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Evolução das assimetrias na UE (1): Leste converge, Sul diverge

Com elevadas dívidas externas, economias muito assentes no turismo e afastada do centro do continente, a Europa meridional arrisca a tornar-se, a curto prazo, na área mais pobre do continente. Por Jorge Martins.
Bandeira da União Europeia. Foto de Rock Cohen /Flickr.
Bandeira da União Europeia. Foto de Rock Cohen /Flickr.

Num momento em que se discutem os últimos detalhes dos montantes e das condições de ajuda da União Europeia aos países mais afetados pela crise económica resultante da pandemia e em que renascem as velhas divisões entre Norte e Sul do continente, que em muito contribuíram para a crise do euro, interessa analisar a evolução das assimetrias entre países e regiões da UE.

Para o efeito, considerei os dados do Eurostat, referentes ao Produto Interno Bruto (PIB) por habitante (“per capita”) dos diferentes Estados membros, ajustado às paridades do poder de compra (PPS) em três momentos, separados cada um por uma margem temporal de cinco anos: 2018 (correspondente aos dados mais recentes), 2013 (no auge da crise do euro) e 2008 (imediatamente antes de a Europa ser atingida pela Grande Recessão).

PIB “per capita”: um indicador com muitas insuficiências

Não sendo economista, sei que o PIB “per capita” é um indicador manifestamente insuficiente para detetar todas as dimensões das desigualdades existentes num dado espaço geográfico.

Com efeito, o PIB mede a riqueza produzida num país, região ou território num dado período de tempo (em geral, um ano), mas, numa perspetiva capitalista, exclui todas as atividades que não possuam valor mercantil, como o trabalho doméstico.

Por outro lado, tem apenas em conta o crescimento económico, não permitindo saber se este se traduz num verdadeiro desenvolvimento humano sustentável (por exemplo, ignora os impactes ambientais que ele gera).

Por outro lado, se considerarmos apenas o valor agregado, não sabemos qual(is) a atividade(s) económica(s) responsável(eis) por aquele. Um exemplo típico são as economias dos países monoprodutores e monoexportadores de petróleo, que apresentam elevados valores do PIB, sem que isso corresponda a um efetivo desenvolvimento. Ou regiões que concentrem grandes praças financeiras, gerando um grande afluxo de capitais a esses territórios, sem que as respetivas populações deles beneficiem na mesma proporção.

Mas, fundamentalmente, não consegue medir a forma como a riqueza gerada é distribuída pela população. Dois países podem apresentar iguais valores do PIB por habitante, mas um pode corresponder a uma sociedade igualitária e outro a uma altamente desigual. Assim, ao dividir-se o valor do PIB pelo número de habitantes do espaço em causa para calcular o PIB “per capita”, obtemos apenas um valor médio, que nada nos diz sobre as desigualdades sociais.

Também não mede o impacto do custo de vida para o usufruto dessa riqueza, já que, mesmo que ela seja igual em dois territórios, para a população não é indiferente que num os preços sejam, em geral, mais baixos e noutro mais altos. Daí o ajustamento que se faz, frequentemente, de acordo com as paridades do poder de compra.

A evolução do PIB “per capita” PPS nos “27” nos últimos 10 anos

Feitas estas advertências, vou utilizar, na minha análise, o PIB “per capita” PPS em percentagem face à média da UE por ser a medida utilizada para a implementação das políticas de coesão económica e social da União Europeia.

De acordo com esse indicador, se aquele, num dado país ou região, tem o valor de 100%, significa que é igual à média da UE; se for maior, é superior a esta; se for menor, é inferior.

Atenção que a diminuição desse valor não significa, necessariamente, que um dado país tenha entrado em recessão, mas apenas que cresceu menos que a média da UE, enquanto outros terão crescido acima desse valor. Estamos a trabalhar, pois, com valores relativos e não absolutos.

Outra advertência: os valores para os três períodos referidos referem-se aos atuais 27 membros, não considerando, em nenhum deles, os dados referentes ao Reino Unido (que abandonou a UE em janeiro deste ano) e considerando os da Croácia em 2008, apesar de esta só ter aderido em 2013.

De forma a captar um padrão geográfico das desigualdades, farei uma breve análise a cada país, mas integrando-os numa de três grandes regiões geopolíticas e geoeconómicas: Sul (Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Chipre e Malta), Oeste e Norte (França, Bélgica, Luxemburgo, Holanda, Alemanha, Áustria, Irlanda, Dinamarca, Suécia, Finlândia) e Leste (Estónia, Letónia, Lituânia, Polónia, República Checa, Eslováquia, Hungria, Eslovénia, Croácia, Roménia e Bulgária).

Exceto se fizer outra referência, quando refiro um valor percentual, estou a referir-me ao PIB “per capita” PPS desse país ou região em percentagem da média dos “27”.

Vou, então, passar à análise dos dados.

Europa do Sul

Dela fazem parte um país fundador, a Itália (membro desde 1957), a Grécia (que aderiu em 1981), Portugal e Espanha (ambos em 1986), Chipre e Malta (os dois em 2004).

Todos eles integram a zona euro: Itália, Espanha e Portugal são fundadores, integrando a moeda única desde 1999, a Grécia desde 2001 e os dois estados insulares desde 2008.

À exceção do Norte e de algumas regiões centrais de Itália, bem como da Catalunha e do País Basco, no estado espanhol, era uma área que, à data da adesão, se caracterizava por um significativo atraso económico relativamente ao resto da Europa.

Com a adesão, estes países beneficiaram muito dos fundos estruturais e de um maior afluxo de investimento estrangeiro, experimentando um significativo crescimento económico. Contudo, a globalização neoliberal (em especial, após a entrada da China na OMC), a adesão ao euro e o alargamento à Europa Central e Oriental criaram bastantes dificuldades a estas economias frágeis, tecnologicamente menos avançadas e ainda muito assentes, em alguns casos, em setores de mão de obra intensiva, caracterizados pelos baixos salários, e em agriculturas menos competitivas e com produções menos apoiadas pela Política Agrícola Comum (PAC) que as do resto do continente.

Por isso, com exceção de Malta, por razões que avançaremos adiante, todas elas foram fortemente golpeadas pela crise do euro. A “troika” entrou na Grécia, em Portugal e no Chipre, a Espanha recorreu a um resgate bancário e ela e a Itália só não tiveram de recorrer à “troika” porque a dimensão das suas economias tornava o custo do seu resgate incomportável para os mais ricos e constituía um risco para as instituições credoras. Mario Draghi fez, então, aquela célebre declaração em que declarou “fazer tudo para salvar o euro”, colocando o BCE a intervir em força nos mercados secundários, comprando dívida dos países periféricos, o que reduziu as taxas de juro e, consequentemente, os custos do seu financiamento.

A Grécia foi, de longe, o país mais penalizado. Apesar de ser ainda muito rural, com uma industrialização relativamente incipiente, a sua economia vinha, em 2008, de um período de elevado crescimento económico, muito potenciado pelos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, o que levou o país para o meio da tabela da UE, com 95%. Contudo, esse crescimento alicerçara-se num forte endividamento externo, mas o governo conservador de então, com a ajuda do banco de investimento internacional Goldman Sachs, maquilhou os graves desequilíbrios macroeconómicos do país. Quando o novo governo socialista “destapou” a situação, a Alemanha recusou apoiar os gregos, levando, em 2010, ao rebentamento da impropriamente chamada crise da dívida, que atingiu os países periféricos da zona euro. As medidas austeritárias levadas a efeito pelo governo do centro-direita, entretanto regressado ao poder, levaram o PIB grego a cair cerca de 25%, pelo que, em 2013, aquela cifra cai para 72%, sendo o país ultrapassado por Portugal, Malta e, inclusive, por cinco Estados do Leste. A quebra da sua posição relativa continuou até 2017, quando “bateu no fundo”. Em 2018, era o 4º país mais pobre da UE, em igualdade com a Letónia e só acima de Roménia, Croácia e Bulgária.

A Itália é outro país cuja economia vem, desde então, num plano descendente. Em 2008, estava nos 108%, juntamente com a França. Durante muito tempo, as suas exportações, que associavam qualidade aos benefícios de uma moeda fraca, foram um dos principais sustentáculos do seu crescimento económico. Com a adesão ao euro, perdeu essa vantagem competitiva face à Alemanha e aos outros países ricos do continente. Por isso, foi um dos que mais sofreu com a adesão ao euro, passando a registar crescimentos económicos medíocres, o que agravou, em muito, a sua dívida externa, a segunda maior da zona euro. Com a crise da moeda única a atingir o país, Berlusconi foi forçado a demitir-se, sendo substituído por um governo “tecnocrático”, liderado por Mario Monti, que impôs políticas de grande austeridade. A recessão que ela implicou levou a que aquele valor, em 2013, caísse para os 100%. Em 2018, a perda continuou. Assim, fixou-se, então, em 97%, o que lhe valeu a ultrapassagem por parte de Malta.

Também para a Espanha este período também foi crítico. Em 2008, o país experimentava uma década de elevado crescimento económico, alicerçado no imobiliário, no consumo privado e no turismo, traduzida num valor de 102% em 2008, ultrapassando a média da UE. Contudo, com o rebentamento da “bolha imobiliária” e consequente crise bancária, só sustida graças ao apoio financeiro do Estado, as contas públicas do país entraram “no vermelho”. Com as políticas austeritárias levadas a efeito pelo governo conservador de Rajoy, a economia contraiu-se e, em 2013, aquele valor reduzia-se para 90%. A partir de 2015, ocorreu uma ténue recuperação, muito devida ao turismo e ao novo crescimento do setor imobiliário, mas a verdade é que a subida daquele indicador foi residual, fixando-se, em 2018, nos 91%. O país foi ultrapassado por Malta, “agarrado” pela República Checa e tem de novo o Chipre “à perna”.

Portugal também sofreu bastante neste período, com a crise do euro a expor as debilidades estruturais da nossa economia e da nossa sociedade, bastante desigual para os padrões europeus. Desde 2002, após o célebre “discurso da tanga” de Durão Barroso, que a economia portuguesa vinha crescendo de forma lenta. Em 2008, aquele indicador encontrava-se nos 82%. Após o rebentamento da crise da dívida na Grécia e a falta de resposta concertada da UE, a par com a disfuncionalidade da construção do euro, era uma questão de tempo até o nosso país ser atingido. Com o Estado a correr em socorro da banca, as contas públicas deterioraram-se. Em 2011, o governo de Sócrates foi obrigado a pedir a intervenção da “troika” e as políticas austeritárias do executivo de Passos Coelho e Paulo Portas só agravaram a situação. A recessão que se seguiu levou a que, em 2013, caísse para 78% e a queda só não foi maior porque outros países foram igualmente atingidos. Contudo, a nossa posição relativa manteve-se inalterada, já que fomos ultrapassados por Malta e apanhados pela Eslováquia, mas passámos a Grécia. Apesar da recuperação ocorrida a partir de 2015, assente no crescimento exponencial do turismo e do imobiliário, ela foi menor que a de outros países, pelo que, em 2018, aquele valor era de 77%. Assim, a Estónia e a Lituânia, que estavam já muito perto, ultrapassaram-nos, embora tenhamos descolado da Eslováquia, que entrou recentemente em crise. Atualmente, encontramo-nos no 19º lugar entre os “27”, estando oito estados atrás de nós.

Já a economia do Chipre teve um comportamento em V. Beneficiando do seu papel de “paraíso fiscal”, especialmente aproveitado pelos oligarcas russos para as suas “lavagens” de dinheiro, o país cresceu rapidamente, atingindo os 107%, logo atrás da França e da Itália. Contudo, a grave crise bancária de 2013, que levou à intervenção da “troika” e a uma inédita limitação dos movimentos de capitais no seio da Zona Euro, provocou uma forte recessão e aquele valor caiu para 84% no final desse ano, o que levou à sua ultrapassagem por Espanha, Malta e República Checa. Aos poucos, a economia cipriota foi recuperando, devido ao crescimento do turismo, mas também do seu renovado estatuto de “paraíso fiscal”, já que alguns capitais acabaram por regressar à ilha. Assim, em 2018, o Chipre atingia os 90%, mantendo a sua posição relativa na tabela, mas já “colado” à Espanha e à República Checa.

Malta é um caso particular na Europa Meridional. O país não foi atingido pela crise do euro e tem sido um dos membros da UE que experimentou um grande crescimento económico desde 2008, quando se encontrava nos 80%, atrás de Portugal, República Checa, Eslovénia, Grécia, Espanha, Chipre e Itália. Em 2013, aquela cifra subira para 86% e ultrapassara aqueles países, à exceção de Espanha e Itália, que seriam, porém, ultrapassados em 2018, quando aquele valor atingiu os 99%, ou seja, quase igual à média dos “27”. Claro que este “milagre” é explicado pelo seu estatuto de “paraíso fiscal” e o seu papel crescente de “lavandaria” internacional, com suspeitas de ligações do governo ao branqueamento de capitais do crime organizado, que estiveram na base do assassinato da jornalista de investigação Daphne Caruana.

Europa do Oeste e do Norte

A Europa Ocidental constitui o núcleo central do processo de integração europeia, dela fazendo parte cinco dos seis que a fundaram, em 1957 (França, Bélgica, Luxemburgo, Holanda e Alemanha), mais a Irlanda (membro desde 1973) e a Áustria (que aderiu em 1995). Todos eles integram o euro desde o início, em 1999. O Reino Unido, que entrou também em 1973, nunca integrou a moeda única e saiu no final de janeiro deste ano, na conclusão do Brexit.

Da Europa do Norte, apenas três países integram a UE: a Dinamarca (desde 1973), a Suécia e a Finlândia (ambos aderentes em 1995). Contudo, apenas este último adotou o euro como moeda, tendo sido um dos seus membros fundadores, em 1999.

Do ponto de vista do rendimento, estamos em presença de duas áreas igualmente ricas e, por isso, vou trata-las em conjunto, pese embora as diferenças existentes do ponto de vista social (os países nórdicos são sociedades relativamente igualitárias, com um robusto Estado Social, apesar da degradação que se tem vindo a verificar com o avanço das políticas neoliberais regressivas) e no tempo e modo de integração na UE (bem maior na Europa ocidental). Se excetuarmos a Irlanda, que aproveitou muito bem os fundos estruturais e a adesão, e a ex-RDA (que só integrou a União em 1990, na sequência da reunificação alemã) todos os restantes eram já ricos antes de aderirem à UE, sendo dotados de indústrias de elevado valor acrescentado, altamente competitivas, de uma mão de obra educada e qualificada, de um Estado Social assente em serviços públicos de qualidade e de padrões de consumo de qualidade por parte de grande parte da população.

Contudo, a ascensão do neoliberalismo e a globalização (em especial, devido ao aumento da concorrência da China, à fuga de capitais para “offshores” e às deslocalizações de empresas para território chinês ou de outros países de mão de obra barata) tornaram o quadro menos “cor de rosa”, tendo como consequência o aumento da pobreza e da exclusão social, que atingem partes cada vez mais significativas da população. Por isso, alguns dos estados mais ricos viram os valores relativos do seu PIB “per capita” PPS relativamente à média da União deteriorar-se. A resistência aos apoios aos países do Sul da Europa, frequentemente pontuadas por um discurso moralista e de base racista sobre estes (os “preguiçosos” e gastadores”) face aos do Norte (tidos como “trabalhadores” e “frugais”) é também muito consequência desta realidade, tal como a adesão às teses da extrema-direita que fazem dos imigrantes e dos refugiados os “bodes expiatórios” de todos os problemas dos respetivos países. É daqui que parte o euroceticismo egoísta, cuja expressão mais forte foi o Brexit.

O Luxemburgo é, segundo este indicador, o país mais rico, não só da UE, mas também do mundo. Contudo, se é certo que os luxemburgueses ganham bem e o custo de vida é bastante acessível, não serão os mais ricos do planeta. O país é um “paraíso fiscal” para os bancos, que aí são coletados para não pagar impostos, o que gera a declaração de elevados valores de riqueza. Se tivermos em conta que estes são divididos apenas por cerca de 400 mil habitantes, o PIB “per capita” atinge números elevadíssimos. E como os baixos impostos originam, igualmente, preços mais acessíveis, o seu ajustamento à paridade do poder de compra contribui, ainda, para aumentar esse efeito. O seu afastamento da economia real levou a que esse indicador se mantivesse praticamente constante, com uma perda sem significado estatístico (266%, 264% e 263%, em 2008, 2013 e 2018, respetivamente).

Surpreendentemente, a Irlanda surge como o 2º país mais rico. Mas, aqui, o nosso indicador está ainda mais inflacionado. A partir dos anos 90, o país encetou uma agressiva política de atração de investimento estrangeiro, assente numa política fiscal “amiga” das empresas que investissem no país. Beneficiando dessas medidas, da sua proximidade com os EUA, onde existe uma grande diáspora irlandesa, de ter o inglês como a língua oficial mais falada e de uma mão de obra qualificada, mas mais barata que a britânica, o país logrou atrair um grande número de multinacionais tecnológicas estadunidenses, que se fixaram primeiro em Dublin e, mais tarde, também no sul do país. É isso que explica o seu elevado valor do PIB “per capita”, que não tem, contudo, tradução no nível de vida da maioria da população irlandesa, cujo rendimento médio é semelhante ao italiano. O país, onde aquele valor era, em 2008, de 136%, só atrás de Luxemburgo e Holanda, foi obrigado a pedir a intervenção da “troika” em 2010, após o rebentamento da “bolha imobiliária”, que quase provocou a falência de todo o seu sistema bancário. Contudo, como o PIB é mais influenciado pelas empresas estrangeiras que pela economia nacional, apenas caiu para 133% em 2013, quando se viu igualado pelo da Áustria. Contudo, a recuperação foi rápida e, nos últimos anos, viu ele atingir uns “estratosféricos” 191%, o que vale ao país o 2º lugar destacado na tabela. Mas, repetimos, é uma cifra enganadora e já houve um ministro das finanças a sugerir a criação de um PIB paralelo, só para medir a riqueza criada por empresas e cidadãos nacionais.

A Alemanha é a maior potência económica da UE e a que mais preservou a sua indústria. Daí ser um dos poucos países desta área que viu a sua posição relativa e absoluta melhorar no período em análise. A reunificação obrigou a um grande investimento no leste do país, que muito pressionou os cofres do Estado e levou, até, à criação de um imposto para o seu financiamento na parte ocidental. Desde o início do século, o país tirou partido do euro e da globalização, passando a apostar menos no mercado interno e mais nas exportações, beneficiando do facto de estas, pela sua elevada qualidade, não serem tão influenciadas pelo preço como as da Europa do Sul. Em 2008, estava no 8º lugar na tabela, com um valor de 118%. A crise do euro, que afetou alguns dos seus parceiros europeus e levou a um maior afluxo de capitais ao país, e a crescente procura chinesa beneficiaram a economia alemã, que viu aquele valor crescer para 125% em 2013, ultrapassando a Finlândia. A estagnação do consumo e a substituição de algumas importações por parte da China provocou uma pequena “travagem” na produção industrial germânica, o que levou aquela cifra a reduzir-se um pouco, fixando-se, em 2018, nos 123%. Mesmo assim, subiu ao 6º posto, por troca com a Suécia.

A vizinha Áustria, cuja economia está muito ligada à germânica, teve um comportamento semelhante aquela. Em 2008, era, junto com a Dinamarca, o 5º país mais rico da UE, com 127%. Numa primeira fase, a crise do euro pouco a afetou, apesar da exposição dos seus bancos à Hungria e à Eslovénia. Daí que, tal como os seus vizinhos alemães, tenha visto aquele valor atingir 133% em 2013, ultrapassando a Suécia e apanhando a Irlanda. Contudo, nos últimos anos, o desacelerar da economia do seu grande vizinho levou a que o crescimento económico austríaco não tenha sido famoso, pelo que, em 2018, aquela cifra estava nos 128%, acabando o país ultrapassado por Irlanda e Dinamarca.

A Bélgica mostrou a mesma evolução em V invertido. Em 2008, o valor daquele indicador era de 116%. Apesar de possuir uma elevada dívida pública, esta é detida, maioritariamente, por instituições nacionais, pelo que o país foi pouco afetado pela crise do euro. Acresce que, nesse período, esteve mais de ano e meio sem governo federal e não pôde adotar políticas de austeridade, pelo que a sua economia continuou a crescer, atingindo 122%, o que lhe permitiu ultrapassar a Finlândia. A partir daí, algumas medidas de cariz austeritário levaram a uma travagem da economia belga e aquele valor caiu para os 118%.

A França, em 2008, encontrava-se nos 108%, a par com a Itália. Apesar das crescentes debilidades estruturais da economia francesa, não sofreu muito com a crise do euro, já que a sua dívida foi sendo vista como relativamente segura, embora menos que a alemã. Assim, viu aquele valor crescer para 110% em 2013, não tanto graças ao seu próprio crescimento, mas beneficiando do efeito estatístico da queda verificada nos países periféricos. Contudo, a partir daí, a sua economia começou a “derrapar”, o que explica o início da revolta dos “coletes amarelos”, em finais de 2018, ano em que aquela cifra, a cair desde então, se fixou em 104%, ou seja, pouco acima da média, afastando o país do chamado “pelotão da frente”, em especial da Alemanha.

Contudo, é a Holanda o país da Europa ocidental que mais tem vindo a perder, encontrando-se num plano inclinado desde 2008. Nesse ano, estava em 2º lugar, apenas atrás do Luxemburgo, com uns invejáveis 143%. Contudo, no ano segunte, a sua economia foi atingida pela Grande Recessão global e entrou também em recessão. Apesar de se ter tornado um “paraíso fiscal” para as empresas estrangeiras, permitindo que estas aí se registem, beneficiando de um regime fiscal muito favorável, mesmo que não desenvolvam atividade produtiva no país, viu aquela cifra cair para 137% em 2013. A queda continuou, com nova recessão um ano depois e aquele valor a quedar-se pelos 130% em 2018, levando o país a ser ultrapassado pela Irlanda e a ver a Dinamarca e a Áustria muito perto. O menor dinamismo da economia alemã, à qual se encontra bastante ligada, e a substituição de importações por parte da China contribuíram para a continuação da quebra. Apesar do seu elevado desenvolvimento tecnológico e da sua elevada capacidade exportadora, o país é uma economia muito aberta e, por isso, muito propensa a choques externos. É esta realidade, por muitos desconhecida, de uma economia estagnada, que explica, em parte, as reticências dos governos holandeses a ajudar os países do sul da Europa.

Na Europa do Norte, a Dinamarca é a economia que se tem revelado mais estável. Em 2008, encontrava-se nos 127%, juntamente com a Áustria. Estando fora do euro, não sofreu as turbulências que afetaram a moeda única e, em 2013, viu aquele subir para os 130%, ultrapassando a vizinha Suécia. Atualmente, encontra-se em 129%, uma pequena descida sem significado estatístico, e que não a impediu de ascender à 4ª posição da tabela, ultrapassando a Áustria e colada à Holanda.

Já a Suécia tem tido um desempenho económico bem menos positivo. Em 2008, era o 4º país mais rico, atingindo os 129%. Também não integra o euro e, após um primeiro impacto da Grande Recessão, recuperou bem. Em 2013, aquele valor descera ligeiramente para 128%, o que lhe acarretou, desde logo, ficar atrás da Dinamarca e da Áustria. Contudo, a economia sueca foi perdendo competitividade, em especial devido à concorrência estadunidense e asiática no setor tecnológico, e entrou em recessão em 2016. A partir daí, tem sido sempre a descer. Em 2018, cifrava-se em 121%, tendo o país sido ultrapassado pela Alemanha e vendo a Bélgica mais perto. Este fator explica, em parte, o crescente mal-estar social, traduzido no apoio crescente à extrema-direita, e a sua resistência em ajudar os países do Sul.

Por fim, a Finlândia também não tem motivos de regozijo. Na última década do século passado e na primeira deste, experimentou um elevado crescimento económico, sendo apontado por muitos como modelo a seguir, assente nos elevados níveis educativos da maioria da população e numa aposta forte na inovação tecnológica. Assim, tornou-se a 7ª economia mais rica da UE e atingiu os 123%, à frente da Alemanha. O problema é que esse sucesso assentava, em grande medida, numa empresa: a Nokia, antiga companhia estatal de telecomunicações, que se tornou numa das maiores empresas tecnológicas do mundo. Nesse período, chegou a ser a única multinacional europeia no “top 10” das mais lucrativas. Contudo, se a solidez das gigantes estadunidenses do setor e o aumento da concorrência asiática criaram dificuldades financeiras à empresa finlandesa, a Grande Recessão foi-lhe fatal. A Nokia colapsou, acabando por ser vendida à Microsoft para evitar a falência. Com isso, toda a economia do país se ressentiu e, em 2013, aquela cifra reduzira-se para 115%, já atrás da Alemanha e da Bélgica. Desde 2011 que o seu crescimento económico tem sido fraco e só em 2018 logrou travar a descida daquele indicador, situado nos 112%. Não por acaso, a extrema-direita, até aí muito pouco expressiva, ganhou apoios e logrou um rápido crescimento eleitoral. É também por isso que mostra pouca disponibilidade para apoiar o Sul.

Europa do Leste

A Europa do Leste corresponde, para este efeito, aos países da UE que, até ao final da guerra fria”, tiveram regimes ditos “comunistas” e economias baseadas na planificação central.

Constitui, por isso, a área geográfica mais recente da União Europeia. Dela fazem parte 11 países, oito dos quais aderiram em 2004 (Estónia, Letónia, Lituânia, Polónia, República Checa, Eslováquia, Hungria e Eslovénia), dois em 2007 (Roménia e Bulgária) e um em 2013 (Croácia). Destes, apenas integram o euro a Eslovénia (desde 2007), a Eslováquia (2009), a Estónia (2011), a Letónia (2014) e a Lituânia (2015). Dos restantes, a Croácia poderá aderir em breve.

Estamos em presença de uma área que se encontrava, do ponto de vista do rendimento e das infraestruturas, bastante atrás dos seus parceiros na data da adesão. A transição para o capitalismo teve grandes custos sociais, quer pelo encerramento de grandes indústrias tecnicamente obsoletas e que foram, pura e simplesmente, encerradas, causando um aumento exponencial do desemprego, quer pela perda de alguns benefícios do Estado Social, fruto da adoção do modelo neoliberal. Contudo, o acesso aos fundos estruturais e o grande afluxo de investimento estrangeiro a essa área até então quase “virgem” para este permitiu um rápido crescimento económico nos anos que se seguiram à adesão, tal como havia acontecido com a Europa do Sul. O facto de possuírem uma mão de obra mais barata que a do Ocidente e com elevados níveis de qualificação contribuiu para atrair as multinacionais a estes países e, em alguns deles, encetar rápidos processos de inovação tecnológica. Por outro lado, à exceção da Roménia e da Bulgária, mais periféricas, beneficiam de uma situação geográfica muito favorável, em especial a proximidade com a Alemanha. Estando quase todos fora do euro quando da crise que afetou a moeda única e tendo ainda necessidade de modernizar as suas infraestruturas, para o que mobilizaram bastante investimento público e privado, tiveram, no período em análise, um bom desempenho económico, que lhes permitiu reduzir a distância face ao resto da UE.

A República Checa é, atualmente, o mais rico destes países. Sendo o único deles já industrializado antes da 2ª guerra mundial, tinha, junto com os alemães de leste, o nível de vida mais elevado do antigo “bloco soviético”. E, apesar de, após o esmagamento da “primavera de Praga”, o modelo assente na coletivização agrícola quase total e na indústria pesada se tenha consolidado, a transição para o capitalismo foi menos dolorosa que nos países vizinhos, já que alguma da sua indústria sobreviveu. Em 2008, já se encontrava nos 85%. Apesar de estar fora do euro, os cinco anos seguintes não foram famosos e, após uma pequena descida, aquele valor mantinha-se, em 2013, na mesma percentagem, embora tivesse subido duas posições: ultrapassada por Malta, mas beneficiando das quedas abruptas da Grécia e do Chipre e, em menor grau, da Eslovénia. A partir daí, a sua economia voltou a crescer em bom ritmo e, em 2018, atingia já 91%, “agarrando” a Espanha.

Segue-se a Eslovénia. A pequena e mais desenvolvida república da ex-Jugoslávia foi o país que mais cresceu logo após a adesão. Já então mais próspera que as restantes repúblicas da extinta federação jugoslava, onde a economia era menos centralizada que nos países do “bloco soviético” e já existiam alguns mecanismos de mercado, a transição para o capitalismo foi mais suave. Em 2008, registava um valor de 91%, ultrapassando Malta e Portugal e aproximando-se da Grécia. Contudo, o país, que aderira ao euro um ano antes, acabou por se ver a braços com uma crise bancária. Embora tenha evitado a intervenção da “troika”, as medidas austeritárias provocaram uma recessão e a economia eslovena teve crescimentos muito fracos durante mais de meia década. Em 2013, aquela cifra situava-se nos 83%, levando o país a ser ultrapassado pela República Checa e pelo Chipre, embora tenha beneficiado da queda abrupta da Grécia. A partir de 2016, a sua economia recuperou e, em 2018, já subira para 88%, perto de Chipre, República Checa e Espanha.

A Estónia foi um dos países desta área que maior crescimento apresentou. Pequeno país, anexado pela ex-URSS em 1940 e independente desde 1991, foi, durante a ocupação soviética, a república tecnologicamente mais desenvolvida daquela. Com uma população bastante qualificada e com relações próximas com a vizinha Finlândia, cuja língua é bastante semelhante, e também com relações históricas com a Alemanha e porta de entrada de produtos europeus na Rússia e outros estados da ex-URSS, aproveitou bem a adesão. Em 2008, estava a 70%. Em 2011, aderiu ao euro e, em 2013, esse valor já se cifrava em 77%, ganhando uma posição à custa da Grécia e colando-se à Eslováquia e a Portugal. O seu crescimento continuou em bom ritmo e, em 2018, aquele indicador era de 82%, tendo ultrapassado aqueles dois países.

A Lituânia é outro dos três estados bálticos, cuja história recente é semelhante à estoniana. Contudo, ao contrário daquela, era uma república essencialmente rural. Por isso, em 2008, estava apenas a 64%. Porém, a sua forte ligação com a Alemanha e também com a Polónia, um importante mercado, bem como a proximidade com a Rússia (em especial, o enclave de Kaliningrado) e outras repúblicas ex-soviéticas foram bem aproveitadas pelos lituanos, tal como os fundos estruturais. Assim, encetou um importante processo de modernização económica e tecnológica, que lhe tem garantido elevados crescimentos económicos. Assim, em 2013, aquele valor já era de 74%, deixando a Grécia para trás. Em 2015 aderiu ao euro, mas a economia continuou a crescer, atingindo os 81%, à frente de Portugal e da Eslováquia e muito perto da Estónia.

A Letónia é o mais pobre dos estados bálticos, embora tivesse sido, em tempos, o mais industrializado. A sua história recente é semelhante à dos seus vizinhos estónios e lituanos. Com o desmantelamento de algumas indústrias, a transição foi mais complicada que a daqueles. Em 2008, o PIB “per capita” PPS estava em 60% da média da UE. Contudo, no ano seguinte, Valdis Dombrovskis, atual comissário europeu da Economia, então primeiro-ministro, encetou uma política de grande austeridade, com cortes de 25% nos salários, o que provocou uma forte recessão. Contudo, tal como os países vizinhos, tirou partido das suas relações privilegiadas com os países nórdicos, bem como da proximidade com a Rússia e a Bielorrússia. Por isso, a recuperação, iniciada em 2011, foi rápida e, em 2013, aquele valor subira para 63%. Um ano depois, o país entrou no euro. O seu crescimento económico reduziu-se nos anos seguintes, mas, em 2017, o seu desempenho voltou a melhorar e, em 2018, atingia os 69%, permitindo ao país “apanhar” a Grécia.

A Eslováquia é, destes países, o único que teve, no período em análise, uma evolução em V invertido. Constituindo a parte rural e mais pobre da extinta Checoslováquia, possuía alguns pequenos produtores agrícolas privados e foi alvo de uma industrialização com base nas indústrias pesadas e de armamento. Com a transição para o capitalismo, a maioria dessas indústrias ficou pelo caminho, gerando um enorme aumento do desemprego. Ainda hoje, a taxa de desemprego do país é muito superior à média europeia. Tendo aderido à UE em 2004 e, tal como os seus vizinhos, beneficiado do afluxo de capitais provenientes dos fundos estruturais e do investimento estrangeiro, em especial da Alemanha, com quem partilha uma história de boas relações, estava, em 2008, nos 73%. Tendo aderido ao euro em 2009, não sofreu com a crise deste e continuou a crescer em bom ritmo, tendo aquele atingido os 78% em 2013, já à frente da Grécia e a par de Portugal. A partir daqui, passou a experimentar grandes dificuldades e, em 2016, sofreu uma forte recessão, que terá sido devida à menor competitividade das suas exportações, face à crescente concorrência asiática e, também, ao menor dinamismo das economias alemã e austríaca, os seus principais investidores. Após ter “batido no fundo”, no ano seguinte, começou a recuperar e, em 2018, aquele indicador cifrava-se em 74%.

A Polónia foi outro país que aproveitou bem a adesão à UE para crescer economicamente. Ao contrário da restante Europa de Leste, a sua agricultura foi pouco coletivizada e assentava em grande número de pequenos agricultores. Já a indústria seguia o padrão habitual do “bloco soviético”, assentando, em grande parte, nos setores pesados e nas minas. Por isso, a transição para o capitalismo teve custos elevados, em especial o aumento do desemprego. Em 2008, quatro anos depois da adesão, era o 3º país mais pobre da UE, apenas à frente da Roménia e da Bulgária, que só aderiram no ano anterior, com apenas 56%. Contudo, o país possui duas enormes vantagens, que soube aproveitar muito bem: a existência de um grande mercado potencial (é o 5º país mais povoado da UE, com quase 40 milhões de habitantes), o que levou a um afluxo massivo de capitais, sob a forma de investimento estrangeiro, e a sua situação geográfica, vizinha da Alemanha, que, rapidamente, se tornou o seu principal investidor e parceiro comercial, e também da Ucrânia, Bielorrússia e Rússia (enclave de Kaliningrado), para onde serve de porta de entrada de produtos oriundos da UE. Se a isso juntarmos os fundos estruturais, utilizados para obras de modernização de infraestruturas básicas, explicamos o grande crescimento económico dos anos seguintes. Ainda para mais, não tendo integrado o euro, ficou fora da crise da moeda única. Por tudo isso, experimentou um crescimento muito rápido até 2012. Assim, em 2013, aquele valor subiu para 68%, o que lhe valeu ultrapassar a Croácia e a Letónia e “agarrar” a Hungria. Nos últimos tempos, passados alguns desses efeitos, a que se juntam o aumento da concorrência asiática e as políticas austeritárias do governo liberal-conservador de Donald Tusk, o país cresceu de forma modesta, embora com ligeira aceleração a partir de 2016. É que, apesar do seu reacionarismo, o PiS desenvolve, geralmente, políticas menos liberais e menos austeritárias no plano económico. Em 2018, aquela cifra encontrava-se nos 71%, já à frente da Grécia.

A Hungria foi outro país que teve um bom desempenho económico após a adesão. Contudo, o seu crescimento foi menos exuberante que o polaco. As reformas encetadas pelo último líder comunista, Janos Kadar, no sentido de criar alguns mecanismos de mercado e uma indústria menos anquilosada do ponto de vista tecnológico que as dos seus parceiros do antigo “bloco soviético” facilitaram a transição para o capitalismo, mesmo que com os custos sociais a ela associados. Em 2008, encontrava-se nos 64%, tal como a Lituânia e a Croácia. Apesar da sua posição no centro do continente, o seu efetivo populacional, semelhante ao português, é um mercado menos atrativo, pelo que não beneficiou tanto do investimento estrangeiro como outros países vizinhos ou próximos, pese embora o importante papel da vizinha Áustria nesse particular. Apesar de não integrar o euro, sofreu um princípio de crise bancária em 2012, com reflexos na banca austríaca. Em 2013, aquele valor subiu para 68%, deixando a Croácia para trás, mas vendo fugir a Lituânia e deixando-se apanhar pela Polónia. Apesar de uma recessão em 2016, recuperou e voltou a crescer em bom ritmo, com aquela cifra nos 71% da média, igual à Polónia, mas à frente da Grécia. É, aliás, o razoável desempenho económico e a adoção de políticas igualmente menos liberais e menos austeritárias que a dos seus antecessores do centro-esquerda que explica a permanência do apoio de uma franja significativa da população ao autoritarismo de Orbán e ao seu partido.

A Roménia é outro país que experimentou um elevado crescimento económico, em especial nos últimos anos. O último líder comunista, Nicolae Ceaucescu, gostava de apresentar, externamente, o seu regime como independente da URSS, mas, a nível interno, era o mais estalinista do “bloco soviético”. Quando foi derrubado, a economia encontrava-se em grandes dificuldades e o nível de vida da população era bastante baixo. A transição para o capitalismo não ajudou e, quando aderiu à UE, em 2007, o país continuava muito pobre, bem abaixo dos 50%, pouco acima da Bulgária. A adesão, com o acesso aos fundos estruturais e o aumento do investimento estrangeiro, contribuiu para uma forte subida e, um ano depois, em 2008, aquele valor atingiu os 52%. Apesar de não estar no euro, a Grande Recessão refreou o investimento das multinacionais, a que se somou a falta de confiança destas no país, em especial devido a uma corrupção que se tornara endémica. Por isso, só em 2012 a economia voltou a crescer e, em 2013, aquela cifra era de 55%. Contudo, sendo um importante mercado (quase 20 milhões de pessoas), acabou por ver o investimento internacional afluir ao país, onde, ainda para mais, as suas infraestruturas necessitavam de urgente modernização. Os últimos anos foram, assim, de forte crescimento económico, em especial a partir de 2015. Em 2018, aquele indicador cifrava-se já em 66%, com o país a ultrapassar a Croácia e a aproximar-se da Grécia.

A Croácia é um caso intrigante. Era a 2ª república mais rica da ex-Jugoslávia, atrás da Eslovénia, mas, ao contrário dos seus vizinhos, envolveu-se nas guerras balcânicas, entre 1991 e 1995, com todo o seu cotejo de morte e destruição. Contudo, com apoio da Alemanha, da Áustria e dos EUA, recuperou bem e, em 2008, estava nos 64%. Em 2010, sofreu uma crise bancária e entrou em recessão até 2013, ano da sua adesão à UE, em que aquele valor desceu para os 60%, vendo Lituânia e Hungria descolar e a Letónia a passar-lhe à frente. A recessão prolongou-se por mais um ano, mas, a partir de 2015, os fundos estruturais e o turismo ajudaram a melhorar a situação da economia do país, que voltou a crescer, embora de forma não muito exuberante. Em 2018, aquele indicador subiu para 63%, mas isso não evitou a sua ultrapassagem pela Roménia, pelo que o país é, atualmente, o 2º mais pobre da UE, tendo atrás de si apenas a Bulgária.

Por fim, a Bulgária, apesar de continuar a ser o país mais pobre da UE, tem experimentado alguma convergência com o resto da União, embora a debilidade da sua economia e das suas infraestruturas e a corrupção endémica provoquem grande dificuldades. País rural, bastante alinhado com a ex-URSS, com uma agricultura coletivizada e uma pequena e obsoleta indústria pesada, foi sempre pobre e a transição para o capitalismo só acentuou as dificuldades da maioria da população. A sua posição relativamente periférica e a pequena dimensão do seu mercado também não ajudam muito a captar os favores do investimento estrangeiro. Quando aderiu, em 2007, estava pouco acima dos 40%, valor que subiu para 43% em 2008. Com altos e baixos, chegou aos 46% em 2013. A partir daqui o crescimento foi mais rápido, atingindo aquela cifra os 51% em 2018.

Conclusão

Descontando as insuficiências do PIB “per capita” PPS como indicador, podemos concluir que, nos últimos 10 anos, tem havido, na globalidade, alguma convergência no seio da UE. Contudo, esta não abrange todas as zonas mais desfavorecidas da União.

Com efeito, se os países mais ricos das regiões ocidental e setentrional do continente têm, em geral, mantido ou, em alguns casos, visto reduzir-se o seu avanço relativamente à média da UE e os mais pobres da Europa central e oriental conseguiram aproximar-se daquela, alguns deles de forma relativamente rápida, o mesmo não se passou com a Europa do Sul, que, não só se afastou desse valor de referência, mas também viu o Leste aproximar-se. Com elevadas dívidas externas, economias muito assentes no turismo, um dos setores mais afetados pela pandemia, e afastada do centro do continente (em especial, da Alemanha, cada vez mais a grande potência da União), a Europa meridional arrisca a tornar-se, a curto prazo, na área mais pobre do continente. Oxalá esteja enganado!

NO PRÓXIMO ARTIGO: As desigualdades nos “27” a nível regional.

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Membro da coordenadora concelhia de Coimbra do Bloco de Esquerda
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