanha Socialista da ala esquerda dos deputados. Em meados de novembro passado, apenas 18 dos 34 membros deste grupo tinham assinado um apelo para que a suspensão de Corbyn fosse revogada. Alguns deles estão a aconselhar Corbyn a rastejar até que seja plenamente reintegrado. Isto seria um erro, uma vez que o objetivo dos seus inimigos é destruir a sua postura de político honesto. Iria enfraquecer, não dar mais força à esquerda dentro e fora do Partido Trabalhista.

Faltam três anos até às próximas eleições gerais. Um Partido Trabalhista Independente com meia dúzia de deputados e uma militância de cerca de 50.000 pessoas – o número de pessoas que já saíram desde que Starmer assumiu o controlo – poderia constituir um avanço efetivo. As ideias do New Labour chumbaram no teste da Escócia. Perderam o Norte e não serão bem sucedidas indefinidamente em Gales. O momento Corbyn de 2017 dificilmente se repetirá no interior do Partido Trabalhista. É um espelho partido.

Corbyn continua igual a si mesmo, andando de conferência online em conferência online a defender a causa palestiniana, opondo-se à política internacional dos EUA, insistindo em nacionalizar os serviços de utilidade pública e reverter as privatizações na saúde. O seu recentemente anunciado Projeto Paz e Justiça é uma ação positiva; na escuridão invernal de Starmer e da Covid é um cheiro a primavera. É uma iniciativa multi-temática, aberta a quem esteja dentro e fora do Partido Trabalhista, no Reino Unido e fora dele; mais de 20.000 pessoas já se inscreveram. Vão haver problemas iniciais, sem dúvida, mas a criação de uma nova plataforma política e movimento online é um passo em frente. Corbyn é um conhecido apreciador de Shelley e como contraposição à prolixidade de roedores bem conhecidos – como Laura Kuenssberg da BBC, assim como Rawnsley, Behr, etc. – que alegremente voltaram a subir a bordo do navio do Labour, as palavras finais de Prometheus Unbound parecem adequar-se-lhe bem: “Nem mudar, nem vacilar, nem se arrepender”.


Tariq Ali é escritor e realizador. Membro do Comité Editorial da New Left Review, escreve em vários jornais e é leitor de Filosofia, Política e Economia do Exeter College de Oxford.

Texto publicado no Viento Sur, tradução do original publicado no blogue Sidecar da New Left Review. Tradução de Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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